‘Os Pequenos Vestígios’ de um filme gigante

‘Os Pequenos Vestígios’ de um filme gigante

Rodrigo Fonseca

23 de abril de 2021 | 14h09

Denzel Washington interroga o assombroso eletricista vivido por Jared Leto no longa dirigido por John Lee Hancock

RODRIGO FONSECA
Imersos em especulações para a entrega do Oscar 2021, neste domingo, os corações cinéfilos não deram (ainda) a devida atenção a um filme de excelência gigantesca cuspido nas salas de exibição recém-abertas: “Os Pequenos Vestígios” (“The Little Things”). Em sua dianteira vem um Denzel Washington em estado de graça, como sempre, só que mais soturno. Compara-se muito este thriller personalíssimo do diretor texano John Lee Hancock (de “Fome de Poder”) com a obra de Clint Eastwood e com os suspenses de David Fincher, o que, em si, já é uma incongruência, por serem filmografias sem qualquer semelhança. O eixo de analogia vem por “Sobre Meninos e Lobos” (2003), um filme eastwoodiano superestimadíssimo, e por “Se7en” (1995), este, sim, uma obra-prima em seu filão, responsável pelo sucesso de que, hoje, Fincher desfruta, a julgar pela presença de seu magistral “Mank” no páreo da estatueta da Academia de Artes e Ciências de Hollywood. Mas existem parâmetros comparativos mais próximos (e precisos) na genealogia estética deste suspense, que rendeu uma indicação ao Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante para o sempre surpreendente Jared Leto. A figura moral e fisicamente repulsiva que ele cria, num trabalho com ecos de Klaus Kinski, dá uma dimensão quase mefistofélica a um longa-metragem que se propõe ser um estudo sobre culpa, sobre remorso e sobre cumprimento do dever. Leto é um dos titãs de um elenco que ainda traz Rami Malek, num primeiro trabalho público pós “Bohemian Rhapsody” (pelo qual ganhou um merecidíssimo Oscar) e Denzel, num clima que resgata um de seus melhores trabalhos: “Possuídos” (“Fallen”, 1998). Este cult dos anos 1990 era uma investigação policial regada pelo sobrenatural, com uma manifestação de Satã ente os mortais. Agora, no longa de Hancock, lançado lá fora em circuito e também na HBO Max, a espiritualidade satânica dá lugar à materialidade mais mundana, fedida ao cheiro do adstringente usado em bordéis e motéis de quinta e ao perfume de sangue pisado. O tônus de consciência pesada que parece ancorar o policial Joe Deacon (Washington) ao passado faz com que o roteiro do próprio Hancock (escrito há décadas) evoque mais a atmosfera doentia de “Cão Danado” (1949), de Akira Kurosawa (1910-1998), do que o humanismo de Eastwood e a taquicardia de Fincher. A fotografia de John Schwartzman (do esquecido “Seabiscuit”) parece encantar-se com o negrume de noites iluminadas a lâmpadas foscas, com o neon de um peep show e a vermelhidão dos faróis de carros de modelos vencidos. As cenas à luz do dia tratam o azulão de uma piscina ou o reflexo do sol sobre estradas esturricadas com desdém. Mais ou menos como Kurosawa fez em seu pouco citado polar. Tudo soa ocre nesta autópsia em corpo vivo da moral de homens da lei que tropeçam na retidão, no perfeccionismo e na vaidade. Deacon cometeu um erro feio há alguns anos e cai em desgraça consigo mesmo. Pintem a palavra “consigo” a grafite, ressaltando a reentrância de cada letra, pois ela é a chave deste enigma de egos. Nela reside a falha trágica dos supostos heróis, que podem não ter redenção, uma vez que o intuito (autoral) de Hancock, tal qual em seu magnífico “Estrada Sem Lei” (2019), é abrir uma discussão sobre responsabilidades institucionais e o limite que a Justiça pode (e deve) ter. Na trama, Deacon é chamado do condado de Kern para investigar uma série de assassinatos que ninguém parece ter estômago para encarar, fora um detetive CDF, recém-transferido, que faz da arrogância seu distintivo: Baxter (Malek, brilhante em cena). Com sua cara de Jeffrey Hunter, Baxter vai percebendo que Deacon esbanja o que lhe falta: experiência. Logo, a presença dele é essencial, sobretudo quando a triagem pelo possível responsável pelos crimes periga ser um eletricista de modos nada digeríveis, Sparma, papel que só confirma a grandiosidade de Leto. O Oscar dado a ele em “Clube de Compras Dallas”, há sete anos, foi muito bem entregue. Ele só fez amadurecer desde então, como comprova sua atuação breve, mas devastadora, como Coringa no “Snyder Cut” de “Liga da Justiça”, lançado em março. Seu personagem em “Os Pequenos Vestígios” é algo que causa asco, mas, ao mesmo tempo, produz admiração, por uma inteligência que extrapola a metodologia de seus algozes. A maldade transbordante dele nos arrebata por abrir uma instância de reflexão sobre os deslizes minúsculos que nos derrubam e sobre as insistências que nos levantam. Ainda que seja uma insistência naquilo que nos quizila. É mais ou menos o que víamos nos senhores feudais de Kurosawa e em seus gângsteres. A sombra do samurai pesa porque códigos de honra demandam demais. E o código de Deacon foi decodificado pelo arrependimento. Eis que surge um filme magnífico, para ser saboreado em sua amargura.

p.s.: Com uma linguagem que mistura teatro e cinema, “Angustia-me”, que inicia temporada, dia 30 de abril, às 20h, no Youtube, reflete sobre as ansiedades, neuroses e inquietudes presentes em todos nós. A peça-filme celebra os 20 anos de parceria da dramaturga Julia Spadaccini e do diretor Alexandre Mello. A primeira peça encenada de Julia foi “Na Geladeira”, que estreou, em 2001, com atuação e produção de Alexandre Mello. Em 2012, os dois se reencontraram na montagem de “Quebra Ossos”, indicada ao Prêmio Shell do Rio de melhor texto. A peça foi produzida por Rogerio Garcia, que, a partir de então, uniu-se à dupla em outros sucessos como “Um dia qualquer e “Até o final da noite”. Com texto de Julia e Marcia Brasil, “Angustia-me” ficará disponível gratuitamente no Youtube até 30/06, com retirada de ingressos pelo Sympla (https://www.sympla.com.br/angustia-me). Haverá bate-papo no dia 30/04, após a sessão, e nos dias 02/05, 07/05 e 09/05, às 20h.

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