‘Parasita’, ‘Cold War’ e outras bossas da ACCRJ

‘Parasita’, ‘Cold War’ e outras bossas da ACCRJ

Rodrigo Fonseca

08 de dezembro de 2019 | 10h00

Indicado a três Oscars, “Guerra Fria” foi um dos eleitos da ACCRJ

RODRIGO FONSECA
É fim de ano, data em que as principais entidades de análise teórica do cinema promovem suas votações anuais para selecionar os grandes filmes vistos no ano corrente. Sábado foi o dia de a Associação de Críticos do Rio de Janeiro (ACCRJ), presidida por Ana Rodrigues, escolher os seus favoritos. Na enquete, a (devastadora) “comédia gastroenterológica” sul-coreana “Parasita” (Gisaengchung), de Bong Joon Ho (Coreia do Sul, 2019), foi eleita o melhor filme do ano. Os outros nove títulos são:
– “A Favorita” (The Favourite), de Yorgos Lanthimos (Irlanda, Reino Unido e Estados Unidos, 2018);
– “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz (Brasil e Alemanha, 2019);
– “Ad Astra: Rumo às Estrelas” (Ad Astra), de James Gray (Estados Unidos e China, 2019);
– “Assunto de Família” (Manbiki kazoku), de Hirokazu Koreeda (Japão, 2018);
– “Coringa” (Joker), de Todd Phillips (Estados Unidos e Canadá, 2019);
– “Dor e Glória” (Dolor y gloria), de Pedro Almodóvar (Espanha e França, 2019);
– “Era Uma Vez em… Hollywood” (Once Upon a Time… in Hollywood), de Quentin Tarantino (Estados Unidos, Reino Unido e China, 2019);
– “Guerra Fria” (Zimna wojna), de Pawel Pawlikowski (Polônia, Reino Unido e França, 2018);
– “O Irlandês” (The Irishman), de Martin Scorsese (Estados Unidos, 2019).
Os homenageados, postumamente, pela entidade, em seu balanço do ano, são: a atriz Ruth de Souza, a cineasta Agnès Varda e Carlos Brandão, ex-presidente da ACCRJ e delegado da FIPRESCI na América do Sul. Já a “Melhor iniciativa cinematográfica de 2019” será concedida a Carlos Alberto Mattos pelo livro “Sete Faces de Eduardo Coutinho”, que rendeu exposição, mostra e curso – e merecia um Troféu Jabuti por sua potência analítica e sua escrita saborosa.

Muitos destes filmes estão ainda em cartaz, no auge de sua visibilidade, por conta do Oscar. Daí, o P de Pop resolveu destacar um dos dez que não está mais em circuito, porém segue imortal em nossos corações: “Cold War”.

Trata-se de um trabalho que ficou impresso a brasas em nosso imaginário ultrarromântico, sulcado em nosso peito por sua excelência narrativa. É difícil pensar em um diretor que tenha dado ao amor descabelado uma dimensão plástica (e ética), no pathos do querer, tão possante quanto o inglês David Lean (1908-1991) deu a suas incursões ora intimistas (“Desencanto”, 1945), ora épicas (“Doutor Jivago”, 1965) ao bem querer. Lean foi único, e merecia mais atenção e prestígio do que tem. A força de seu legado se faz notar quando realizadores dos de hoje emulam sua visceralidade, caso de Pawlikowski. Houve também Boris Barnet (1902-1965), russo por trás de “À beira do mar azul” (1936), que salpicava humor na massa áspera do desejo. E há Philippe Garrel (“Amantes constantes”), mas este, francês, vai por uma metafísica na qual a paixão é doença, febre que arde a uma temperatura ferevente. Em Lean, paixão era um norte, não um cadafalso. Como ele, talvez só haja o já citado Pawel, polonês responsável por tocar Caetano e Gil no suarento “Meu amor de verão” (2004). Um dos nomes de maior popularidade entre os artistas da Polônia, ele alcançou prestígio ao ganhar o Oscar com “Ida”, em 2015. Mas ali, num terreno de certo exibicionismo, ele era só um artesão. Um artesão embevecido com o próprio rigor técnico, dada a força plástica de suas imagens em preto e branco. Não havia a transcendência que transpira de cada quadro (aliás, um mais rigoroso do que o outro) de “Guerra Fria”, produção de €4,3 milhões pela qual ele conquistou o prêmio de melhor direção em Cannes. Com bilheteria de 20 milhões, “Cold War” ficou na mira da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, indicado a estatuetas em três categorias: melhor diretor, filme estrangeiro e fotografia, coroando os enquadramentos de Lukasz Zal, por toda sua beleza plástica na saturação do P&B. Temos um romance desvairado e doído como os de Lean, como uma canção de Lupicínio Rodrigues: o maestro Wiktor (Tomasz Kot) e a cantora Zula (Joanna Kulig), revelada por ele, entram numa simbiose de almas em meio à realização de um espetáculo e, para fugir do controle do Estado, ganham a Europa à cata de paz. Mas existe o amor e existe a vida, sua inimiga. Nas andanças, em anos de vai e de vem, erráticos, por muitos países, o certo vira errado, o desacerto se torna acerto, e brotam demandas a serem vencidas, como ciúme, posse, gastura… É um filme sobre correntes que libertam e liberdades que agrilhoam: um ensaio sobre a hipótese do perpétuo no efêmero da vida a dois. Um filme que a ACCRJ coloca em um pedestal honrado, para se redesenhar na História de cidade como um farol de coragem e excelência.

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