Otávio Augusto, um exército de um homem só

Otávio Augusto, um exército de um homem só

Rodrigo Fonseca

04 Maio 2017 | 10h40

No leito da excelência, Otávio Augusto comanda um ritual de exorcismo de mágoas e cicatrizes em “A Tropa”, peça em cartaz no Teatro Sesi

RODRIGO FONSECA
Tem Otávio Augusto nos palcos. E Otávio Augusto numa peça daquelas que faz a gente sair com um nó no peito: A Tropa, texto inflamável de Gustavo Pinheiro, em cartaz no Teatro Sesi até 27 de maio, sempre às quintas e sextas, às 19h30, e aos sábados, às 19h. Basta um par de cenas para que seu protagonista exploda em cena, a evocar um velho jargão da classe artística – nascido em Hollywood – que é “the actor’s actor”. A expressão, frequentemente associada a tipos como Robert Duvall e Karl Maden, é usada para atores cujo trinômio talento + experiência + generosidade serve de inspiração ao colegas. Otávio é um caso desses.  

“Certa vez, quando o cineasta John Boorman veio ao Brasil, para filmar A Floresta das Esmeraldas, eu fui procurá-lo, atrás de uma vaga no filme, mesmo ciente de que meu Inglês não era tão bom. Quando ele olhou meu currículo, ele falou: ‘As vagas já estão preenchidas, mas mesmo se não estivessem, eu não teria papel para um ator com a sua experiência, do seu gabarito. O elogio foi bom. Mas um papel num filme estrangeiro seria melhor”, diz Augusto, paulista nascido em São Manuel há 72 anos, cuja trajetória nos palcos – uma das mais aclamadas do país – começou por Gorki, passou por Oswald Andrade, correu Chico Buarque adentro e contabilizou montagens lendárias. “Passei por Zé Celso, Fernando Peixoto… grandes diretores… e todos eles desenharam o ator que eu tento ser”.

O clã de um velho militar

Dirigida por César Augusto a partir do inventário de cicatrizes (muito bem) escrito por Pinheiro, a peça põe Otávio na pele de um militar reformado, viúvo e pai de quatro filhos, que passa em revista sua vida de intolerâncias num confronto entre o riso e a tragédia com seus “meninos. Ele está em um leito de hospital, às portas da Morte, o que justifica a visita de suas crias.

“Existe, ao largo da questão familiar, uma discussão de questões reais da corrupção política no país. É curioso que, quando começamos a montar o espetáculo, em 2016, a Lava-Jato ainda não havia explodido. Conforme a peça fica em cartaz,mais a realidade avança”, diz Augusto. “É curioso ver que, mesmo com a perda das ideologias, os textos políticos ainda aparecem”.

O embate familiar evidencia a trajetória de cada cria: Alexandre Menezes vive Humberto, um dentista militar aposentado que mora com o pai; Daniel Marano é João Batista, o caçula, jovem usuário de drogas com passagens por clínicas de reabilitação; Eduardo Fernandes, em atuação excepcional, interpreta Artur, um empresário casado, pai de duas filhas, que trabalha numa empreiteira que está sob investigação por corrupção; e Ernesto, papel dado a Rafael Morpanini,é um jornalista que acaba de pedir demissão de um jornal e está em crise com a profissão. Numa lavação de roupa imunda de rejeição e rancor, Otávio bufa e bafeja como um rinoceronte em fuga, tentando escapar do corredor polonês de interrogação e cobrança de seus rebentos, que passam do pedido de bênção ao ressentimento, com uma virada de espatifar peitos. “Nessa família, todo mundo mente, alimentando a culpa acerca de algo que aconteceu e que envolve a figura da mãe”, diz Augusto.

Espécie de Homero da crítica teatral brasileira, Yan Michalski certa vez declarou sobre o ator: “Na fase inicial da sua carreira, Otávio Augusto brilhava particularmente em papéis marcados por um humor popular, de tintas fortes. Foi afinando e ampliando o seu instrumental, até tornar-se um ator excepcionalmente versátil, dotado de uma notável facilidade de composição e precisão de expressão corporal e facial, além de uma real vocação para o teatro musicado”. O que foi dito no passado, aplica-se ao presente: poucas atuações no nosso teatro, em encenações mais recentes, têm voltagem mais alta do que a Otávio em A Tropa.

“Mantenho minha fé no teatro, mas com a sensação de que a arte precisa ser mais instigadora”, diz Otávio. “É necessário um teatro que provoque mais, sobretudo neste momento em que a cultura passou a ser tratado pelo Estado como bobagem. Hoje,  Educação e Pesquisa perderam muito prestígio. Fazer teatro, mesmo com todas as dificuldades para se levantar um espetáculo, ainda é uma forma de resistir”.