‘Oswaldo’ se firma no Cartoon como a melhor crônica da vida mirim da TV

‘Oswaldo’ se firma no Cartoon como a melhor crônica da vida mirim da TV

Rodrigo Fonseca

21 de junho de 2019 | 09h06

Rodrigo Fonseca
Ninguém estranha o fato de um pinguim brincar de médico em “Oswaldo”, uma das séries de animação mais populares da TV no país hoje, afinal, seu protagonista é demasiadamente humano como qualquer um de nós. Seu canteiro é o Cartoon Network. Excentricidade é o que o cerca em relatos do dia a dia da vida mirim, sobretudo a escolar, trazidos pelos roteiros desta produção idealizada pelo publicitário carioca Pedro Eboli. Nas tramas animadas por Eboli e sua equipe, o maroto pinguinzinho foi encontrado ainda quando filhote, em uma praia, por uma família de humanos e cresceu curtindo videogames, muita pizza, jogos de RPG e piadas da internet. Seus pais – a mãe é uma médica e o pai é um sujeito atlético com um trabalho difícil de entender – não dão muita atenção para as maluquices do filho e de seus melhores amigos Leia e Tobias. A segunda temporada de “Oswaldo” já está no ar no CN. Rola toda segunda-feira, às 20h30, no Bloco de Estreias do Cartoon, com maratona no dia 23 de junho, das 12h às 14h. Na primeira temporada, 54 profissionais foram mobilizados para levantar o projeto. O elenco de vozes originais do desenho tem direção de Melissa Garcia, reconhecida por trabalhar com “Irmão do Jorel” e “Sítio do Picapau Amarelo”. A voz de Oswaldo é feita pelo ator Joel Vieira, conhecido como Nelly no canal de YouTube “aNellysando”.

 

Eboli, Pergunta pro Oswaldo, pf, o que ser um pinguim nesta nossa sociedade em que as diferenças são vistas com desdém? E aproveita pra responder: de que forma o Oswaldo celebra essa pluralidade da diferença?
Pedro Eboli: O Oswaldo é alguém que abraça seu lado pinguim e a série trata bastante sobre isso. Sim, ele é diferente. E, não, ele não é o garoto mais popular do colégio (apesar de ele argumentar que sim). Mas ele vive uma infância feliz porque achou o seu grupo de amigos igualmente únicos em suas respectivas maneiras. Oswaldo não tenta ser aquilo que não é, pelo contrário. Ele sobe na carteira e grita pro mundo quem é, com defeitos e tudo. E a gente acha que essa é uma mensagem que não só se conecta com a gente, mas se conecta principalmente com quem é criança e adolescente e está no colégio. Esse é um ambiente que faz todo mundo se sentir um pouquinho esquisito, em que mesmo o menino mais popular do colégio, certamente, já teve seu dia de pinguim.

O animador carioca Pedro Eboli

Que equipamentos, equipe, orçamento e boa vontade são essenciais pra fazer um seriado animado desse porte? Com quantas pessoas vc anima? Quantas horas de trabalho cada episódio desses gasta?
Pedro Eboli: O mais importante dessa lista toda é a boa vontade, porque animação é um processo minucioso e demorado, em que cada frame do filme é revisado, mexido, e revisado de novo. Cada cenário, objeto de cena, penteado novo de personagem precisa ser criado por um designer. Uma serie como o Oswaldo é toda feita digitalmente, usando Animate e Photoshop, e a equipe pode ter dezenas e dezenas de pessoas trabalhando, dependendo do estágio da produção. Essa temporada do Oswaldo contou com uma equipe de pré-produção, roteiristas, designers, storyboarders, diretores e supervisores toda no Brasil – na Birdo Studio – e foi animada pela Symbiosis, na Índia, por uma equipe enorme. É difícil quantificar as horas que cada episodio específico leva, porque a gente sempre tem múltiplos episódios sendo feitos em diferentes estágios. Mas uma serie do tamanho do Oswaldo, em que 39 novos episódios estão sendo feitos, vai levar quase dois anos para se completar. Isso se a gente não contar com os primeiros roteiros que foram feitos bem antes.

 

Qual é a linha estética que Oswaldo estabeleceu na animação nacional? Com que filmes/séries daqui ou de fora ele dialoga?
Pedro Eboli: O Oswaldo é uma mistura com a qual eu fiquei muito feliz. Eu fui responsável pelo design dos personagens principais e os primeiros cenários foram criados pelo ilustrador Bernardo França, de São Paulo. Ele é um ilustrador que pira muito com arquitetura e design brasileiro, com ilustradores das antigas como o J Carlos, então ele trouxe muito uma pegada “urbano-tropical” para os cenários cariocas da série. E eu trouxe mais esse lado Cartoon Network, que certamente fez as séries que mais influenciaram meu trabalho nos últimos anos, como: “Hora de Aventura”, “Clarêncio, O Otimista”, “Steven Universo”, “Over the Garden Wall” e “Gumball”. Por isso mesmo que a gente se sente muito em casa no Cartoon: porque sabemos que o Oswaldo tem muito do DNA do canal. Fora da animação, a gente sempre gostou de humor rápido, que mistura coisas inteligentes com outras extremamente bobas. E esse contraste é o que a gente considera o ponto perfeito. Coisas como a trilogia “Cornetto” do Edgar Wright, Monty Python, as séries do Michael Schur, os clássicos dos Irmãos Zucker e os melhores filmes dos Muppets.

Como você avalia o atual cenário da animação no Brasil? O que as novas séries nacionais do setor têm apontado de mais inovador?
Pedro Eboli: Eu comecei na animação há onze anos e posso dizer que tudo mudou desde então. O Brasil tinha umas duas séries de animação no ar, no máximo. E, agora, se não me engano, temos mais de 50 que já foram produzidas. É um crescimento impressionante sob qualquer ponto de vista e causou um impacto muito grande nos estúdios do país. Hoje em dia você pode sair do colégio e convencer seus pais que você quer estudar animação, porque se você ligar a TV vai ver que tem séries e filmes sendo feitos aqui. Na minha época de faculdade, acho que só tinha comercial de cereal com personagem animado… e olhe lá. A gente já se estabeleceu como um país que tem séries animadas pré-escolares, inclusive com direito a licenciamento de produtos, e agora acho que estamos construindo nosso nome nesse segmento mais velho, de 9 a 12 anos, com séries como “Irmão do Jorel” e o “Oswaldo”, por exemplo, que já passam em diversos países. Acho que a próxima fronteira é explorar a animação adulta, ou a animação com serialização pesada (aquela que depende de um capítulo para entender o próximo). São mercados difíceis, mas os canais de TV paga e de streaming parecem cada vez mais interessados em explorar as vozes que temos aqui no Brasil. Sorte dos canais, porque não falta gente boa na nossa indústria. Agora, a incerteza também é uma constante no nosso país. Vemos um momento de desvalorização da produção cultural no Brasil, e a animação pode se encontrar numa posição muito fragilizada, vide a situação do festival Anima Mundi, que corre o risco de não acontecer esse ano. É muito triste, já que a animação gera muito trabalho no Brasil, dá retorno e ainda faz bonito quando viaja lá pra fora. É uma indústria de muita gente apaixonada.

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