‘Os Primeiros Soldados’ guerreiam gloriosos

‘Os Primeiros Soldados’ guerreiam gloriosos

Rodrigo Fonseca

03 de fevereiro de 2022 | 15h01

Renata Carvalho tem um desempenho estonteante no longa-metragem de Rodrigo de Oliveira, laureado com o Prêmio Carlos Reichenbach de Melhor Filme da Mostra Olhos Livres, na 25ª edição da Mostra de Tiradentes, no sábado passado

RODRIGO FONSECA
Agiganta-se dia após dia, noite após noite, no peito de que curtiu a 25ª Mostra de Tiradentes, um pequeno grande filme capixaba que começou sua carreira ganhando prêmios na Alemanha, no 70º Festival Mannheim-Heidelberg: “Os Primeiros Soldados”. Delicadeza é a palavra que encapa sua contundência, como um véu, sem dirimir, em momento algum, a virulência de sua abordagem para uma tragédia. Sua trama revive a dor das primeiras pessoas que contaminadas com o HIV, então chamado de “peste gay”, tinham de enfrentar ainda a homofobia ou a transfobia. Esse reviver conta com atuações em estado de graça, sobretudo de Renata Carvalho, laureada no Festival do Rio por deu desempenho catártico. Avassalado pelo som e a fúria da potência poética do filme, Tiradentes deu a seu diretor, Rodrigo de Oliveira – que nasceu em Volta Redonda, fez carreira como crítico em revistas digitais como a “Contracampo” e a “Cinética” e partiu pro Espírito Santo, para dirigir belos filmes como “Teobaldo Morto, Romeu Exilado” –, o Prêmio Carlos Reichenbach de Melhor Filme da Mostra Olhos Livres. O troféu é batizado em homenagem ao realizador de cults como “Falsa Loura” (2007) e “Filme Demência” (1986), que morreu em 2012, tendo dedicado sua vida e sua obra a combater o fascismo. Os “soldados” de Oliveira são igualmente antifascistas.
Seu enredo se passa na Vitória da virada de 1983, quando um grupo de jovens LGBTQIA+ celebra o réveillon sem ideia do que se avizinha. O biólogo Suzano (Johnny Massaro) sabe que algo de muito terrível começa a transtornar seu corpo. O desespero diante da falta de informação e do futuro incerto aproxima Suzano da artista transexual Rose (Renata) e do videomaker Humberto (Vitor Camilo), igualmente doentes. Juntos eles tentarão sobreviver à primeira onda da epidemia de Aids.
Na entrevista a seguir, Rodrigo fala ao P de Pop sobre o que o Espírito Santo vem produzindo de mais vívido pras telas.

Como você avalia a cena cinematográfica do Espírito Santo que permitiu um filme como “Os Primeiros Soldados” ser feito? Quanto ele custou e que editais o fomentaram?
Rodrigo de Oliveira:
O filme foi financiado por meio de um arranjo regional entre o FSA e a Secretaria de Cultura do Estado do Espírito Santo, num edital cujo prêmio era de 900 mil reais. Nós complementamos esse orçamento com uma coprodução com o Canal Brasil, que foi fundamental para a finalização do filme. O cenário do cinema capixaba é muito auspicioso, ainda que permaneça modesto, como tudo por aqui. Eu faço parte da geração que só existe no cinema porque começaram a existir editais de longa-metragem aqui. “As Horas Vulgares”, meu primeiro filme, de 2011, foi fruto do primeiro edital neste formato, para termos ideia do quão recentemente essa avenida foi aberta. Existem muitas pessoas hoje que podem viver exclusivamente do cinema no Espírito Santo, o que não era verdade quando eu comecei. Há uma graduação federal em cinema e audiovisual que forma profissionais incríveis. Coletivos e produtoras novas surgem o tempo todo. E os meus filmes se alimentam dessas pessoas e das vivências que elas carregam. Ainda temos muito pela frente, mas já tivemos curta na competição da Berlinale, curta em Rotterdam, esse meu filme agora começou com uma carreira internacional inédita para o nosso cenário, e isso tudo precisa alimentar a manutenção dos editais locais e, também, a expansão de formas de financiamento que façam com que esses talentos permaneçam aqui no Estado, filmando as nossas histórias.

Rodrigo de Oliveira, de boné, nos sets de filmagem

Qual é o simbolismo de um prêmio que se refere ao cineasta Carlos Reichenbach no ano em que se completam dez anos de sua morte?
Rodrigo de Oliveira:
Em 2006, pela revista “Contracampo”, eu e o crítico Luiz Carlos Oliveira Jr entrevistamos o Carlão lá em Tiradentes. Ele lançava o filme “Falsa Loura” na época, e foi um dos encontros mais iluminados da minha vida. Receber um prêmio com o nome dele, neste mesmo festival, 16 anos depois, completa um círculo de sonho e amor incrível. O Carlão foi muito importante para a minha geração. Ele legitimava a crítica de cinema online da qual eu fiz parte, no começo dos anos 2000. Era um blogueiro ele mesmo. Eu ia a São Paulo só para assistir às Sessões do Comodoro que ele promovia no CineSesc. Ter em alguém como ele essa figura de “pai do cinema” (que, no meu coração, ele compartilha com o Andrea Tonacci) é sobre como se deve filmar, mas é também como se colocar como homem no mundo. É um legado de ética, sobretudo, que eu espero sempre poder honrar.

Massaro vive o biólogo Suzano no longa

O que o teu coletivo de longas, conscientemente, busca representar em relação à condição humana? O que você, com sua experiência de crítico, consegue vislumbrar como caminho autoral pra sua narrativa como cineasta?
Rodrigo de Oliveira:
Eu sinto que existem duas obsessões fundamentais que atravessam todos os filmes que eu fiz até aqui, de um jeito ou de outro: a ideia do abandono e a questão do legado. O quanto isso tem a ver com a minha vida, com a minha identidade, eu ainda especulo muito, mas eu sinto que são obsessões que tocam muitas pessoas LGBTQIA+, primeiro por conta da ideia da solidão. Lidar com abandonos é algo que faz parte da nossa vida diária, íntima e historicamente; segundo porque o legado mais estabelecido nos escapa na maioria dos casos, a formação de núcleos familiares tradicionais, a paternidade e a maternidade, mas isso não quer dizer que não nos preocupemos com a eternidade, com o que passamos aos outros, com a permanência de algum traço nosso no mundo depois da morte. Essa é uma comunidade de famílias postiças, das pessoas que você escolhe para serem seus pais, mães, irmãos e filhos, enfim. É possível que eu nunca seja pai. E eu jamais colocaria sobre os filmes que eu faço o peso de carregarem a minha memória. Então o que me sobra? Daí meus filmes sempre retratam pessoas que partem, que estão em processo de saída. E, aí, interessa-me tanto este que parte quanto me interessa como lidam com a ausência aqueles que permanecem. E são filmes sempre sobre legado, sobre transmissão, sobre o que se passa de uma pessoa a outra quando há amor. E isso tudo acontece em algo que eu gosto de imaginar como um cinema brasileiro moderno fora de seu tempo. Quando eu estava começando, eu e o Lucas Barbi (fotógrafo de todos os meus filmes) brincávamos que nós estávamos fazendo o Velhíssimo Cinema Brasileiro em contraposição amorosa ao então nascente Novíssimo Cinema Brasileiro. Aliás, faz muito sentido que hoje em dia o Lucas esteja filmando com o Júlio Bressane e que eu tenha feito um documentário sobre o Paulo José, por exemplo. O meu interesse ainda é o plano, a encenação, o trabalho de ator, os traços da ficção, uma crença de que a linguagem do cinema e a linguagem da vida são coisas diferentes (e que, de algum modo, a do cinema é melhor, porque mais manipulável), contra o fluxo e a favor da montagem de intervenção, enfim, crenças ainda muito modernas e que eu sinto que a história do cinema brasileiro – interrompida que foi sempre – nunca deu vazão completa. Isso vem muito da crítica, de ter estudado, consumido e venerado o cinema brasileiro desde muito cedo, e, também, dessa ousadia de tentar fazer parte dessa história, eu que faço filmes pequenos a partir de um estado pequeno.

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