‘Paixões Recorrentes’: uma Ana Carolina triunfal

‘Paixões Recorrentes’: uma Ana Carolina triunfal

Rodrigo Fonseca

27 de janeiro de 2022 | 18h57

Luiz Octavio Moraes, ao centro, é um produtor de teatro que explora um atriz francesa (Thérèse Cremieux) e debate questões morais com um argentino (Luciano Cáceres) no novo longa da diretora de “Mar de Rosas”, em cartaz no Festival de Roterdã, na Holanda

RODRIGO FONSECA
Dez anos depois de ter garimpado a pérola “O Som ao Redor”, do Recife pro mundo, o Festival de Roterdã, na Holanda, hoje em 51ª edição, redescobre um Brasil que só Ana Carolina, aquela que deslumbrava o país na década de 1980 com “Das Tripas Coração” (1982) e “Sonho de Valsa” (1987), era capaz de enxergar e esquadrinhar. Um país que, como antecipou Marx, em seu estudo sobre a infraestrutura do mundo, era sólido e desmanchou no ar, envenenado de si mesmo, e não da mais-valia – ainda que essa tenha lá sua culpa no nosso cartório também. Foi o que o evento holandês aprendeu ao conferir o devastador “Paixões Recorrentes”, o novo longa-metragem da cineasta paulista, rodado em setembro de 2019, num litoral do Paraná que fica ainda mais paradisíaco à luz da fotografia de Luis Abramo. A Ilha do Mel é a locação desse enredo que lembra “O Desafio” (1965) de São Saraceni, mas em versão litorânea, ambientada nas franjas da II Guerra. Como no cult de Paulo Cezar, com Izabela e Vianninha, o filme de A.C. é um rasga-coração. Um rasga-coração onde a diretora, que assina o longa com seu nome todo – Ana Carolina Teixeira Soares -, esbanja maturidade. Ela equilibra finissimamente o uso da palavra (numa narrativa loquaz, mas sem verborragias vagas) com uma aeróbica dionisíaca dos enquadramentos. Para fãs de sua obra, é quase uma mistura de dois de seus trabalhos: “Mar de Rosas” (1978) e “Amélia” (2000). Mistura essa onde cada close tem rigor de ourives. E há a titânica atuação de Luiz Octavio Moraes (bamba dos palcos cariocas) como um produtor de teatro que explora sua estrela, uma atriz francesa em eclipse: Madame Arras (Thérèse Cremieux).
Há um outro sol em “Paixões Recorrentes”, que, também vem dos palcos, assim como Octavio, e pode incendiar Roterdã. Ele se chama Danilo Grangheia. Hoje um dos atores mais fascinantes das artes cênicas nacionais, pela habilidade de metamorfosear seu ferramental dramático e cômico, pontuando cada fala com ironia, Grangheia bota cada sequência do longa no bolso. Ele vive o integralista Souza, dono de uma birosca na praia onde todos os personagens criam uma paragem. Frasista, sua boca molhada a golinhos de aguardente cospe aforismos como: “A vida de define por quatro verbos de ação: amar, combater, mandar ensinar”.
Seu bar entorpece a sede de realidade do argentino maluco e perigoso Chango (Luciano Cáceres) e do português Raolino Pombal (Pedro Barreiro), um advogado que bebe café com conhaque. Raolino tenta de todas as formas preservar seu casamento com Amada (Silvana Ivaldi), que não suporta mais o controle dele. Nas areias do Brasil, ela tenta fugir do antigo amor e se deixa encantar por um cultíssimo caiçara (Iran Gomes), que alterna pontos de umbanda com reflexões filosóficas. Numa estrutura sartriana à la “Huis clos”, porém bronzeada e salpicada de areia, todas e todos defendem suas ideologias, mas nenhuma retórica sai soberana, fora a impressão de que “o inferno são os outros”, principalmente os que estão no Poder. Tudo mundo ali parece emperrado pelo vetor da inércia histórica. Na esgrima de argumentos entre eles, o dublê de Zero Mostel vivido por Octávio Moraes incandesce a telona brincando com a mixórdia da decadência moral e com sua origem niteroiense.

Ana Carolina Teixeira Soares

Com a sabedoria de quem depurou as análises sociológicas de seu longa inaugural – “Getúlio Vargas”, .doc de 1974 -, Ana Carolina regressa aos cinemas com uma alegoria sobre a intolerância em que nos afogamos ao polarizar tudo, sem fincar em pé em nada. No início de sua carreira, ela fez fama como cronista das hipocrisias burguesas, deslindando as falsidades das relações sociais. No doído “Paixões Recorrentes”, ela resgata esse ímpeto de outrora, furiosa como antes, regurgitando a bile da História.
Em sua competição oficial, a grande surpresa de Roterdã é “Kafka for Kids”, de Roee Rosen, um musical com sequências de animação sobre um programa infantil cuja temática é a prosa do autor de “A Metamorfose”. O festival segue até o dia 6.

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