Os melhores momentos da Berlinale 2021

Os melhores momentos da Berlinale 2021

Rodrigo Fonseca

06 de março de 2021 | 13h15

RODRIGO FONSECA
Farto foi o saldo de gols da Berlinale 2021, que terminou na sexta coroando uma comédia com a troça característica da Primavera Romena om o Urso de Ouro: “Bad Luck Banging or Loony Porn”, de Radu Jude. Trata-se de uma trama dividida em três seguimentos distintos, fechada por provocativos epílogos, sobre a cultura do cancelamento, em tempos de covid-19, cujo eixo é o cerco a uma professora que teve um vídeo íntimo (nas raias da pornografia) vazado na web. Mas em meio a múltiplas sessões, o Festival de Berlim garimpou outras joias. Confira algumas:

O MAURITANO (“The Mauritanian”), de Kevin Macdonald: Laureado com o Oscar de melhor documentário por “Munique, 1972: Um Dia em Setembro” (1999), o cineasta escocês anda colhendo frutos pela taquicárdica reconstituição do drama de Mohamedou Ould Salahi, um engenheiro elétrico mauritano que foi detido injustamente em Guatánamo, em 2002, e lá ficou até 2016, tendo sofrido toda sorte de torturas, sob a suspeita de ser um dos responsáveis pelos atentados do 11 de Setembro. Tahar Rahim tem uma magistral atuação no papel de Mohamedou. No último domingo, Jodie Foster, que contracena brilhantemente com ele, vivendo sua advogada de defesa, ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante.
MEMORY BOX, de Joana Hadjithomas e Khalil Joreige: O casal de cineasta responsável pelo cult “Je Veux Voir” (2008) revisitam o Líbano do início dos anos 1980, em meio a uma guerra, mas o fazem a partir da ótica de uma adolescente que está descobrindo o mundo com a ajuda do rock’n’roll, de parques de diversão, de beijos na boca. A tocante narrativa – favorita a levar o Urso dourado até agora – é contada em dois tempos, a partir das vivências de Maia. Há anos, receber uma caixa com antigos pertences de sua juventude, ela vai revirar um baú de mágoas.
UMA PELÍCULA DE POLICIAS (“A Cop Movie”), de Alonso Ruizpalacios: O México levou pra casa o prêmio de Contribuição Artística pela montagem vibrante deste .doc, com elementos ficcionais, sobre a rotina de quem decide ser policial. É estudo vocacional. Ao utilizar uma atriz (genial em cena) e um ator, Mónica Del Carmen e Raúl Briones, a fim de poder simular a rotina de quem ganha a vida patrulhando as ruas da Cidade do México, o longa do realizador de “Museo” (2018) se aproxima de um formato que a TV, na seara do reality show, explorou bem em “Steven Seagal: Lawman”, usando o astro de “Nico – Acima da Lei” (1988) pra testemunhar (na pele) o ônus de se usar uma farda e um distintivo numa instância onde tiros não são de festim, como em Hollywood.

MUDANÇA, de Welket Bungué: Partindo de uma sobreposição de corpos por projeções de pinturas originais, concebidas pelo artista Nú Barreto, o astro da recente adaptação de “Berlim Alexanderplatz” constrói “Mudança” como se fosse um “gerúndio”, um vir a ser, da afirmação das populações negras diante da violência acumulada ao longo de séculos a fio das mais inomináveis bestialidades. Para isso, o ator-cineasta utiliza dois textos literários (entre a prosa e a poesia) escritos por seu pai, Paulo T. Bungué. A música composta por Mû Mbana dá aos poemas “Mudança” e “COBDE” uma sinestesia ainda ampla.
LIMBO, de Soi Cheang: O ator e cineasta de Macau responsável pela franquia “The Monkey King”, iniciada em 2014, emprega a estética hongkonger mais brutalista para reanimar a linhagem do thriller noir asiático. O achado desta atração bruta da Berlinale Specials 2021 está na composição da fotografia de Cheng Siu Keung, pontuada por um uso onipresente do P&B que remete ao cinema noir hollywoodiano dos anos 1940. Na trama, um policial novato tem que conter a fúria de um colega mais veterano na busca por um psicopata que amputa as mãos das mulheres que trucida.
COPILOT (“Die Welt wird eine andere sein”), de Anne Zohra Berrached: A realizadora de “24 Semanas” (2016) regressa à Berlim pelo Panorama, com a história de dois jovens, Asli (Canan Kir) e Saeed (Roger Azar), que se casam em segredo, gerando cumplicidade eterna em uma mesquita de Hamburgo. Mas depois que ele desaparece, a vida de Asli desmorona, por dilemas afetivos e por um segredo que pode abalar o mundo todo.

“Hygiène Social”, de Denis Côté:

NOUS, de Alice Diop: Produção vencedora do prêmio de melhor filme da mostra Encontros. De origem senegalesa, a realizadora de “A Morte de Danton” (2011) e “O Plantão” (2016) cria um mosaico documental riquíssimo sobre a engenharia da exclusão na França a partir das pessoas com que cruza ao longo de uma linha ferroviária que corta Paris de norte a sul.
HYGIÈNE SOCIALE, de Denis Côté: Queridinho da Berlinale, o cineasta canadense volta ao evento com a história de um dândi que tinha tudo para ser um escritor, mas usa suas palavras com pólvora em vez de poesia. A história desse sujeito, Antonin (Maxim Gaudette) é narrada pelo diretor de “Vic + Flo Viram Um Urso” (2013) como um estudo das meias verdades que nos acossam. Côté ganhou o prêmio de direção da mostra Encontros.
TIDES, de Tim Fehlbaum: Um “Waterworld” germânico, cheio de ação, na moda das distopias. Produzida por Roland Emmerich (“Independence Day”), esta aula de ficção científica mostra uma Terra ilhada por marés gigantescas que comprometem a busca pela sobrevivência. Uma jovem astronauta (Nora Arnezeder, impecável) fará de tudo para sobreviver e salvar uma massa de miseráveis enquanto lida com um segredo.
NATURAL LIGHT, de Dénes Nagy: Eis o (merecido) ganhador do Urso de Prata de melhor direção. Nagy defendeu as novas potências estéticas da Hungria com um drama de guerra que reconstitui (a partir da estonteante fotografia de Tamás Dobos) o lamacento ambiente da URSS ocupada, em 1943. À época, sob um rigoroso inverno, soldados húngaros foram convocados para vasculhar a região, tentando ajudar e mesmo patrulhar aldeões. Um desses combatentes é István Semetka (Ferenc Szabó, numa feérica atuação), que observa a brutalidade à sua volta buscando entender como agir.
NIGHT RIDERS, de Danis Goulet: Nesta distopia à moda canadense, a ex-programadora do TIFF – Toronto Film Festival e diretora de curtas como “Barefoot” (2012) nos leva a um futuro no qual as crianças são isoladas de seus país e tratadas como propriedade estatal, sendo manipuladas. Para proteger sua filha, Niska (Elle-Máijá Tailfeathers) acaba se unindo a uma organização secreta, ao mesmo tempo em que sua menina desenvolve poderes. É um “X-Men” indigenista de altíssimo requinte nos enquadramentos.

Cena de “Petite Maman”

MOON, 66 QUESTIONS, de Jacqueline Lentzou: A prolífica curta-metragista ateniense estreia nos longas com uma comovente história de reconciliação entre pai e filha na Grécia de hoje. Na trama, uma jovem retorna à realidade grega para cuidar de uma adoentada figura paterna da qual pouco sabe.
PETITE MAMAN, de Céline Sciamma: Encantador estudo sobre a habilidade das crianças para lidar com o luto a partir da imaginação, este drama disfarçado de conto infantojuvenil faz a diretora do belíssimo “Retrato de uma Jovem em Chamas” (2019) analisar a mente de uma menina que terá de lidar com a ausência materna.
LANGUAGE LESSONS, de Natalie Morales: Com traços de comédia romântica, este conto via Zoom é construído inteiramente com as ferramentas das plataformas de comunicação online, apostando na doçura ao narrar a amizade entre um viúvo (Mark Duplass, com ares de Adam Sandler) e sua professora de Espanhol, vivida pela própria diretora.

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