‘Os Incompreendidos’ da Argentina

‘Os Incompreendidos’ da Argentina

Rodrigo Fonseca

20 de setembro de 2021 | 09h42

RODRIGO FONSECA
Sempre há chance para a Argentina dar show de dramaturgia em San Sebastián, festival espanhol que, há 69 anos faz uma triagem de autoralidades de origens ibérica e latina. Nesta edição, iniciada na sexta passada, com “One Second”, de Zhang Yimou, nuestros hermanos deram seu primeiro olé na briga pela Concha de Ouro, com “Camila Saldrá Esta Noche”, de Inés Barrionuevo. A diretora de “Julia y el Zorro” (2018) comoveu plateaias com uma espécie de “Os Incompreendidos” em versão feminina, truffautiano até a veia. Egressa de Córdoba, a cineasta filma a reeducação sentimental de uma adolescente, vivida por Nina Dziembtowski, às voltas com uma série de lutas de afirmação ao se mudar para uma métropole agitada por protestos. A delicada direção de fotografia de Constanza Sandoval é um dos aspectos mais singulares – e mais aclamados – do filme, que evita saturações, apostando em tons mais cinzentos de cor. É como se encontra a vida de sua protagonista, Camila, vivida por Nina, ao chegar em Buenos Aires, egressa de Mar Del Plata.

“Precisava de uma jovem cujo rosto pudesse passar por uma transformação, com facilidade, capaz de me sugerir ambivalência. Tinha o elenco todo definido antes de essa pessoa aparecer. Aí vi uma foto do rosto de Nina e, de imediato, pensei: ‘É ela’. E foi”, disse Inés ao P de Pop.
Na trama, Camila já não tem diálogo aberto com a mãe, impacienta-se com a postura burguesa de parte de seus colegas de classe e está sendo bombardeada por hormónios. Mas o que mais incomoda a menina é a inércia moral à sua volta.
“Não faço um documentàrio aqui, não quero ser fiel à realidade. Eu parto da ficção para fazer uma discussão sobre a juventude. Não estou aberta a improvisações, em parte porque o trabalho de uma roteirista é construir conflitos. É importante materializar esses conflitos, como eles foram pensados. Passei muito tempo escrevendo o que as pessoas devem dizer, sentada em casa, tomando mate, entre meus gatos. Gosto de ouvir o que escrevi sendo dito”, disse Inés, com humor. “Estamos falando de uma geração que já nasceu em meio a muitas conquistas do feminismo”.
No roteiro de Inés e Andres Aloi, Camila chega à capital no momento em que as argentinas lutam pela descriminalização do aborto. Avessa a rótulos, capaz de amar meninas e meninos, a heroína deste painel de descobertas emotivas vai aprender o quanto é custoso defender suas ideias em um continente ainda assolado pelo machismo. Mas a retidão da personagem transformou-a em um objeto de admiração entre as representações da condição humana feitas pelos filmes de San Sebastián até agora. Inés veio à cidade brigar pela Concha de Ouro e causou a melhor das impressões em sua passagem pela competição.
“Cresci com um cinema argentino feito em Buenos Aires em que só víamos jovens citadinos apáticos. Queria mudar isso, mostrando as queixas, as inquietações”, disse Inés. “Este é um filme que passa por um momento histórico, mas vai além dele, ao falar de sentimentos”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.