Parasita coreano gera surto de autoralidade

Parasita coreano gera surto de autoralidade

Rodrigo Fonseca

19 de julho de 2019 | 11h31

Na esteira de Cannes, festivais de cinema em Locarno e San Sebastián se rendem à estética de Bong Joon-ho e sua afiada comédia com temperos coreanos
Rodrigo Fonseca

Entre as aguardadas atrações do 72º Festival de Locarno, a ser aberto no dia 7 de agosto com o drama italiano “Magari”, de Ginevra Elkann, há uma palestra que chegará com fôlego para ofuscar os mais potentes concorrentes ao Leopardo de Ouro de 2019: o diretor sul-coreano Bong Joon-ho e seu ator-fetiche, Song Kang-ho, vão conversar com a plateia do evento suíço sobre a Palma de Ouro dada a “Parasite”. Esta comédia de erros virou um acontecimento autoral em Cannes, sendo abraçada com ardor pelos franceses. E, não por acaso, o filme sai de lá diretamente para o San Sebastián, para ter uma projeção especial na  67ª edição do festival espanhol, que vai de 20 a 28 de setembro. Em Locarno, Kang-ho vai ganhar uma homenagem pelo conjunto de sua carreira. A parceria dele com Joon-ho será festejada com “Memórias de um assassino” (2003), com exibição no dia 12. A dupla vai falar de sua carreira no dia 13, no Spazio Cinema.

“Eu me considero um realizador de filmes de gênero, que lida com cartilhas próprias, mas que busca fugir de obviedades. E tenho um lado passional: quando ‘O hospedeiro’ foi lançado eu lembro de ter sentido muito ódio de filmes de monstro como o meu”, disse o cineasta na coletiva de imprensa dos vencedores – e ele venceu com unanimidade do júri.

O ator Song Kang-ho, com a pizza na mão em cena de “Parasite”, vai ser homenageado em Locarno pelo conjunto de sua carreira

Hilário… pelo menos até o momento em que descamba para o derramamento de sangue, “Parasite” segue os passos de uma família de picaretas profissionais que inventam as mais estapafúrdias ideias para se esquivarem de guardas que podem prendê-los pelos delitos que cometem. O foco aqui é a realização de um crime específico: infiltrar toda o clã na casa de um casal de ricaços, que precisa de babá, de governanta, de motorista. Todos estão dispostos a fingir que vieram para ajudar: mas o que querem é conforto, dinheiro, prazer. Mas há algo de inusitado guardado no porão do casarão que eles tentam transformar em lar.

“Miyazaki, o mestre japonês da fábula animada foi uma grande inspiração para a minha vida e para ‘Okja’, que concorreu à Palma em 2017. Mas aqui, não, eu preferi um modelo coreano a fim de ter um parâmetro. Minha influência aqui não vem da carga de liberdade da arte de Miyazaki, mas de um diretor, coreano específico: Kim Ki-Young, que dirigiu ‘A criada’ e nos deu uma forma particular de representação”, diz Bong, ansioso para que o longa emplaque ainda no gosto dos espectadores.

Além de “Parasite”, a seleção de San Sebastián já divulgou parte de suas pepitas douradas. A competição oficial vai contar com três longas espanhóis: “La hija de um ladrón”, de Belén Funes; “La trincheira infinita”, de Aitor Arregi, Jon Garaño e Jose Mari Goenaga; e o esperado “Mientras dure la guerra”, que marca a volta do badalado Alejandro Amenábar (“Os outros”). Vai ter ainda um batidão do que se viu de melhor na Berlinale e na Croisette, começando por “Les Misérables”, thriller social que deu ao francês de origem maliana Ladj Ly o Prêmio do Júri cannoise, em empate com o pernambucano “Bacurau”. Nele, três policiais enfrentam uma rebelião dos moradores de um subúrbio majoritariamente negro de Paris em retaliação a uma agressão contra um menino daquela periferia. Esse enfrentamento marca um levante do povo contra uma instituição de controle estatal.

De Cannes, foram trazidos ainda o novo Ken Loach (“Sorry We Missed You”) e a comédia de tons assistencialistas e motivacionais “Hors Norme”, de Eric Toledano e Olivier Nakache (a dupla de “Intocáveis”). De Berlim veio o comovente drama chinês “So long, my son”, de Wang Xiaoshuai, que traça um paralelo entre as transformações sociais da China e o período de 30 anos de luto de um casal, atomizado pela perda de um filho. Na capital alemã, em fevereiro, o longa conquistou os Ursos de Prata de melhor atriz e ator, dados a Yong Mei e Wang Jingchun.

San Sebastián vai passar o mês todo anunciado atrações inéditas. Já Locarno vai contar com o longa-metragem brasileiro “A febre”, de Maya Da-Rin, entre seus concorrentes.

A diretora fez barulho no exterior, em 2010, com “Terras”. Agora, de volta à direção, ela retrata a realidade de Manaus, ao seguir a rotina de Justino, um indígena viúvo de Manaus que ganha a vida como vigia de um porto de cargas.

Na trama de Maya, Justino entra em um estado febril no momento em que o bairro onde mora é assolado pela presença de um animal selvagem. O filme de Maya vai concorrer com diretores de prestígio como a dupla búlgara diretoras Mina Mileva e Vesela Kazakova (em concurso com “Cat in the wall”); os portugueses Pedro Costa (um popstar autoral, no páreo com “Vitalina Varela”) e João Nicolau (com “Technoboss”); e o japonês Kôji Fukada, que foi indicado ao evento com “Yokogao”.

Vai ter uma dupla dose de Brasil na seleção de curtas-metragens Pardi di Domani, do festival mais importante da Suíça, com a animação “Carne”, de Camila Kater (que traz a baiana Helena Ignez em seu elenco) e com “Chão de rua”, de Tomás von der Osten. Vai ter ainda um exercício narrativo com duração de 23 minutos da dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, chamado “Swinguerra”, na seção Moving Ahead. E, numa seara de retrospectivas, a seleção de 47 produções ligadas à representação das populações negras, chamada Shades of Black, dá espaço para marcos da integração racial como “Abolição”, de Zózimo Bulbul (1988), e para “Amor maldito”, de Adélia Sampaio (1984).

Tendências: