Para gostar de ler… Sergio Leone

Para gostar de ler… Sergio Leone

Rodrigo Fonseca

24 de novembro de 2019 | 02h42

RODRIGO FONSECA
Comemora-se uma tripla efeméride para Sergio Leone (1929-1989) em 2019: os 90 anos de seu nascimento; os 30 anos de sua morte; e o 35º aniversário de seu “Era uma vez na América” (1984), hoje muito evocado em meio à celebração de “O irlandês”, de Martin Scorsese. Muitos são os cineastas do presente (começando por Tarantino, vide “Era uma vez em Hollywood”) que parafraseiam seu estilo proustiano. Uma das formas mais bem-sucedidas de se comemorar as datas em torno do realizador romano veio da indústria das HQs da França, onde gibi se chama BD, de Banda Desenhada. Lá, a Éditions Glénat despejou nas livrarias uma graphic novel de Noël Simsolo (roteiros) e Philan (desenhos) cujo foco está na trajetória de êxitos comerciais do realizador, em relação à sua base de operações.

Terra santa, de onde brotaram clássicos e cults, a Cinecittà também serviu como casamata para as operações militares de Leone na guerra contra a obviedade do faroeste. Acostumado a filmar em locações espanholas, como Luarca, Laredo e (mais pra frente) Almería, pelo baixo custo de se trabalhar por lá, ele viu mais e melhores oportunidades de otimizar seu cronograma e concentrar as cenas de seus atores mais estelares filmando na zona franca para criação incrustada em Roma. De lá saíram Por um Punhado de Dólares (1964), a partir do qual ele ressignificou o western ao adicionar molho de macarrão ao gênero, e sua epifania fabular Era Uma Vez no Oeste (1968). Neste 2016, comemoram-se duas efemérides pessoais em torno da figura de Leone. A nº1: há 60 anos ele fez seu primeiro trabalho profissional na telona, como assistente de direção de Carmine Gallone em Rigoletto (1946). A nº2: há exatamente 55 anos, ele assinou seu primeiro filme como diretor: O Colosso de Rodes (1961), um marco da estética peplum (os filmes de gladiador). Para completar, Três Homens em Conflito (1966) está celebrando 50 anos. São datas que se confundem com a consolidação da Cinecittà na evolução da Itália nas telas.

Na Ilíada do Velho Oeste existe um Homero que se chama John Ford, o homem que idealizou a travessia para a descoberta de um mundo novo, onde índios coloriam pradarias selvagens com o penacho de seus cocares e com o urucum em suas peles enfrentando o processo civilizatório. Este era encarnado na figura de centauros de chapéu e colts na cintura. Mas houve um determinado momento, lá nos anos 1960, com a consolidação do bangue-bangue como um gênero formador e renovador de bilheteria, em que essa Odisseia abriu espaço para um Proust, alguém que buscava o tempo perdido, usando como referência a própria linguagem cinematográfica, não a linguagem da História. O papel de Proust do western foi confiado a Leone.

Embora tenha dirigido muito pouco em seus sessenta anos de vida, ele já havia desempenhado múltiplas funções na área cinematográfica antes de pilotar um set com sua autoridade de autor, tendo sido assistente de direção, roteirista, produtor… Mais tarde, já sob a égide do sucesso, seguiu trabalhando em outras áreas, chegando até a ser dublê de cineasta – isso em filmes nos quais confiou a direção a parceiros como Tonino Valerii e Damiano Damiani, por exemplo. Ser plural era parte de seu ethos criador. Não por acaso nasceu filho de diretor e de filho de atriz. Por isso, carregava a arte cinematográfica em suas veias e, mais do que isso, comportava em seu DNA um desejo de entender o quanto aquela América bravia, muito distante de sua Roma, representava um microcosmo para a desmistificação dos conceitos de herói, anti-herói e vilão. Tudo isso integra a HQ que hoje delicia os quadrinhófilos da Europa.

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