‘Pacificado’ e o bushidô da periferia

‘Pacificado’ e o bushidô da periferia

Rodrigo Fonseca

24 de setembro de 2019 | 08h15

Paxton Winters é o diretor de “Pacificado”: nascido nos EUA, ele vive há anos no RJ e construiu a narrativa em parceria com moradores do Morro dos Prazeres @foto: Rodrigo Fonseca


RODRIGO FONSECA
Duas lições dadas por gente que atua – gente das grandes – saltam à cabeça ao longo da travessia audiovisual por nossas feridas sociológicas chamada “Pacificado”, concorrente do Brasil à Concha de Ouro de 2019, em San Sebastián… um filme de samurai… um devastador filme de samurai sem katanas, mas com bushidôs (código de conduta). A primeira lição vem de Liv Ullmann: “A medida da tragédia que uma atriz ou um ator pode comportar a gente calcula pelo olhar. Olhar os olhos de um colega de cena é um gesto de generosidade; um gesto de troca, como se fosse mão dada; é uma forma de medir o abismo que nos aguarda e o abrigo que nos abraça”. A lição dois saiu de uma frase de Javier Bardem em Cannes, ao lançar “Todos já sabem”: “As maiores atrocidades que os seres humanos perpetram são justificadas com o uso da palavra ‘honra’, como se ela permitisse tudo, perdoasse tudo”. Olhos… Honra… São estes os faróis que um time de moradores do Morro dos Prazeres (RJ) e o diretor americano Paxton Winters dão ao público para iluminar uma estrada pavimentada sociológica e cinematograficamente por clichês. Clichês que somem deste filme (produzido pelo americano Darren Aronofsky e pelos brasileiros Paula Linhares e Marcos Tellechea) como bolha de sabão, a partir da educação sentimental de uma adulta disfarçada em hormônios de 14 anos. A adulta Tati, vivida por Cássia Nascimento. Uma educação que é dela e de seu pai, Jaca, defendido nas raias do esplendor (e de muita dor) por um Toshiro Mifune cujo nome é Bukassa Kabengele… o Ronin desta trama.

Cássia Nascimento vive Tati


De maneira orgânica, quase casual, a câmera da diretora de fotografia Laura Merians sempre fita olhares em “Pacificado”, desde os planos iniciais… como se buscando mesurar o trágico de um Rio de Janeiro de 2016, no desmanche da estrutura dos Jogos Olímpicos. O primeiro olhar que grita em cena é o de uma titã de nossas telas, Léa Garcia… como Dona Preta, ou só a Vó… a fiel Vó de Jaca… bisa de Tati (que a chama de vó também)… Vó do morro todo. Uma Anna Mangnani à luz de Iemanjá. O olhar de maré branda de Tati logo se faz molhar… marejando sonhos despedaçados por toda a sorte de demanda e de agressões de sua mãe, Andréa. Esta também esbugalha a pólvora que reside em sua retina… retinas dilatadas por carreiras e mais carreiras de pó e pela esperança vã de ter um lote de terra à sua espera em São Paulo. Andréa é um corpo que se definha… um corpo desejado por muitos personagens mas que, já nos momentos iniciais do filme, revela um terçol digno de Capitu… na ressaca de um determinismo que Winters estuda quadro após quadro. Esse organismo que entra em entropia em cena dimensiona a grandeza de sua atriz, numa aula de perseverança e resiliência: a ótima Débora Nascimento. Famosa pela TV, em novelas de sucesso, Débora roubou holofotes de Hollywood para si numa rápida aparição em “O Incrível Hulk”, no já longínquo 2008. Mas a mulher-atriz Débora que aparece em “Pacificado” tem quilometragem de experiência e de vivência artística capaz de ombrear o tamanho do Golias da Marvel. É uma outra Débora… em imolação em nome do cinema, na mais comovente e rascante atuação de San Sebastián, entre as estrelas GG aqui vistas, em solo basco.
Tem outra mulher cujo olhar orienta o percurso de Tati… O olhar da amiga borracha de Andréa vivida por Shirley Cruz, destaque de “Bom Sucesso”, a novela top do horário das sete. Poço de carisma, ela encarna o lado Diaba da Terra do Sol onde a personagem de Cássia briga por um quinhão de sossego. Amiga âncora, que prende a colega na cachaça e no pó.
E eis que chega… como Charles Bronson em “Era uma vez no Oeste” (1968)… um olho-faca, uma mirada capaz de unir o tal “olhar” de Liv Ullmann com a tal “honra” de Bardem: a face resistente de Jaca. Dono do morro onde a trama se passa, num passado glorioso como líder do tráfico, ele regressa à sua comunidade depois de 14 anos de xilindró. Rgressa não para reaver o poder que perdeu, mas para se refazer do “que foi” e recomeçar “o que poderia ter sido”. É um Augusto Matraga da periferia, caído do cavalo, à espera de sua hora e de sua vez, um tanto reticente como o anti-herói de Guimarães Rosa. Sua chegada tem o tempo do trágico. Chega como chegava o cangaceiro Emerenciano, de “Os homens querem paz”, texto seminal de Péricles Leal, adaptado para a TV em 1991 por Luiz Fernando Carvalho. Emerenciano e Nhô Matraga observavam, curtiam o que havia de imperfeito no pretérito, ruminavam o silêncio. Jaca é desses. Como o Lobo Solitário dos mangás de Kazuo Koike e Goseki Kojima, ele tem uma Daigoro para chamar de sua… Tati, filha de um amor falido e brochado com Andréa.
Jaca retorna para uma realidade que anda triste, assombrada por uma visão intersticial das UPPs cariocas. Mais do que o fantasma de uma PM invasora, lá existe um Demônio nem um pouco dionisíaco batizado de Nelson, traficante com alma de Darth Vader, balançado entre seu lado Anakin e seu lado Império, encarnado a golpes de martelo por José Loreto. É um bandido ruim… mas cindido pela bissetriz de afetos tortos, de favores não pagos, de traições. Loreto lembra os vilões de Anthony Quinn: malvados, mas com recheio.
Nelson vê Jaca como um perigo. Andréa vê nele um covarde. Tati enxerga ali uma incerteza. E o morro espera dele uma espada que se desembainhe sedenta de sangue. A questão é que, ao contrário de Édipo e de Hamlet, Jaca pegou sua moira (destino) na mão e resolveu torcê-la a seu próprio favor. Sua sina, imposta pela política sociológica da Casa Grande brasileira, não cabe em seu peito de Yojimbo. O bushidô… a trilha da honra… de um samurai é um junco que se dobra em nome do equilíbrio. E equilíbrio é uma lei física que, na equação da brasilidade, nem sempre responde como ciência exata. Por isso, escolher seu próprio caminho é a forma de ele exercer seu fardo de samurai. Ser o Don Corleone de uma favela oprimida não é mais a Estrela de Belém que guia seus desejos… desejos de um guerreiro que envelheceu… desejos de um Ran que precisa dividir seu reinado.
Toda a poesia que brota desse estudo sobre fardos determinados por pressões sociológicas vem do instinto de investigação de Winters. Não é um filme Celso Furtado, nem Gilberto Freyre, nem de “homens cordiais”. É um filme de uma Era Djamila Ribeiro, Conceição Evaristo, Luiz Eduardo Soares, Jailson de Souza, Julio Ludemir, Cacá Diegues e outros grandes pensadores da inclusão. É um filme mais Marcuse do que Adorno… mais questionador do que lacrador. Um filme que pode – e deve – dar a Débora e Bussaka prêmios ou menções honrosas. Um filme bonito e vivo, daqueles que doem, sobre olhos abertos e honras cerradas. Meio Liv, meio Bardem.
p.s.: Um dos mais elogiados concorrentes da última Berlinale foi o melodrama da China “So long, my son”, de Wang Xiaoshuai, que lá conquistou os Ursos de Prata de melhor atriz e ator. Ele está aqui na Espanha na seleção de San Sebastián desta terça-feira. Yong Mei e Wang Jingchun interpretam um casal que agoniza ao longo de 30 anos a dor da perda de um filho.

p.s.2: San Sebastián segue até o dia 28, quando será realizada a cerimônia de premiação, precedida pela exibição do ganhador do Leão de Ouro de Veneza, “Coringa”, de Todd Phillips.

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