Palma de Ouro em Cannes, novo Ken Loach ataca a segregação econômica

Palma de Ouro em Cannes, novo Ken Loach ataca a segregação econômica

Rodrigo Fonseca

26 Dezembro 2016 | 10h47

“Eu, Daniel Blake” tem pré no Rio nesta segunda e na quinta: o humorista Dave Johns tem uma atuação comovente neste drama laureado com o prêmio máximo do Festival de Cannes

RODRIGO FONSECA
Tem Ken Loach inédito nesta segunda na programação – impecável, aliás – do novíssimo Estação Net Barra Point, presente de Natal que os cariocas receberam, não apenas pelo conforto e pela qualidade acústica das salas, localizadas na Barra da Tijuca, mas pelo cardápio inaugural dedicado a pérolas autorais. Às 18h30 será projetado o filme mais recente deste papa do marxismo nas telas, pelo qual o diretor inglês, hoje com 80 anos de luta, recebeu sua segunda Palma de Ouro, no Festival de Cannes: Eu, Daniel Blake. Dono de uma trajetória que contabiliza 42 filmes e oito séries de TV, realizados entre 1964 e 2016, faz aqui um balanço da exclusão no Reino Unido a partir da observação das rotinas de quem vive de seguro-desemprego em seu país.

 “Estou a caminho de completar 50 anos de carreira como diretor e, neste périplo pelo cinema, em prol de uma arte combativa, capaz de incomodar, sempre retratei a questão do desemprego, sob a ótica da perplexidade”, disse Loach, em entrevista ao P de Pop em Cannes, onde ganhou sua primeira Palma há dez anos, por Ventos da Liberdade. “Existe uma cultura excludente na Europa marcada por um certo esnobismo estatal em relação aos desvalidos. O Estado inglês culpabiliza os desempregados pela sua demissão. Há por aqui uma postura institucional de atribuir à vítima a razão de seu infortúnio. Não aceito isso”

Marcada por atuações memoráveis, inclusive a de não-atores, o drama Eu, Daniel Blake radiografa as sequelas do  desemprego e do desamparo social na Inglaterra, a partir da relação de amizade  estabelecida pela sorte do acaso entre uma mae solteira (Hayley Squires) e um  cinquentão com problemas cardíacos, Daniel, vivido por Dave Johns, humorista  especializado em comédias stand up, sem nenhuma intimidade com sets de  filmagem. Para Loach, o novo longa-metragem é uma denúncia da burocracia e um convite à discussão sobre formas institucionalizadas de segregação financeira. Fora as exibições especiais no Barra Point, no RJ (haverá mais uma nesta quinta, às 20h30), o longa-metragem estreia nacionalmente no dia 5.

Com vocês, Ken Loach

Aos 80 anos, o diretor tem duas Palmas de Ouro em um currículo iniciado há cinco décadas

Aos 80 anos, o diretor tem duas Palmas de Ouro em um currículo iniciado há cinco décadas, a serviço de causas humanistas

Existe um padrão formal estabelecido conscientemente em seu cinema em relação à representação do Real? Como ele funciona?KEN LOACH: A pressão da Realidade é o meu termômetro: eu não posso me render a ela, mas eu preciso observá-la e reagir ao mundo ao meu redor com a urgência que ele existe. Não concordo quando dizem que meu estilo de filmar é documental, apenas pelo fato de eu tratar temas sociais. Parece que todo mundo que faz realismo social é um documentarista potencial. Eu filmo documentários às vezes, mas por opção, e com a certeza de que este formato exige uma linguagem própria, distinta da ficção, da lida com atores. A câmera do documentário tem movimento contínuo, faz-se na mão do operador, treme, obedece ao objeto. A minha, não. A minha é rígida. Invisível. Eu uso tripé. Deixo a câmera sóbria, sem mexer. Por quê? Porque a câmera parada observa, sem invadir. E meu cinema é feito de observação. Mas uma observação mediada pela invenção, pela representação. Observar é a estratégia que Brecht me deu para esmiuçar o olhar de um personagem e compartilhar o que ele sente e o que ele pensa.

 

Hayley Squires é uma jovem mãe solteira que necessita do amparo de Daniel Blake

Hayley Squires é uma jovem mãe solteira que necessita do amparo de Daniel Blake

Se a sua câmera se pretende “invisível”, como ela se comporta em relação ao corpo de seus atores?
LOACH: Ator é parceiro de criação. Eu crio a espinha das histórias com o roteirista, que, no caso dos meus últimos filmes, é sempre o mesmo, Paul Laverty… Mas o corpo das histórias é moldado pelo empenho físico e intelectual dos atores. Eles são a carne do meu organismo.  Tenho muita facilidade de lidar com atores porque eles, em geral, são pessoas com muita  imaginação e com potencial para explorar as próprias fragilidades. Em Eu, Daniel Blake, por exemplo, quando eu vou até ONGs de apoio a famintos, os atendentes que eu filmo não são atores e sim pessoas  que trabalham ali. Sigo a cartilha neorrealista de Rossellini neste aspecto. Como fazer esse processo dar  certo? Basta filmar o roteiro na ordem que a historia é contada, revelando parta a parte da trama para os atores, porque assim você cria uma sensação de mutua descoberta, que tira a hierarquia da direção  sobre o elenco. Estamos aprendendo juntos, os atores e eu, que filme estamos rodando.

Poster I Daniel Blake
Eu, Daniel Blake mostra uma Inglaterra emperrada pela burocracia estatal. Como é que o senhor vê as contradições sociais do seu país hoje?
LOACH:
Em 2016, eu experimentei uma sensação única na História, na nossa História, de ver um primeiro-ministro britânico com alguma lucidez em relação à pobreza. David Cameron (hoje substituído por Theresa May) me dava a sensação de pensar nos pobres e de planejar uma reforma política que ficará para sua substituta. Eu filmo para que esta reforma chegue. Há quem acredite que o cinema é um lugar de anestesia, de sonho, de escapismo. Eu venho de uma geração que pensa o contrário. Cinema, para quem começou a filmar na década de 1960, é um lugar de iluminação, de levante, de incômodo, pois quando a Arte provoca, pode haver reação da sociedade. É assustador perceber que chegamos a somar 4 milhões de desempregados no Reino Unido. É hora de mudar.

O cineasta (de óculos) ao lado de Paul Laverty, seu roteirista oficial

O cineasta (de óculos) filma ao lado de Paul Laverty, seu roteirista oficial

Onde o senhor rodou Eu, Daniel Blake?
LOACH: Escolhi fazer este filme em Newcastle, uma cidadezinha a 450 Km ao norte de Londres, pela  tradição local de lutas sindicais, a fim de gerar uma reflexão sobre a  continuidade dessa pratica de exclusão a pessoas à procura de emprego. Eu não quero apenas emocionar pelas vias do melodrama: quero deixar o publico com raiva. E o roteiro que Paul Laverty me deu caminha dos sentimentos mais enlevados para o desespero. Essa rota é consciente. Se eu começo na desesperança, eu não ganho o espectador, não convenço a plateia a ouvir meu personagem, não convido o público a gostar dele. Pode parecer um caminho retórico, mas é uma estratégia humanista.

Qual é o sentido de se ler Karl Marx nos dias de hoje?
LOACH:
É obrigatório ler o “Velho Brabudo”. Eu tenho sempre as palavras dele do meu lado, pois elas me garantem a lucidez da dialética, a lucidez da dúvida. Sabe qual foi o nosso maior erro? Fechamos os livros. Paramos de ouvir o que os livros têm a nos dizer. Marx criou um modelo de funcionamento de mundo com engrenagens muito sólidas. Você pode discordar delas. Mas que existe uma funcionalidade ali, existe. E ela é muito válida. Marx não é teoria: é uma arma. E estamos precisando de armas para guerrear pela democracia.

p.s.: Confira aqui a programação completa do Estação Net Barra Point:
http://grupoestacao.com.br/arquivo/mat2016/barrapoint.php