Ouro no cinema de Gregory Baltz

Ouro no cinema de Gregory Baltz

Rodrigo Fonseca

04 de outubro de 2020 | 10h22

Rodrigo Fonseca
Vitaminada em múltiplas latitudes, seja em retratos, seja em radiografias territoriais, seja no âmbito do chamado cinepoema, o 25º É Tudo Verdade 2020 (que termina neste domingo) abriu espaço para um achado em forma de curta-metragem dedicado ao resgate (e à crítica) das artes de enganar exercitadas durante a ditadura militar dos anos 1960: “Ouro Para o Bem do Brasil”. Mais fascinante do que a premissa (uma campanha de coleta de metais preciosos, feita em 1964, após o Golpe, para endinheirar os cofres do governo) é a estrutura narrativa montada pelo diretor Gregory Baltz, que já havia se firmado com “As Constituintes de 88” (2019) como uma promessa entre os novíssimos talentos da direção de .docs no país. É surpreendente a habilidade que o diretor tem em trançar depoimentos, imagens de arquivo e vinhetas, em especial numa sequência em que apela para um site de vendas da internet a fim de extrair ali evidências da doação de joias feita durante o regime da farda. Zapeando a web, encontram-se (à venda) anéis concedidos às pessoas que colaboraram com o passar de pires feito no momento em que os governantes das Forças Armadas percebem o buraco financeira em que a nação se encontrava, endividada externamente. O economista Delfim Netto (Ministro da Fazenda de 1967 a 1974) e o cientista político e ex-Ministro da Educação Renato Janine Ribeiro ajudam a entender o fosso que havia em nossas reservas, à época, e o quanto aquela campanha não daria conta desse vácuo. Um vácuo que motivou uma ação dos Diários e Emissoras Associados – grupo de mídia comandado por Assis Chateaubriand, o “Chatô”- para estimular a população a ceder suas joias auríferas a fim de gerar lastro e assim produzir dinheiro que ajudaria o Brasil a sair da crise. Baltz mostra que os casais que doavam suas alianças de casamento receberam de volta alianças de metal e um diploma com os dizeres: “Doei ouro para o bem do Brasil”. Mas o que foi feito da bufunfa dali originada? O filme garimpa algumas hipóteses, ampliando nossa curiosidade e nossa indignação.

p.s.: Não perca “A Ilha da Fantasia” (“Fantasy Island”), divertida releitura de Jeff Wadlow para o seriado homônimo de 1977, com Michael Peña no papel de Ricardo Montalban.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.