Ozon excita Cannes às vésperas de o festival começar

Ozon excita Cannes às vésperas de o festival começar

Rodrigo Fonseca

16 Maio 2017 | 12h59

O galã belga Jeremy Renier, fetiche dos Dardenne, vive um psicanalista que se envolve com sua analisanda em “L’Amant Double”, novo trabalho de François Ozon, em concurso em Cannes

RODRIGO FONSECA

Cannes parece pelada sem os habituais cartazes tamanho GG usados pelas corporações de Hollywood para promover seus blockbusters: este ano, em que o festival vai de 17 a 28 de maio, apenas o Homem-Aranha gastou verba para se badalar na cidade, atraindo atenções para o novo Peter Parker: o ator Tom Holland. Mas tem um dos 19 concorrentes à Palma de Ouro – cuja disputa começa amanhã, depois da projeção hors-concours de Les Fantômes d’Ismaël, de Arnaud Desplechin – que arrumou recursos para um reclame pulicitario dos mais ferozes: L’Amant Double, um thriller do campeão de bilheteria François Ozon (Oito Mulheres). Uma foto de um casal nu, atribuído ao longa-metragem deste artesão parisiense especialista em questões de gênero, vem causando barulho na imprensa local: de um lado vem a beldade Marine Vacth e, do outro, o muso dos irmãos Dardenne, o galã (e excelente ator) belga Jérémie Renier. Na trama (ou no pouco que dela se sabe), ele é um analista que tem um caso com sua analisanda e eese envolvimento vai causar faíscas incendiarias. Tem cartaz do filme pela Croisette toda. Sua onipresença demonstra o respeito de que o cineasta goza na França, onde é um blockbuster.

Este ano, Thierry Frémaux, curador do evento, montou uma seleção instigante pra brigar com Ozon, na qual entram em campo estandartes autorais dos anos 1970 e 80 como Jacques Doillon, indicado por Rodin, com o sempre vulcânico Vincent Lindon. E tem também os darlings dos anos 2000, como o teuto-turco Fatih Akin, que vai concorrer com In The Fade. No menu cannoise de 2017 cabem ainda crias queridas da casa, como Yorgos Lanthimos, aclamado e premiado por lá em 2015 com O Lagosta, que regressa agora com The Killing of a Sacred Dear. Também foi Cannes que consagrou Sofia Coppola mundialmente com As Virgens Suicidas, lá em 1999. E ela volta agora com The Beguilded, traduzido como O Estranho Que Nós Amamos, mesmo nome do filme de Don Siegel de 1971 do qual é irmão – ambos nascem do mesmo livro. Num clima de sensualidade, com ecos de western, esta produção põe Colin Farrell em meio a uma casa de mulheres que desejam algo mais do que seu amor. Entre elas estão Kirsten DunstElle Fanning Nicole Kidman.

 Ganhador de duas Palmas douradas, uma em 2009 com A Fita Branca, e outra em 2012, com AmorHaneke volta a Cannes com fôlego para se tornar o único diretor do mundo a receber o prêmio maior do festival por três vezes com Happy-End, falando de refugiados políticos. Concorrem com ele cineastas de respeito como a escocesa Lynne Ramsai, com o thriller You Were Never Really Here, protagonizado por Joaquin Phoenix; a japonesa Naomi Kawase vem pra jogo com Radiance; o ucraniano Sergey Loznitsa, com A Gentle Creaturebaseado na prosa de Fiódor Dostoiévski; e um camarada deste, o russo Andrey Zvyagintsev, com Loveless. Realizador de Força Maior (2014), o sueco Ruben Östlund vai à Palma com The Square, drama com Dominic West.

Uma das mostras paralelas mais disputadas de Cannes, a seção Um Certain Regard vem recheada de exercícios narrativos dirigidos por atores, como o já citado francês Mathieu Almaric (com Barbara, la Chanteuse) e o italiano Sergio Castelitto (com Fortunata). Entraram ainda nesse menu trabalhos inéditos deKyioshi Kurosawa (La Disparition) e Michel Franco (Las Hijas de Abril), além de uma incursão de Taylor Sheridan (roteirista de A Qualquer Custo Sicário) como realizador: Wind River, com Jon Bernthal, oJusticeiro da série Demolidor. Ali entrou o esperado A Cordilheira, de Santiago Mitre, com o galã argentino Ricardo Darín, o Marcello Mastroianni das Américas. Estão em cena, ao lado dele, atores do Chile (Paulina GarcíaAlfredo Castro), do México (Daniel Giménez Cacho) e do Brasil (Leonardo Franco). Cogita-se ainda uma participação do astro americano Christian Slater numa trama sobre um conclave entre presidentes.

Sempre bem-vindas em Cannes, as HQs terão um lugar garantido em Cannes, levadas pelas mãos de dois mestres da direção autoral. O japonês Takashi Miike assina a adaptação do mangá Blade of the Imortal, de Hiroaki Samura, recheando a tela de samurais sanguinolentos. Já John Cameron Mitchell transformou em longa-metragem o exercício dos gêmeos Gabriel Bá Fábio Moon com Neil GaimanHow to Talk to Girls at Parties, com Nicole Kidman.

Do Brasil, temos um curta-metragem na mostra Cinéfondation, Vazio do Lado de Fora, de Eduardo Brandão Pinto, e só um longa-metragem nacional: Gabriel e a Montanha, de Fellipe Gamarano Barbosa, com o ator sempre instigante João Pedro Zappa. Mesmo assim, essa produção não concorre à Palma de Ouro, pois foi alocada na Semana da Crítica, cujo júri é presidido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, que fez barulho (bom) por aqui, ao protestar em prol de nossa democracia, em 2016, ao exibir Aquarius.

 

Os competidores pela Palma:

 

In The Fade, de Fatih Akin

 

Okja, de Bong Joon-ho

 

Happy End, de Michael Haneke

 

Rodin, de Jacques Doillon

 

Jupiter’s Moon, de Kornél Mondruczó

 

The Meyerowitz Stories, de Noah Baumbach

 

O Estranho Que Nós Amamos, de Sofia Coppola

 

120 Battements Par Minutes, de Robin Campillo

 

Wonderstruck, de Todd Haynes

 

Vers La Lumière, de Naomi Kawase

 

The Square, de Ruben Östlund

 

A Gentle Creature, de Sergei Loznitsa

 

Loveless, de Andrei Zvavintsev

 

Good Time, de Josh e Benny Safdie

 

You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay