‘Os analfabetos’: educação existencial à la Bergman

‘Os analfabetos’: educação existencial à la Bergman

Rodrigo Fonseca

24 de outubro de 2019 | 12h56


RODRIGO FONSECA
Biscoito Fandangos, sobretudo aquele vermelho, sabor presuntinho, é uma das iguarias mais deliciosas da gastronomia pop, e se torna ainda mais apetitoso na forma como é devorado, com o som e a fúria da crocância, na peça “Os analfabetos”, um diálogo entre Ingmar Bergman (1918-2007) e Nelson Rodrigues (1912-1980). É um diálogo transversal, mas de uma potência singular, não apenas na aproximação do existencialismo de ambos, mas na busca pelo ethos da encenação consciente como prática de sobrevivência. Nas obras de ambos, há sempre alguém que abraça o silêncio ou a alienação voluntária como forma de sobreviver. É o que vemos na narrativa teatral escrita por Paula Goja e dirigida por Adriano Petermann com um pé (pisado firme) em “Pesona” (1966) e outro em “A mulher sem pecado” (1941). Nem se fala desse escrito rodriguiano na montagem que será encenada na próxima quarta-feira, dia 30/10, no Cine Joia, em Copacabana. Mas a gastura da história de ciúmes entre Lídia e Olegária parece perfumar a trama esboçada por Goja, que também é atriz e também devora o Fandangos sob a lógica Elma Chips de que é impossível comer um só. Goja vive Eva, uma (aparentemente frustrada) esposa em fim de recato consigo mesma, por cansaço diante do matrimônio com Max (Paulo Maia). O verbo “viver” entre eles é conjugado na desinência da ressaca: há dependência e não querer. E é essa carcaça, inchada pelo marafo do desgaste, que eles levam à casa de Mariana (Stella Mariss, expressando-se num delicada máscara de náusea). Trata-se de uma atriz que, durante uma apresentação de “Vestido de noiva”, resolve calar-se perante o mundo, num devir Elisabeth Vogler, personagem de Liv Ullmann em “Quando duas mulheres pecam”, o nome brazuca de “Persona”. Incomunicabilidade, o cimento da obra de Antonioni, também (oni)presente em Bergman, mas de modo menos cínico, é a companheira mais fiel de Mariana até a chegada de uma enfermeira, a jovem Beth (Mariana Rosa, em interpretação estonteante, realçada por uma iluminação nas raias do gótico assinada por Fernanda Mantovani).


Com ares de menina de subúrbio, ou das heroínas de “A vida como ela é”, Beth gosta muito de teatro, mas não teve chance de estudar Artes Cênicas, como gostaria, por impedimento de seus pais, que consideravam Arte um bem de superestrutura, alheio ao marxismo nosso de todo dia. Zelosa do estar bem de Mariana, Beth abre as portas da casa da patroa para a vinda de Deco (Douglas Silveira) e de Luciano (Antonio Pina, na baba da ferocidade), que representa o alter ego do cineasta controlador.
Neste paiol de pólvora fresca, Fandangos é ração, servida em tigelas de cachorro, para saciar a barriga de pitbulls que mordem sem assoprar a falha do outro. Na educação pelo açoite de Goja e Petermann, falta um pedaço de harmonia a todos em cena. A mudez voluntária de Mariana é uma greve de partilha, num mundo que recusa combinação igualitária de atenções. Mas, fora das CNTPs da serenidade, a atriz silenciosa vai ter seu ódio cozido em fervura máxima, até explodir em uma catarse rodopiante na qual só dos famintos de Nelson sabem estourar. O resultado é um trabalho corporal de precisão cirúrgica, que tira a plateia da zona de conforto da indiferença e nos joga no lodo da falta de propósito de um tempo de desatenções. E tudo isso se dá com um trabalho de luz, de Mantovani, capaz de usar o chiaroscuro para traduzir o abismo nietzschiano de todos nós. O figurino de Maureen Miranda realça ainda mais o tom de desconexão daquelas criaturas cheias de fome de um real calcado pela pedra do dia a dia.
p.s.: Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 1969, “Domicílio Conjugal” vai ser exibido esta noite, às 18h30, na Cinemateca do MAM-RJ, na mostra François Truffaut.

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