Palma de Ouro para Ken Loach reanima o cinema político

Palma de Ouro para Ken Loach reanima o cinema político

Rodrigo Fonseca

24 de maio de 2016 | 08h57

'I, Daniel Blake' deu a Ken Loach sua segunda Palma

‘I, Daniel Blake’ deu a Ken Loach sua segunda Palma de Ouro

Dois dias após o encerramento do 69º Festival de Cannes, jornais da Europa seguem tratando com certo desdém a conquista da Palma de Ouro pelo inglês Ken Loach, encarando a vitória como sendo um endosso para uma estética envelhecida, sem perceber que, na surdina, o prêmio dado ao drama marxista I, Daniel Blake acabou por referendar uma velha corrente da ficção, nascida no próprio Velho Mundo; o chamado Cinema Político. Leitor e discípulo de Karl Marx, Loach manteve, ao longo de quase cinco décadas de carreira como diretor, uma filmografia alinhada com esse filão, mas vinha, nos últimos anos, falando mais sobre questões existenciais e de liberdade de expressão, sempre de olho nas contradições sociais do Reino Unido. Agora, o êxito em Cannes de seu drama (de tintas cômicas) sobre amizade entre um faz-tudo viúvo e uma mãe solteira (ambos desempregados) alimenta a procura dos distribuidores por longas assumidamente voltados para temas políticos. Não por acaso, o novo projeto,  ainda sem título, do franco-grego Costa-Gavras (de Z) foi tão procurado em Cannes.

“Filmes com ideais e ideias políticas declarados quase sempre entram em cartaz em circuitos muito fechados. Meus filmes, por exemplo, mal chegam a 40 cópias, pelo mundo. E Já estou nessa brincadeira por muito tempo. Mas agora, com as novas plataformas digitais, nossa visibilidade pode ser outra”, disse Loach ao P DE POP, feliz por ser um dos poucos diretores com duas Palmas douradas no currículo, parte de um time seletíssimo de bicampeões de  Cannes, ao lado do sueco Alf Sjöberg, o americano Francis Ford Coppola, o austríaco Micheal Haneke, o japonês Shohei Imamura, o dinamarquês Bille August, os belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne (irmãos que, por só filmarem em dupla, contam como um) e o sérvio Emir Kusturica.

Mantido em sigilo, o novo longa de Costa-Gavras foi definido pelo místico cineasta em Cannes como um “ensaio sobre a crise econômica na Europa, com base em suas vítimas”. Seu conterrâneo de Grécia, Costa Zapas, prepara um filme sobre a falência financeira de seu país, chamado de Frankenstein e análogo ao romance de horror de  Mary Shelley.  Animador conhecido por Valsa com Bashir (2008), o israelense Ari Folman prepara um longa agora sobre a política interna de sua nação. E Oliver Stone, pelo que se cogita, pode abrir o Festival de Veneza (31 de agosto a 10 de setembro) com Snowden, com Joseph Gordon-Levitt. E se alguém duvida de que o projeto do brasileiro Marcello Antunes sobre a corrupção no Palácio do Planalto a partir da Operação Lava-Jato – chamado Polícia Federal – A Lei é Para Todos, em filmagem a partir de agosto – será um filme político, vai se surpreender.