Os dez mais de Cannes, em 2019, até agora… e as roubadas

Os dez mais de Cannes, em 2019, até agora… e as roubadas

Rodrigo Fonseca

19 de maio de 2019 | 13h17

Rodrigo Fonseca
O que a Croisette viu de melhor até agora:
The Lighthouse, de Robert Eggers (na foto): Quatro anos depois de botar Sundance para dormir no leito do pesadelo com “A bruxa”, o bamba americano da metafísica fantasmagórica histórica dá ao 72º Festival de Cannes seu espetáculo visual mais perturbador, em critérios físicos (no PB à la Béla Tarr de Jarin Blaschke) e dramatúrgicos, com direito a ter uma criatura tão assustadora quanto o bode Black Phillip de seu sucesso anterior: uma sereia imaginária… ou quase. Desde “Cosmópolis” (2012), o galã inglês Robert Pattinson (o novo Batman) entrou numa jornada perseverante para deixar a imagem de mocinho romântico que fez dele um astro em “A saga Crespúsculo”, com foco em papéis controversos. Nenhuma de suas atuações anteriores é mais visceral do que seu desempenho como um recém-contratado faroleiro, que lida com as bebedeiras de seu mestre (Willem Dafoe, numa barbárie gutural) e com a perda de lucidez no farol onde trabalho. É um projeto com a grife RT Features, do carioca Rodrigo Teixeira. Até agora… nada que se viu em Cannes tem tanto som, fúria e assombro. Onde: Quinzena dos Realizadores
Dor e Glória, de Pedro Almodóvar: Melhor dos concorrentes à Palma de Ouro já exibidos até agora, o devastador “Dolor y Gloria” fez com que o artesão espanhol massacrasse corações em sua passagem pela Croisette. Estima-se por aqui que enfim possa ser reconhecido com a Palma de Ouro que tanto merece com a história do ocaso (e posterior redenção) de um cineasta, Salvador Mallo (papel de um grisalho Antonio Banderas) cansado da vida, agrilhoado à solidão. O desempenho de Banderas é de doer na alma, pela tradução plena da fragilidade e do desamparo: Salvador sofre de dores na coluna e tem um problema na garganta, ligado ao sistema digestivo, que pode mata-lo engasgado. No roteiro, o cineasta faz a dramaturgia se esgarçar por caminhos inusitados, incorporando até chapas ortopédicas (em forma de animação) em sua narrativa. Onde: Competição
Canción Sin Nombre
, de Melina León: Baseado em fatos reais, esta trama em P&B aborda a luta de uma jovem peruana dos anos 1980 para reaver sua bebê recém-nascida com a ajuda de um jornalista. Seu principal apelo: a fotografia de Inti Briones, que diluiu todas as referências banais da representação de seu país nas telas. Onde: Quinzena dos Realizadores 
Atlantique
, de Mati Diop: Única diretora negra já indicada à Palma dourada nos 72 anos de história de Cannes, esta realizadora francesa de origem senegalesa faz uma radiografia de múltiplas camadas da realidade de Dakar a partir de uma história de amor ausente: com a promessa de ter se casar com alguém com quem não ama, uma adolescente espera rever o namorado, um operário que cruzou o Atlântico atrás de uma vida melhor.Onde: Competição
The Wild Goose Lake, de Diao Yinan: Raras vezes a representação da violência em sagas sobre crime ganhou contornos plásticos tão virtuosos quanto o deste thriller chinês que esbanja ação ao narrar os esforços de uma mulher para entregar um criminoso em fuga para seus detratores e, com isso, libertar-se de suas dívidas. Onde: Competição
Zombie Child, de Bertrand Bonello: Espécie de “Carrie, a estranha” misturado com .docs do Arte sobre macumba, o novo filme do realizador de “Nocturama” (2017) trança dois tempos (os anos 1960 e a atualidade) e dois espaços (o Haiti e a classe média francesa) a partir de um grupo de alunas adolescentes que montam uma sororidade de estudos literárias e têm contato com os mistérios ocultos de um ritual de zumbificação usado em trabalhos servis na América Central. Uma das estudantes pede a uma imigrante haitiana que exorcize seus males de amor por um namoradinho, o que deflagra um processo de assombro. A filmagem dos rituais de sincretismo afro ultrapassam os males da alteridade. Onde; Quinzena
The Orphanage
, de Shahrbanoo Sadat: A diretora do ótimo “Wolf and sheep” (2016) volta às telas narrando a luta de um órfão, fã de musicais de Bollywood, na Cabul dos anos 1980. A ida dele para um abrigo soviético é cercada de dor. Onde: Quinzena dos Realizadores
Bacurau, de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho: Com ecos de Walter Hill e John Carpenter, a trama do delicioso concorrente pernambucano à Palma de Ouro de 2019 aborda as mudanças no cotidiano de um povoado sertanejo cuja tranquilidade é abalada com a morte de uma anciã nonagenária. É a fotografia mais requintada de Pedro Sotero.
J’Ai Perdu Mon Corps, de Jéremy Clapin: A protagonista desta animação é uma… mão. Uma mãozinha tipo aquela da Família Addams, um tanto menos serelepe, que corre pelas ruas de Paris à cata do rapaz cujo corpo ela integrava. Onde:  Semana da Crítica
Les Misérables
, de Ladj Ly: De descendência maliana, Ladj Ly, francês com carreira de ator e de documentarista, mergulha na ficção a partir de um paralelo com a literatura de Victor Hugo, falando sobre um trio de policiais que se envolvem num conflito com a população de um subúrbio de Paris, com população majoritariamente negra. É a melhor montagem de todos os candidatos à Palma já exibidos: nervosa, mas aberta à reflexão das contradições sociais. Onde: Competição

As maiores frustrações:
The Dead Don’t Die, de Jim Jarmusch: Nem a presença de Bill Murray consegue emprestar um pingo de consistência à visita do maluco beleza do cinema autoral ao filão zumbi.
Vivarium, de Lorcan Finnegan: A presença de Jesse Eisenberg, mesmo com todo o carisma dele, não consegue justificar o que leva uma ideia que poderia render um curta genial foi mal esticada para 1h32. Na trama, um casal em busca de uma casa ideal fica confinada em um mundo paralelo, em forma de condomínio, com um bebê mutante.
Sorry We Missed You, de Ken Loach: Uma van é a encarnação de toda podridão do mundo capitalista neste exercício de reflexão social necessário, porém sem a vitalidade que o artesão cinematográfico do marxismo já demonstrou no passado.

Sobre o Amanhã…

Nesta segunda é dia de Karim Aïnouz em Cannes: com 2h20, A vida invisível de Eurídice Gusmão marca a volta do realizador cearense às telas, num regresso à ficção cinco anos após o magistral Praia do Futuro, que rendeu a ele uma indicação ao Urso de Ouro de Berlim. Está no páreo dos prêmios da Un Certain Regard. Livre adaptação do romance homônimo de Martha Batalha, o filme é mais uma produção de Rodrigo Teixeira e sua RT Features, com a produtora alemã The Match Factory. “É um melodrama tropical”, diz Aïnouz.

Na trama, as irmãs Guida e Eurídice são cúmplices no afeto que têm uma pela outra, inseparáveis no dia a dia. Eurídice, a mais nova, é uma pianista prodígio, enquanto Guida, romântica e cheia de vida, sonha em se casar e ter uma família. Um dia, com 18 anos, Guida foge de casa com o namorado. Ao retornar grávida, seis meses depois e sozinha, o pai, um português conservador, expulsa a menina de casa. Guida e Eurídice são separadas para sempre e passam suas vidas tentando se reencontrar.

As atrizes Carol Duarte e Júlia Stockler interpretam as protagonistas do elenco, que traz ainda os atores Gregório Duvivier, Barbara Santos e Maria Manoella. Fernanda Montenegro  faz participação especial. Com roteiro assinado por Murilo Hauser, em colaboração com Inés Bortagaray e o próprio diretor, o longa foi rodado nos bairros da Tijuca, Santa Teresa, Estácio e São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Quem assina a fotografia é Hélène Louvart, que clicou “Pina”, de Wim Wenders. “Voltar a Cannes é sempre uma alegria sem par. Mergulhar nos filmes e em um ambiente que celebra o cinema com tanta paixão é inspirador. E é um grande berçário pra começar a vida de um filme”, diz Aïnouz.

Cannes termina no dia 25, com a entrega da Palma de Ouro e a projeção de “Hors norme”, comédia motivacional com Reda Kateb e Vincent Cassel, pilotada por Éric Toledano e Olivier Nakache, os diretores de “Intocáveis” (2011).