Parabéns, Ruy Guerra: 89 anos de poesia

Parabéns, Ruy Guerra: 89 anos de poesia

Rodrigo Fonseca

22 de agosto de 2020 | 13h14

O realizador de “Os Fuzis” (1964) em entrevista ao .doc “O Homem Que Matou John Wayne”, de Diogo Oliveira, em destaque no Canal Brasil Play

Rodrigo Fonseca
Selecionado esta semana para concorrer no 48º Festival de Gramado (18 a 26 de agosto) com “Aos Pedaços”, que exibiu no início de 2020, antes da pandemia, em Roterdã, na Holanda, Ruy Alexandre Guerra Coelho Pereira completa 89 anos neste sábado, desfrutando do prestígio de ser um dos mais inquietos criadores do cinema brasileiro, fazendo da origem moçambicana e portuguesa um motor para seu olhar multiculturalista. Celebrando a data, o Canal Brasil Play exibe o doce “O Homem que matou John Wayne”, carta de amor em forma de biopic que o diretor Diogo Oliveira fez as partir das vivências de Guerra, nas telas e na conjugação diária do verbo “resistir”. O filme entrelaça documentário e ficção, pavimentando um caminho poético através das ideias de seu “ator”/objeto. A confissão desse assassinato metafórico abre a caixa de Pandora da obra do realizador de “Os Fuzis” (Urso de Prata – Prêmio do Júri – na Berlinale em 1964) e do fenômeno de bilheteria “Os Cafajestes” (1962). “Segundo Santo Agostinho, o Tempo é encontro de duas inexistências. De um lado está o passado – que, como já passou, não existe mais – e do outro está o futuro – um saco vazio a ser preenchido pelo que ainda não existe. Logo, o Tempo é uma ilusão. Dez anos pra mim é ontem. Decidi que só vou morrer aos 117 anos, pois gosto de números ímpares. Por isso mesmo, eu me impus a chegar aos 21 filmes daqui até eu completar cem anos, pois, dali pra frente, foi me dedicar a ser escritor”, disse o cineasta em uma entrevista de 2014 à revista lusa “Metrópolis”, em meio às filmagens de “Quase Memória”, que deu a ele o Prêmio Especial do Júri no Festival do Rio de 2015.

O jovem Ruy Guerra em “Aguirre, a Cólera dos Deuses” (1972), de Werner Herzog

Fotografado pelo sempre caudaloso Pablo Baião, “Aos Pedaços” tem Simone Spoladore, Christiana Ubach, Emilio de Mello e Julio Adrião em seu elenco. Na trama desta produção que alvoreceu o ano na Holanda, sob a consagração de Roterdã, um sujeito chamado Eurico Cruz amanhece irritado. Sabe que algo está por acontecer. Um bilhete, assinado por um A. lhe anuncia sua morte. Quem o ameaça? Embaralham-se os espaços, as personagens, suas paixões extremas, seus ódios, amores e suspeitas. Escrito pelo diretor de “Estorvo” (indicado à Palma de Ouro de Cannes há 20 anos) em parceria com Luciana Mazzotti, esse longa aborda a relação de paranoia de homem que vive secretamente com duas mulheres, ambas chamadas Ana. “Não sou bom em definições, mas posso afirmar que não é uma comédia e que há nessa trama um trabalho sobre o tempo, seja ele o tempo real ou o tempo psicológico”, disse ao P de Pop o precioso Guerra, um dos pilares do Cinema Novo brasileiro, que trabalhou como ator no cult “Aguirre, a Cólera dos Deuses” (1972), do alemão Werner Herzog.

Cena de “Aos Pedaços”, que estreou em Roterdã e vai disputar Kikitos em Gramado

Um dos filmes de Guerra menos conhecidos por cá, a produção portuguesa “Monsanto”, de 2000, está hoje na grade da plataforma Fimin.pt, um dos mais exuberantes cardápios autorais da streaminguesfera. Em seu enredo, Rui Sequeira (Vítor Norte), ex-combatente nas guerras coloniais d’África, habitante de uma pequena vila do Alentejo, festeja mais um aniversário da Revolução dos Cravos na companhia da sua mulher e da sua filha, a jovem Sara, com a qual possui uma relação conflituosa. Na noite das comemorações, a morte de um amigo altera para sempre as suas vidas, acordando todo um passado há muito adormecido. Um convite para participar num almoço de confraternização, onde ex-combatentes procuram manter vivo o espírito de camaradagem, traz pai e filha até Lisboa. Chegados à capital, os seus caminhos dividem-se. Sara dirige-se para casa da mãe, que já não vê há anos, e Rui parte para o almoço onde é aguardado. Passa um dia inteiro entre antigos companheiros e feridas não cicatrizadas. Até que um telefonema de Sara altera todo e qualquer plano de regressar a casa e de debelar fantasmas de outrora. “Monsanto” é um filme de choque baseado na história de um homem que desceu ao abismo e de lá nunca mais voltou, na mais nietzschiana das interpretações dos traumas bélicos, sob uma leitura antropológica de que só Guerra é capaz, desapegando-se de sintomas etnográficas e construindo uma poética de recordações espatifadas pela dor. Um filme gigante, do tamanho de seu genial realizador, que caminha para os 90 anos com o som e a fúria da resiliência criativa.

p.s.: Neste domingo, o diretor Toni Venturi lança no Globoplay o obrigatório “Dentro da Minha Pele”, .doc feito em parceria com a socióloga-documentarista Val Gomes sobre o racismo estrutural brasileiro.
p.s.2: Tem “O Ano Mais Violento” (“A Most Violent Year”, 2014), de J. C. Chandor, na Globo na madrugada, às 2h30, numa dublagem impecável. Silvio Girardi dubla Oscar Isaac e Raquel Marinho dá voz pra genial atuação de Jessica Chastain. No ano de 1981, em um dos invernos mais violentos da história de Nova Iorque, o imigrante Abel Morales (Isaac) e sua esposa Anna (Jessica) tentam prosperar nos negócios, mas não conseguem escapar da corrupção, decadência e brutalidade que dominam a região.

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