Os esquecidos do Festival de San Sebastián

Os esquecidos do Festival de San Sebastián

Rodrigo Fonseca

24 de setembro de 2021 | 09h19

“Pacificado” é a única Concha de Ouro do cinema brasileiro

Rodrigo Fonseca
Filmaços como “La Abuela”, de Paco Plaza; “Camila Saldrá Esta Noche”, de Inés Barrionuevo; “El Buén Patrón”, de Fernando León de Aranoa; e “Distancia de Rescate”, de Claudia Llosa, dão à 69ª edição do Festival de San Sebastián, que termina neste sábado, um colorido estético dos mais retintos e transcendentes, encontrando em “Arthur Rambo”, de Laurent Cantet, sua mais poética expressão de relevância social. Mas há uma reprovável atitude entre os exibidores aí do Brasil de se ignorar as pérolas que o evento espanhol garimpa. Confira a seguir alguns dos mais preciosos exemplares de edições recentes do festival que não estrearam entre nós.

PACIFICADO, de Paxton Winters: Único filme brasileiro que conquistou a Concha de Ouro em toda a História, este favela movie é dirigido por um americano radicado no Morro dos Prazeres e conta com o diretor Darren Aronofsky (“The Wrestler”) entre seus produtores. Bukassa Kabengele conquistou o prêmio de melhor atuação no papel de um ex-traficante, Jaca, que regressa à sua comunidade a fim de deixar o passado de violência para trás, assumindo para si a tarefa de criar a filha que não conheceu. A atriz Débora Nascimento tem uma interpretação preciosa no papel da ex-mulher de Jaca, hoje consumida pelas drogas.
LA HIJA DE UM LADRÓN, de Belén Funes: Em meio a uma epopeia profissional e pessoal para se firmar em seu novo trabalho, atacando de assistente de cozinha, Sara (Greta Fernández), portadora de uma leve deficiência auditiva, inventa múltiplas formas de otimizar seu tempo, entre elas usar seus dentes para cortar as unhas de seu bebê. A cena desse momento de higieneé feita sem qualquer alarde por sua diretora, a estreante Belén. Ex-aluna da Escuela de San Antonio de Los Banos, de Cuba, a barcelonense sequer explora a ameaça de surdez de sua protagonista, pois nada que possa vir a arranhar a esfera do sensacionalismo ou do dramalhão parece interessar seu olhar. E Greta faz jus a essa aposta da cineasta no que é “contido”, na arte rara do “fazer pequeno”. Sobrou para ela o prêmio de melhor atriz no evento, há dois anos.
IN THE DUSK, de Sharunas Bartas: No filme mais recente do diretor de “Paz Para Nós Em Nossos Sonhos” (2015), vemos uma Lituânia rural paupérrima, que treme de frio e de medo do jugo soviético. O jovem Unte, de 19 anos, criado pelo dono de uma chácara, vê seu mundo ruir ainda mais depois que a URSS resolve rebater o movimento de resistência local aos ideais de Stalin. A fotografia é de um assombroso domínio das paletas de cor.
RIFIKIN’S FESTIVAL, de Woody Allen: Christoph Waltz põe esta crônica romântica de costumes no bolso revivendo a Morte de Ingmar Bergman, em “O Sétimo Selo” (1957), num dos delírios do protagonista, um professor de Cinema vivido por Wallace Shawn. Em passagem por San Sebastián, para acompanhar sua mulher, uma assessora de imprensa (Gina Gershon), esse veterano estudioso da cultura audiovisual vai redescobrir o amor em terras ibéricas.
NOSOTROS NUNCA MORIREMOS, de Eduardo Crespo: Essa trama argentina dá fortes goladas na tragédia grega (com muito de “Antígona”) mas também bebe (de cair) nas teses sociológicas de nuestro continente ao falar da luta de uma mãe para enterrar seu filho mais velho. A atriz trans Romina Escobar faz de sua personagem uma heroína que engole a dor em nome de suas obrigações maternas, mesmo sob o açoite do luto. No longa, ela corre por um povoado desolado com seu filho caçula (Rodrigo Santana) a seu lado para entender o que se passou com seu primogênito, que pode ter morrido sob o efeito de excesso de remédios.
SENTIMENAL, de Cesc Gay: A trama vem de uma peça de sua lavra, “Los Vecinos de Arriba”, que vendeu cerca de 500 mil entradas em palcos ibéricos e nas Américas. No enredo, Julio (Javier Cámara) e Ana (Griselda Siciliani) vivem o ocaso do desejo em seu casamento. Um jantar oferecido por eles a seus novos vizinhos, Laura (Bélen Cuesta) e Salva (Alberto San Juan), detona um mar de angústias – e de situações hilárias – a partir de uma proposta inusitada.
AKELARRE, de Pablo Agëro: Potente drama de época espanhol pilotado pelo diretor de “Salamandra”. Sua narrativa passa em revista o imperdoável crime de feminicídio em uma de suas perspectivas históricas mais graves: a caça às bruxas na Inquisição. Produzido com o apoio da Netflix, o longa recria o País Basco em 1609, quando um grupo de adolescentes é acusado de bruxaria e levado para interrogatório (leia-se tortura) pelas mãos de um funcionário da Coroa Espanhola muito afeito aos mitos acerca do Diabo. A montagem de Teresa Font galvaniza uma reconstituição de um passado maculado pela intolerância. A forma como Agüero revisita as manifestações das feiticeiras não incorre em desrespeitos, uma vez que ele aposta em uma abordagem realista, no qual suas personagens são apenas alvo de fake news.

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