‘Pacificado’ leva o RJ a Tribeca

‘Pacificado’ leva o RJ a Tribeca

Rodrigo Fonseca

19 de abril de 2020 | 13h30

Bukassa Kabengele é o ex-traficante Jaca, um samurai urbano que se reinventa na favela retratada em “Pacificado”, filmaço de Paxton Winters

Rodrigo Fonseca
Tem Brasil em Tribeca e logo um filme com carioquice nas veias que alcançou uma vitória singular pra nossa indústria: “Pacificado” foi a primeira produção de DNA verde e amarelo a conquistar a Concha de Ouro do Festival de San Sebastián, na Espanha, em quase sete décadas de história do evento. Por conta da 40ena, Tribeca adiou a realização “física” de sua maratona audiovisual anual, que, agora postergada, será inaugurada futuramente pelo novo longa-metragem de Judd Apatow, “The King of Staten Island”. Mas parte de sua programação (inédita) já pode ser acessada online. Até o dia 26 de abril, uma amostra saborosa do evento de NY estará no site: https://tribecafilm.com/festival. É lá que está o contagiante “Pacified”, imersão nas favelas cariocas mediada por um olhar egresso da seara indie da indústria audiovisual dos EUA: Darren Aronofsky. O realizador nova-iorquino, ganhador do Leão de Ouro em 2008 por “The Wrestler”, badalado internacionalmente por “Cisne Negro” (2010), assina como produtor o thriller social concebido com a ajuda dos moradores do Morro dos Prazeres e dirigido por Paxton Winters, um estadunidense formado em Istambul e há muito radicado no Brasil. Os produtores brasileiros que foram seus parceiros nessa empreitada foram Paula Linhares e Marcos Tellechea. E essa empreitada tem uma senhora montagem. A edição é primorosa, sendo assinada por Aylin Tinel (e segundo o IMDB, também pelo bamba Affonso Gonçalves).
“Quando estive na Turquia para exibir ‘Réquiem por um sonho’, encontrei um loiro americano, de olhos azuis, que mais parecia um jogador de futebol e que falava turco perfeitamente, tendo um conhecimento singular da vida na Turquia. Ficamos amigos e eu incuti nele a ideia de que deveríamos, um dia, fazer algo juntos. Quando ele veio para o Brasil e me apresentou a história de ‘Pacificado’, que construiu com habitantes do Morro dos Prazeres, eu identifiquei um caminho. Havia um filme de samurai moderno ali”, disse Aronofsky ao P de Pop, em San Sebastián, de onde a produção saiu ainda com as láureas de melhor ator (Bukassa Kagengele, em atuação monumental) e fotografia (Laura Merians Gonçalves). “Minha interferência foi mais no caminho da leitura, da troca de ideias. Sabia da força do olhar de Paxton. Acreditava em sua potência”.

Cássia Gil é uma adolescente que precisa a aprender a lidar com o pai que não conheceu

Laureado pelo júri popular da Mostra de São Paulo, “Pacificado” é uma espécie de filme de samurai sobre o bushidô (código de honra) de um ronin egresso do tráfico, o Toshiro Mifune Jaca, papel de Bukassa. Jaca é um ex-traficante que regressa à favela da qual foi líder no passado, após 14 anos de cárcere, disposto a se reinventar. Na volta, precisa aprender a ser pai de uma filha que nunca conheceu, a adolescente Tati (Cassia Nascimento), e testemunha a queda de sua ex (Débora Nascimento) nas garras do vício.
“Este filme devolve o protagonismo a pessoas que foram esquecidas, que são diariamente invisibilizadas no país onde eu vivo. O Brasil é um dos territórios de maior população negra entre os países que estão fora da África. E, apesar dessa maioria, ainda somos excluídos”, disse Kabengele ao Estadão. “A beleza deste filme está no gesto de Paxton em subir uma favela sem colocar seu foco na violência, apostando mais nas relações de afeto. Ele deu protagonismo a mulheres negras e a homens negros”.

Outro destaque de Tribeca é a delicada produção catalã “Vera”, de Laura Rubirola, com a diva chilena Paulina García no papel de uma faxineira fã de música clássica que vive um momento de alumbramento com Vivaldi. Da competição americana, merece aplausos a comédia de erros “12 Hour Shift”, da diretora Bea Grant, produzida por David Arquette, pautado por um show de atuação de Angela Bettis no papel de uma enfermeira envolvida em roubo de órgãos. Vale uma atenção ainda “Sweet Thing”, de Alexandre Rockwell, sobre uma adolescente às voltas com um pai pinguço e uma mãe sem compromissos com o afeto filial.

p.s.: Tem filme russo esta noite na Globo, às 23h20: “Versus – De Volta Ao Ringue” (“Molot”, 2016), de Nurbek Egen. Na trama, Aleksey Chadov interpreta Viktor, o Martelo da Rússia, campeão de MMA que é forçado a voltar aos ringues.

p.s.2: A Panini segue firme e forte com a publicação de “Superman” de Frank Miller, com arte de John Romita Jr.: uma leitura imperdível.

p.s3: Fotografado por Affonso Beato, “Carne Trêmula” (1997) vai ser exibido neste domingo, às 22h no Telecine, numa maratona Javier Bardem.

p.s.4: O “Corujão” desta segunda, na supracitada Globo, vai exibir “Tudo Por Amor” (“Dying Young”, 1991), de Joel Schumacher, com Julia Roberts (dublada por Vera Miranda) ajudando o então jovem Campbell Scott (uma promessa não concretizada) a superar o medo de morrer.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: