Palma honorária de Cannes pra Jodie Foster

Palma honorária de Cannes pra Jodie Foster

Rodrigo Fonseca

02 de junho de 2021 | 10h51

Jodie Foster no thriller “O Mauritano”, a ser exibido dia 9 na Berlinale Summer Edition

Rodrigo Fonseca
Estrela do filme de abertura da Berlinale Summer Edition, o thriller político “O Mauritano”, a ser exibido na capital alemã no dia 9 de junho, a californiana Alicia Christian “Jodie” Foster vai receber a Palma de Ouro honorária de 2021, coroando uma carreira de prestígio internacional. A escolha de seu nome pela direção cannoise, um dia antes do anúncio dos longas-metragens em competição na disputa que vai ocorrer de 6 a 17 de julho, com Spike Lee presidindo o júri, amplia o interesse pelos filmes que a atriz dirigiu. Em suas primeiras duas décadas na cadeira de cineasta, ela comoveu plateias dirigindo os dramas “Mentes que Brilham” (1991), “Feriados em Família” (1995) e “Um Novo Despertar” (2011). Seu último filme como realizadora tem cinco anos já: “Jogo do Dinheiro” (“Money Monster”). Sua plataforma de estreia: Cannes, em 2016. É um debate sobre a dimensão canibal do capitalismo, que pode ser visto na Apple TV.
É um dos mais sólidos trabalhos de direção de Jodie, detentora de dois Oscars que, em 1969, ainda beeeem guria, fez sua primeira participação na indústria audiovisual, no “The Doris Day Show”. Embora atue pouco, e dirija filmes numa produtividade bissexta, com hiatos looooongos entre um e outro, Jodie sempre assalta nosso olhar a cada incursão sua na telona. A agente Clarice Starling de “O silêncio dos inocentes” (1991), hoje com 58 anos, tem gasto um tempo generoso com a TV e os produtos de streaming, dirigindo séries que se tornaram um fetiche mundial, como “Black Mirror” e “Orange is the new black”. No thriller orçado em US$ 27 milhões que lançou cinco anos atrás, ela arranca uma atuação impecável de George Clooney.

Foi pela televisão que Jodie começou a atuar, na Rede CBS. Falar de TV, como ela faz no elétrico Jogo do Dinheiro (Money Monster), sensação hors-concours de Cannes em 2016, é mais do que uma volta aos origens. Trata-se de uma reflexão sobre o lado mais pop da indústria do entretenimento, na qual ela construiu uma sólida e oscarizada reputação. Ela ganhou estatuetas pelo papel de Clarice, em 1992, e por “Acusados”, em 1989.
“Apesar de ter adotado o ambiente financeiro como pano de fundo para esta trama, ela foi idealizada como um painel sobre diferentes manifestações culturais da sociedade americana. É um projeto que nasceu como sátira de costumes dos EUA e virou algo mais globalizado sobre o papel da TV”, disse Jodie na coletiva de imprensa do filme no 69º Festival de Cannes, onde a produção teve calorosa acolhida, sendo considerado pela crítica um dos achados estéticos do evento, por seu timbre de suspense crescente.

Jodie dirige Julia Roberts e George Clooney em “O Jogo do Dinheiro”

Sua receita nas bilheterias foi de US$ 93 milhões. Inspiradíssimo, George Clooney entra em cena como Lee Gates, espécie de Silvio Santos de um programa de TV sobre fianças – o reality show “Money Monster” – da qual Julia Roberts é a produtora Patty Fenn. Tudo lá vai bem, com a audiência em riste, até que o estúdio é invadido por um motorista desempregado, falido e armado: Kyle, vivido por Jack O’Connell. Ele invade o estúdio embrulhado num colete de explosivos. Está disposto a tudo para entender porque o investimento que ele fez, sob a influência do programa de Gates, deu errado, levando-o à bancarrota. O desespero da miséria leva o rapaz a destilar ódio, abrindo espaço para o que Jodie descreve como uma “volta ao passado”:
“A TV faz parte da minha vida desde o início de minha trajetória artística. De certa forma, era como se eu visitasse um ambiente do qual tenho uma memória afetiva bem antiga. Existiu um sabor mais experimental nesse projeto com o fato de ser uma produção de pequeno orçamento, o que me deu muita liberdade. Mas eu precisei ajustar detalhes do roteiro para me adequar à realidade que tínhamos. Só que essa realidade ficou mais doce com a entrada de George. Lembro de ter mandado o roteiro para ele pedindo a sugestão de uma atriz que não nos dissesse ‘Não!’ para o papel da produtora. Aí ele ligou para… Julia Roberts”, disse Jodie, feliz com o apoio do amigo Clooney, que, como ela, também começou via televisão e fez um filme seminal sobre essa mídia: “Boa noite, e boa sorte” (2005).
A presença dele e de Julia garantiu a ela segurança para investir em veredas mais tensas que a do terreno das comédias dramáticas, um gênero que Jodie desbravou como diretora ao filmar Mentes Que Brilham (1991), Feriados em Família (1995) e Um Novo Despertar (2011). “Jogo do dinheiro” vai por outro caminho, o terreno da ação, temperando com adrenalina os esforços de Gates para sobreviver à ira de seu agressor e ajudá-lo a desvendar a verdade sobre uma fraude.
“Um filme como este, com a verba que tínhamos para rodar, necessitou ser reescrito muitas vezes, sempre com a ideia de que estamos transmitindo ao espectador, nas plateias, uma sensação de fracasso. O fracasso aqui é visto sob diferentes pontos de vista, desde o do invasor até o de Gates, passando pelo olhar de uma produtora de TV que parece refém do acaso”, disse Jodie. “Minha preocupação em cada etapa da construção desse roteiro era dar mais profundidade às personagens femininas, sobretudo o papel de Julia e a namorada de Kyle. É importante que a representação das mulheres vá além dos clichês e dos chavões. E, neste caso, queria reforçar parceria ela tem com o personagem de George”.
A versão brasileira do filme é uma aula de dublagem, que deve ser creditada à excelência da direção de Andrea Murucci. Ela dubla Miss Roberts e Marco Antonio Costa empresta sua voz a Clooney, num desempenho primoroso. Aliás, é um crime dissociar esses dois astros desses dubladores da mais fina inteligência.

Sobre “The Mauritanian”… Foi acertadíssima a escolha desse longa como abre-alas dessa fase dois da Berlinale, sobretudo depois de ele ter rendido o Globo de Ouro de melhor coadjuvante pra Jodie. A direção de Macdonald é primorosa e pode ser conferida, entre nós, via iTunes. Laureado com o Oscar de melhor documentário por “Munique, 1972: Um Dia em Setembro” (1999), o cineasta escocês anda colhendo frutos por esta taquicárdica reconstituição do drama de Mohamedou Ould Salahi, um engenheiro elétrico mauritano que foi detido injustamente em Guatánamo, em 2002, e lá ficou até 2016, tendo sofrido toda sorte de torturas, sob a suspeita de ser um dos responsáveis pelos atentados do 11 de Setembro. Tahar Rahim tem uma magistral atuação no papel de Mohamedou. Habitualmente dublada por Miriam Ficher no Brasil, Jodie esbanja carisma, no papel de uma jurista cheia de ideais humanitários.

p.s.: Primeira realização audiovisual do Teatro Inominável, “E a Nave vai” terá sua última exibição neste sábado (05/06), às 19h, com legendas em português, no canal do YouTube do grupo (https://youtube.com/TeatroInominável). Com dramaturgia e direção de Diogo Liberano, o filme reflete sobre o descontrole que temos diante de uma paixão. O filósofo Spinoza chama de servidão essa impotência humana para regular e refrear os afetos. Nesse estado de apaixonamento, quem já não se viu tomando atitudes inusitadas ou mesmo nada saudáveis? São esses questionamentos que acompanham a história entre Mocinho e Gatão, que se conhecem e querem estar juntos, mas não pelos mesmos motivos. O ator Márcio Machado interpreta Gatão, um homem de quarenta e poucos anos com medo do passado, enquanto Gunnar Borges interpreta Mocinho, um homem com trinta e poucos anos com medo do futuro. Entre eles, porém, há um terceiro personagem interpretado por Andrêas Gato: a Nave, um automóvel com espaço interior para apenas duas pessoas e que, muitas vezes, parece enxergar aquilo que os outros dois não percebem.

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