Otto Guerra anima a votação do Oscar

Otto Guerra anima a votação do Oscar

Rodrigo Fonseca

02 de julho de 2020 | 19h07

Rodrigo Fonseca
É louvável a oxigenação que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood deu a seu rol de votantes ao Oscar com a inclusão de um time de pesos pesados do Brasil como os produtores Mariana Oliva e Tiago Pavan; a montadora Cristina Amaral, a diretora Julia Bacha e o diretor Vincent Carelli. Junta-se a essa turma o mais importante animador em atividade no cinema brasileiro dos anos 1980 pra cá, o gaúcho Otto Guerra. Sua inclusão no rol do colegiado responsável por votar os ganhadores da estatueta dourada hollywoodiana marca um gol em prol da animação nacional. Em 2019, ele lançou “A Cidade dos Piratas”, fazendo uma releitura autobiográfica dos quadrinhos da cartunista Laerte. São dele curtas seminais como “Novela” e “O Natal do Burrinho”. Na entrevista a seguir, Otto fala ao Estadão sobre a arte de fazer desenhos animados (e também stop motion, rotoscopia, computação gráfica) no país.

Qual era o cenário de animação que havia no Brasil quando você começou? Que filmes nacionais animados te levaram a filmar?
Otto Guerra:
Era um borrão na minha cabeça de adolescente o pequeno universo da animação no Brasil. Sabia do misterioso longa “Sinfonia Amazônica”, do Anelio Latini, que eu não tinha acesso a assistir e o grande acontecimento foi “Piconzé”, que estreou nos cinemas em 1972 e custou a vida por exaustão do diretor Ypê Nakashima. Assistir personagens no Sertão, com chapéu de cangaceiro, falando português do Brasil foi um assombro e abriu as portas para meu sonho de produzir filmes. Tanto que, em 1974, fiz um pequeno curta em super-8 mm. Evidente que eu era fã de Patolino, Tom & Jerry, sobretudo Johnny Quest. O longa de animação que era minha referência? ‘A Bela Adormecida’, de 1959, da Disney. E o era talvez pela direção de arte, que foi feita por um alemão cujo nome não encontrei nem no Google! Os filmes da Disney outorgavam a direção de arte aos excelentes animadores, que deixavam os filmes pasteurizados, repetitivos. Mas o que me levou a acreditar em seguir carreira fazendo ‘bonecrinhos’, como dizia minha mãe, foi, sem dúvida, o Hergé, autor dos quadrinhos “As Aventuras de Tintim”.
Como é o seu trabalho na direção de vozes de atores e atrizes, como Matheus Nachtergaele e Arlete Salles, com quem trabalhou em “A Cidade dos Piratas” e “Até Que a Sbórnia nos Separe”, respectivamente? Como funciona o seu trabalho na dublagem?
Otto Guerra:
Isso é uma pedreira desde sempre. Agora, que estou meio surdo, posso delegar a direção de dublagem, eheheheh. Matheus e Arlete são atores extraordinários. Eles fazem qualquer personagem e qualquer intenção na hora. Até parece que são diversas pessoas dentro da cabine de gravação.

Como você vê o cinema gaúcho hoje? O quanto a Otto Desenhos movimenta o cenário de autores e diretores aí no seu estado?
Otto Guerra:
Nos anos 1980, o cinema do Rio Grande do Sul era nossa grande expressão cultural. Não sei o que aconteceu exatamente, mas eu acreditava que seríamos o que é hoje o cinema argentino, ou o cinema pernambucano. Algo deu muito errado e meio que sumimos do mapa. Mas vejo hoje uma nova geração que parece estar ressurgindo das cinzas. Hoje, aqui na produtora, com a minha sócia Erica Maradona, estamos entrando numa fase de roteiristas e diretoras de arte mulheres. Otto e José Maia, meu sócio desde 1979, cedemos espaço a essa nova geração. Vamos ver. De qualquer forma eu sempre estou perturbando e dando pitacos que são ou pavorosos ou ótimos, geralmente pavorosos.

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