‘Os Espetaculares’: bom de rir, doce de ver

‘Os Espetaculares’: bom de rir, doce de ver

Rodrigo Fonseca

05 de setembro de 2020 | 00h00

Rodrigo Fonseca
Em tempos de espera por “Tenet”, o terceiro segredo de Fátima (revelado aos mortais) cunhado por São Christopher Nolan, a ausência de salas de cinema empurra para o ambiente da streaminguesfera filmes diversos, sobretudo aqueles que, com estrutura narrativa mais intimista, menos espetaculosa, beneficiam-se mais da praticidade de um telefone celular, do aconchego de um cafuné na poltrona, do zapear de uma telinha improvisada na parede, de um miado ao pé do ouvido. É o caso do mingau de aveia Quaker com granola e mel chamado “Os Espetaculares”, longa-delícia que entra sem bater e arde sem doer nas veias entupidas (de expectativa por milagres audiovisuais) do nosso olhar. Já ao alcance de um clique no Apple TV, Now, Google Play, Youtube, Vivo Play e Sky Play, esta comédia sobre a nobre arte da… comédia…. e sobre vínculos de lealdade que brotam entre quem perde o amigo mas não perde a piada parece ser apenas um biscoito polvilho pra passar uma noite de mãos dadas. Parece… porém é mais… sem dispensar a tal mão dada. Antes de tudo, tem Neville Duarte d’Almeida atacando de ator. Mais censurado dos gênios da direção do país, o realizador de “A Dama do Lotação” (1978) brinca de coadjuvar um elenco de protagonistas azeitados, encarnando um experimentador de linguagens. Fora Neville, o que já seria, em si, um princípio de prazer, o longa-metragem tem o sempre surpreendente módulo André Pellenz de transformar enlatados em caviar, com o cuidado plástico com a cor que já lhe é peculiar. Pellenz vem do fenômeno “Minha Mãe É Uma Peça” (2013). Saiu dele pro quindim “Gosto Se Discute” (2017), no qual tinha o talento de Cássio Gabus Mendes pra rechear sua autoral (sim, pois é recorrente, reiterativa e personalíssima) marca de transformar plots cômicos simples em reflexões sobre conexões e desconexões familiares.

Neville d’Almeida, sempre genial, ataca de ator, no papel de um diretor de vanguarda que quer levar Ítalo (Rafael Portugal) pro cinema experimental conceitual

No roteiro do Norman Rockwell da leveza Sylvio Gonçalvez, a noção de “família” é disfuncional… é a que se tem: junta caco dali com caco dali pra, de coração partido em coração partido, formar-se um clã com a solidez do mutualismo. Ou seja, o espaço que era de um é roubado pelo outro. Mas o que é roubo vira convivência… e gera graça… e algumas lagriminhas… e uns “ownnnn, que fofo!”. É o que se passa com Ed (Paulo Mathias Jr, com ares de Dudley Moore e uma esgrima de palavras à la Dustin Hoffman) depois que suas peripécias como humorista de stand-up esbarra em seu ego do tamanho do Obelisco de Ipanema. Patrulhado pela ex-mulher (Elisa Pinheiro, gaudiosa na representação da maternidade), sempre preocupado com o filho (DJ Amorim), Ed precisa formar um trio pra voltar a brilhar nos palcos e dilatar o tamanho de sua humildade. É um mote que revolve toda a tradição humorística da “Sessão da Tarde” dos anos 1980 e 90, em especial as finas colisões de Steve Martin, Chevy Chase, Charles Grodin, Martin Short e Dan Aykroyd (tipo “Os Três Amigos” e “Um Rapaz Solitário”). Na soma cinéfila de Pellenz, o que era pra ser “trio de três” vira “trio de quatro”, numa álgebra de vontades de potência. Vem de um lado o Shakespeare de Bangu Ítalo (Rafael Portugal, um Wim Wenders da piada), a jovem nerd Sara (Luísa Périssé, um achado, de precisão suíça na composição de suas tiradas) e um cruzado de direita no queixo da mesmice chamado Maicondouglas (ou coisa assim), papel esculpido por Victor Meyniel com cinzel de ourives. Eles têm pela frente um torneio de improvisações e têm a certeza de que existe o amor, é claro, mas há também a vida, sua inimiga.

Resta a essa turma jogar contra a sorte, no time da gargalhada. Muitos chutes deles furam a defesa e marcam gol. Mas o golaço de Pellenz é com a tessitura formal pra além da palavra e da atuação, numa direção de arte (de Rafael Cabeça) capaz de extrair suco geladinho das laranjas seletas do dia a dia. Tudo é vívido em cena, sem ultrapassar limites de cafonice. Nos planos de exterior, a desenvoltura não é a mesma, embora a fotografia de Léo Vasconcelos use a luz do RJ com bom gosto. No entanto, quando a trama escorre para interiores, sobretudo no clube noturno onde as cenas cruciais se dão e no estúdio de um vale tudo do riso usado na sequência final, o capricho de Cabeça é exponenciado à excelência. Um achado a mais é a discussão do comportamento de público na Zona Norte carioca, em contraste com a Zona Sul, numa brincadeira com o espírito antidiet do subúrbio (de onde vem o P de Pop que vos tecla). Resulta disso tudo um bom sucesso…. um pequeno experimento de gênero, que foge dos dispositivos sociológicos da neochanchada para vencer (e vingar) como uma conversação (de respeito) com os cânones das comedionas da Era Ploc. Frank Oz na veia.

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