Otto Guerra renova a irreverência do Anima Mundi

Otto Guerra renova a irreverência do Anima Mundi

Rodrigo Fonseca

10 de julho de 2019 | 09h51

A cultura LGBTQ ganha o colorido de Otto Guerra em “A Cidade dos Piratas”

Rodrigo Fonseca
Super-herói da animação brasileira, responsável pela consolidação da linhagem autoral do setor, em curtas em longas-metragens, desde os anos 1980, Otto Guerra, diretor de cults como “Novela” (1992) vai estar em dose dupla na maior maratona latino-americana de desenhos, de stop-motion, de rotoscopias e diversões cinéfilas afins: o Anima Mundi. A 27ª edição do evento acontece de 17 a 21 de julho no Rio de Janeiro, e de 24 a 28 de julho, em São Paulo, e contará com mais de 300 filmes de 40 países, incluindo cerca de 80 produções ou coproduções do Brasil. Duas delas são do Otto: “A Cidade dos Piratas”, premiado em Gramado, em agosto passado, e “Ressurreição”, um curta que pode surpreender o festival. A cartunista Laerte é a argamassa moral, cívica a estética de “Cidade…”, que mistura elementos documentais e desabafos autobiográficos do próprio Otto com a saga dos Piratas do Tietê. Na entrevista a seguir, ao P de Pop, o aclamado animador gaúcho, responsável por exercícios de picardia como “Wood & Stock – Sexo, orégano & rock’n’roll” (2006), faz um balanço de seu trabalho nas telas.

O animador gaúcho, com a fina experiência dos sessentões

O que o universo da Laerte revelou a você sobre identidades de gênero e sobre sua própria condição, como homem e como artista?
OTTO GUERRA: Um dos dogmas em que eu acreditava era que a vida não tinha rascunho, ou seja, vivemos e não se volta atrás. Laerte deixou claro que podemos nos reinventar: ‘Vivi, apaguei e vivo tudo de novo de outra forma’, diz. Ela transcendeu faz tempo. Precisamos nos identificar no outro, ok, mas colocar tudo dentro de caixinhas perfeitamente identificadas para imaginarmos ter algum controle sobre o mundo, é bobagem. Vivemos uma fase de extremos, o politicamente correto patrulhando o ambiente social. Parece que a humanidade tá andando rápido para algum lado, não sei se pra frente ou para trás, ehehehehe.   Por trabalhar com cultura, com artistas, tenho uma liberdade muito grande, mesmo tendo sido criado dentro de padrões morais estreitos. Digamos que, assim como Laerte, vivi uma vida e depois outra: 30 anos sem beber acreditando que sexo sem amor era pecado, etc… e depois uma reviravolta de 180 graus: bebia todo o dia e fui tachado de devasso. Nem uma coisa nem outra. Depois dos 60, ficou fácil encontrar o meio termo, a experiência nos mostra os limites. Vamos aprendendo, criando.

O quanto essa animação, com ecos documentais, expandiu seus domínios da gramática da animação?
OTTO GUERRA: O trabalho do “Cidade dos Piratas”, o fato de a autora renegar seus personagens e o fato de eu estar dentro do processo, e ter que achar uma saída, foi revelador para mim. O filme saiu da tela e invadiu a minha vida. Eu invadi o filme também, chutei o pau da barraca. E a coisa virou uma ficção documental. Apanhei, bati, e assim é a vida. A gente se fode e aprende. Acima de tudo esta magnífica experiência em adaptar as HQs da Laerte escancarou: que bom fazer um filme com o fígado.

O curta “Ressurreição”

O que é o “Ressurreição”, que está na grade do Anima Mundi, e que novos rumos a sua carreira persegue agora? Que novos filmes podemos esperar?
OTTO GUERRA:  O curta “Ressurreição” é uma história do Rodrigo Guimarães, lá de 1980. Animador local, ele seguiu com sua produtora, a Dr. Smith, o caminho de filmes comerciais e institucionais. Conversando com ele, soube do interesse da Dr. Smith em produzir ficção. Resgatei o velho storyboard cheio de teias de aranha, passei a direção de arte ao uruguaio Ruben Castillo e a animação ao Hermes de Lima, colaboradores de longa data, e com a parceria Dr. Smith e Otto Desenhos, finalizamos o curta.

Como você avalia o engajamento que se fez entre os animadores e entre os fãs do setor para manter o Anima Mundi de pé? Qual é a importância do evento hoje?
OTTO GUERRA: Importante ter um local de encontro da animação. No Brasil, o Anima Mundi representa essa saudável congregação do universo da animação Tupiniquim. É Evidente que, após o corte na cultura, o fim do MinC, a sociedade civil atendeu ao apelo dos realizadores do prestigioso evento. Felizmente a meta foi atendida e teremos o festival esse ano.

Como você definiria o humor do teu cinema?
OTTO GUERRA: Mudei muito, como disse aqui mesmo. Mas tem algo que permeia todos os filmes, com exceção do “Arraial”, talvez, que é o humor. Me considero iconoclasta desde sempre. Destruo tudo a minha volta. O mundo movido a dinheiro me incomoda demais. A maneira de me vingar dessa merda toda é rindo. Ehehehehehehe.

Confira a seguir a grade exibidora do Anima Mundi:

Rio de Janeiro: de 17 a 21 de julho, no Centro Cultural Banco do Brasil (R. Primeiro de Março, 66 – Centro) e Estação Net Botafogo (R. Voluntários da Pátria, 88 – Botafogo);

São Paulo: de 24 a 28 de julho, no Itaú Cultural (Av. Paulista, 149 – Bela Vista), Petra Belas Artes (R. da Consolação, 2423 – Consolação), IMS Paulista (Av. Paulista, 2424 – Consolação) e Auditório Ibirapuera (Av. Pedro Álvares Cabral – Vila Mariana).

Tendências: