Papo com Walter Salles fecha o Na Real_Virtual

Papo com Walter Salles fecha o Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca

02 de dezembro de 2020 | 12h38

Rodrigo Fonseca
Bússolas de transcendência guiaram a navegação do Na Real_Virtual (NRV) pelas águas documentais, numa trajetória que começou em julho e termina esta noite, com um bate-papo com Walter Salles, às 19h. “Socorro Nobre” (1995) será um dos filmes que servirão de eixo para a conversa a ser realizada no https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2. Na noite de terça-feira, o crítico Carlos Alberto Mattos, curador do evento ao lado do documentarista Bebeto Abrantes, somou 310 inscritos para a sabatina desta quarta, com o cineasta ganhador do Urso de Ouro da Berlinale de 1998, dado a seu “Central do Brasil”, pilar de La Nueva Onda Latino-Americana. “Os filmes de Nelson Pereira dos Santos e de Michelangelo Antonioni me levaram ao cinema. Graças a eles, entendi que o mundo era muito mais amplo e polifônico do que eu poderia imaginar”, disse Salles ao P de Pop, num esquenta pro NRV. Dividido em duas etapas, uma de 20 de julho a 14 de agosto e outra aberta em 4 de novembro, o simpósio teve uma média de 250 inscritos por cada conversa, e estas/estes aplaudiram as trocas com cineastas do quilate de Susanna Lira, diretora do premiado “Torre das Donzelas” (2018).
“Foi o encontro mais potente e fértil que tive com meus colegas realizadores”, elogia Susanna. “Pensar e trocar sobre o processo criativo do documentário, nesses tempos tão áridos, é mais que um ato revolucionário: é acreditar na força da arte e do afeto como forma existência”.

Em seu debate, no dia 18/11, Susanna levantou discussões sobre sororidade, empoderamento feminino e respeito às diferenças de gênero, três tônicas recorrentes nas perguntas de Mattos e Abrantes, assim como foram reiteradas as reflexões sobre dinâmicas de periferia. Na Parte 1 do seminário, em agosto, essa foi uma das perspectivas geopolíticas abordadas por Emílio Domingos, realizador de “Favela É Moda” (2019). “O Na Real_Virtual foi importante em vários sentidos, principalmente por ver que existem tantos realizadores de documentários de qualidade no Brasil. Cada um com seu estilo próprio, com sua forma particular de fazer os filmes, com suas próprias metodologias. Isso mostra uma riqueza enorme. Fiquei muito honrado de participar pelo respeito que tenho pelo trabalho desses diretores”, diz Emílio. “No evento, deu para ver que o documentário brasileiro atingiu uma grande maturidade, com diversas linguagens e formas de se fazer filmes. Ouvir meus colegas falando foi um grande aprendizado para mim”.

Ao listar as excelências da Parte II do NRV, a antropóloga, produtora cultural e curadora da Mostra do Filme Etnográfico Patrícia Monte-Mór se deslumbra ao relembrar do que Susanna falou de suas estratégias de resiliência e ao resgatar as reflexões de Joel Zito Araújo sobre as representações das populações negras em cinemas d’África e do Brasil. Mas dá relevo especial ao encontro entre Vincent Carelli (criador do projeto Vídeo nas Aldeias) e um dos expoentes da produção audiovisual indígena, Alberto Álvares. “Topei fazer esse seminário em julho por crer que fosse uma forma interessante de me atualizar. Mas foi além disso: foi um evento que me deixou deslumbrada por sua curadoria incrível e por ver Bebeto e Mattos numa mediação com perguntas sempre afiadas. A conversa entre Vincent e Alberto foi muito importante, sobretudo pelo fato de o cinema indígena estar em uma posição muito expressiva. Nesta Parte II, eu tive muitas surpresas positivas, como foi o caso do Adirley Queirós, que mostrou-se um diretor inovador em sua fala sobre a periferia”, elogia Patrícia. “Focando em dispositivos, o seminário deu uma visão plural de descobertas, diferenças e caminhos possíveis”.

“Os filmes de Nelson Pereira dos Santos e de Antonioni me levaram ao cinema. Graças a eles, entendi que o mundo era muito mais amplo e polifônico do que eu poderia imaginar”, diz Walter Salles

Grife de excelência na criação de trilhas sonoras para peças e filmes, laureado com o Kikito pela música memorável de “2 Perdidos Numa Noite Suja” (2002), o cantor, compositor e professor David Tygel foi um dos ouvintes mais CDFs do seminário. “Estou maravilhado até agora com a riqueza das produções brasileiras em documentário e, é claro, em ficção. O surpreendente é saber que são tantos, tão variados e com tantas vozes. Impressiona o nível de profundidade que se atingiu, falando em estudo de linguagem cinematográfica, com depoimentos absolutamente emocionantes sobre o fazer cinema no nosso país, neste momento de uma destruição programada e arquitetada pelo fascismo, que não admite debates. Então, além de tudo o que se viu e se discutiu, resta a certeza de que estamos produzindo com muita vitalidade”, diz Tygel. “Isso é indestrutível, façam o que fizerem, não dá mais para calar o que já está brotando com essa força”.

Realizador de “Happy Hour: Verdades e Consequências” (2018) e produtor de .docs como “O Engenho de Zé Lins” (2006), Eduardo Albergaria confessa ter repensado cânones narrativos da linguagem cinematográfica ao longo do simpósio. “2020 foi o ano para lapidar projetos e pensar um futuro possível, e isso, para a vida, não só para o cinema. Neste sentido estou dirigindo e montando um .doc sobre o ‘PRK-30’ (programa humorístico de rádio). É um filme que começou com o desejo de se investigar a origem de nossa comédia popular e sua linguagem e que parece evoluir para um filme sobre o meu espanto diante do sistemático apagar de nossa memória. Há arquivos mortos e vivos que deixamos morrer. Soube da ideia do Na Real_Virtual, na versão 1, mas não pude participar. Quando me dei conta do que se deu, eu me impus a obrigação de participar da segunda leva. O que começou com um desejo de reciclagem e reconexão com um novo real, uma nova realidade, mostrou-se muito do que isso”, explica Albergaria. “O nome é muito feliz. Virtual vem de virtus: força, ânimo, virtude. O seminário aponta para uma realidade que ainda podemos ser, pois virtual. Latente. Ele nos oferece um farol generoso. Um farol que não se restringe ao documentário, à tentativa de capturar o real – o que quer que isto signifique -, mas invade a vida e também o cinema de ficção, convidando-nos a refletir e reconhecer o Brasil. O Brasil que existe, independentemente de ser narrado, e nos lembra que não estamos sozinhos, que existimos, que o cinema também existe, resiste e se transforma. Em síntese: ao sugerir que não existe oposição entre o real e o virtual, o seminário idealizado por Carlinhos e Bebeto ganha a força de um ato político, sublinhando a ideia de movimento e produzindo um documento histórico que deve ser cultuado, revisitado e preservado para que outras gerações possam, também, ter a chance de ressignificar o que somos. As ideias que nele estão contidas estarão presentes em tudo que farei, não só no ‘PRK’, mas no filme de ficção sobre Claudinho e Buchecha que preparo; na minissérie de ficção sobre Belchior em que trabalho; e até mesmo na série de ficção e filme sobre Canudos que estou produzindo de Manuela Dias”.

Responsável por essa catarse do real ao lado de Bebeto e do produtor Marcio Blanco, Mattos vem animando seus interlocutores noite a noite com sábias intervenções sobre a trajetória da trupe de cineastas sabatinados. “Ao chegarmos à nossa última sessão, estou seguro de que acertamos ao estender o seminário para essa Parte 2. A reunião de vozes tão diversificadas deixou evidente a potência do documentário no país e o lugar político importante que ocupa. Ouvindo Alberto Alvares Guarani, Adirley Queirós, Joel Zito Araújo e Eryk Rocha, entre outros, compreendemos melhor que a emergência de qualquer ideia de país, para além do pesadelo que hoje vivemos, não pode prescindir da contribuições dos negros, dos indígenas, das periferias e da consciência latino-americana. A par de toda discussão estética e de linguagem, que sempre interessa aos participantes do seminário, é importante notar que estamos também debatendo representações do Brasil nesse espelho partido que é o documentário”, diz Mattos. “Outro aspecto que muito nos tem honrado é a qualidade da nossa plateia, onde se misturam cinéfilos, admiradores do documentário e também estudiosos, professores, curadores, montadores, músicos e diretores. Existe ali uma comunidade ligada por laços profissionais e de afeto, que já vem transbordando para outras redes, como o grupo de Whatsapp Doc Virtual, formado espontaneamente por alguns participantes e que já atingiu a capacidade máxima do aplicativo”.
Que o projeto de o Na Real_Virtual virar livro se concretize logo. Suas noites documentais vão deixar saudade.

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