Os 80 anos de Batman em múltiplas latitudes

Os 80 anos de Batman em múltiplas latitudes

Rodrigo Fonseca

20 de março de 2019 | 12h44

Rodrigo Fonseca
Depois de 80 anos de combate de crime, o Batman merece todas as loas e glórias, incluindo uma homenagem na WonderCon, feira de quadrinhos que acontece na semana que vem, nos dias 29, 30 e 31 de março, em Anaheim, no sul da Califórnia, reunindo bambas das HQs como Gregg Capullo, Jim Lee, Andy Kubert, Tom King e Scott Snyder. Este último autor é o roteirista do especial “Batman & Sinal”, que a Panini Comics acaba de lançar, explorando as aventuras do Morcego ao lado de seu pupilo Duke Thomas. O evento da WonderCom segue os moldes do ciclo de debates sobre o herói que integrou o tributo prestado a ele, em janeiro, pelo Festival de Angoulême. Embora a Comic-Con de San Diego (feira anual de cultura nerd) seja a vitrine midiática de maior badalação para as HQs, Angoulême, uma cidade no sudoeste da França, é encarada como a capital mundial do quadrinho de autor: desde 1974, o mês de janeiro por lá é dedicado a um evento de análise, premiação e venda de gibis mensais e graphic novels, onde as novas tendências artísticas dos quadrinistas são definidas.

Lá foi comercializado “Batman – Pourquoi Il Revient Toujours”, edição especial, luxuosíssima, da revista “Les Cahiers De La BD”, que acabou se tornando um pontapé no mercado editorial para a celebração dos 80 anos do Homem-Morcego. Angoulême promoveu ainda uma exposição sobre o cruzado de Gotham City. O evento passave em revista a importância do herói para a cultura pop a partir de sua gênese, em março de 1939, pelas mãos de Bob Kane (1915-1998) e Bill Finger (1914-1974), na edição nº 27 de “Detective Comics”, almanaque dedicado a aventuras de investigadores. A capa da edição original traz a data de maio de 39, mas chegou às bancas da América dois meses antes.


Foram expostas na galeria Alpha de Angoulême páginas assinadas por Frank Miller, Jim Lee, Greg Capullo, Scott Snyder, David Mazzuchelli e Bryan Hitch. O festival partiu dos desenhistas para abrir um debate sobre o simbolismo psicanalítico de Batman e entender sua evolução como mito no imaginário pop. Ao mesmo tempo, o braço francês da Panini Comics tem encadernados de Bruce Wayne para despejar nas livrarias, em paralelo aos esforços da DC Comics, a editora oficial do vigilante nos EUA, para transformar seu 80º aniversário em um marco. A DC lança nos próximos meses dois álbuns de luxo, comemorativos, “Detective Comics: 80 Years of Batman – The Deluxe Edition” e “Detective Comics nº 1000”.

O primeiro traz uma arte inédita do lendário Denys Cowan e vai republicar as origens do Robin e do Charada. Já o milésimo número do icônico quadrinho traz uma história inédita do Batman escrita pelo prestigiado Peter J. Tomasi com desenhos de Doug Mahnke.

Fora isso, dois clássicos do herói vão ganhar uma releitura em forma de romance, sem nada gráfico. “The Killing Joke”, de Alan Moore, renasce agora pela pela de Christa Faust e Gary Phillips como livro. E “The Court of Owls” foi reescrita como literatura por Greg Cox.

No cinema, também vai ter novidade de Gotham: a aclamada HQ “Silêncio”, de Jeph Loeb e Jim Lee (na imagem acima), vai chegar à telona em julho, na forma de uma animação em longa-metragem, com o título em inglês da minissérie, “Batman: Hush”. O ator Kevin Conroy é o dublador do Morcego no filme. Em paralelo, a Warner Bros. (dona da DC) finaliza para outubro o esperadíssimo “The Joker”, de Todd Phillips, a ser lançado aqui com o nome “Coringa”: é a história do arquiinimigo de Batman, tendo Joaquin Phoenix como o Palhaço do Crime. É Martin Scorsese quem produz. Porém, nada até agora foi decidido acerca do possível filme solo do justiceiro, com direção de Matt Reeves, uma vez que há incerteza sobre a permanência de Ben Affleck como Wayne. Já se falou em Robert Pattinson e em Armie Hammer para o papel do jovem Wayne.
Mas nenhuma incerteza vai atrapalhar o parabéns em Gotham.

p.s.: Vamos já já elaborar uma reflexão mais azeitada sobre “Nós” (“Us”), produção de US$ 20 milhões que joga Jordan Peele anos à frente de seu festejado (e contundente) “Corra!” (2017) em seu olhar sobre a exclusão e na evolução narrativa do cineasta.

Nas cenas iniciais, Peele nos leva aos anos 1980, em Santa Cruz, praia da Califórnia, e tudo parece paradisíaco por lá. Isso até uma garotinha, Adelaide, entrar em um brinquedo abandonado de um parque de diversões, bem parecido com o que se dá com Tom Hanks em “Quero ser grande” (1988) – as alusões ao cinema de “Sessão da Tarde” 80’s and 90’s abundam. A diferença aqui é que a menina Adelaide não sai dele grande… adulta como Hanks… mas, sim, sem voz, atônita pelo assombro que lá encontrou. Anos depois, já crescida, empoderada e mãe de família – vivida por Lupita Nyong’o num desempenho irretocável e contagiante -, ela regressa à Santa Cruz com seu casal de filhos e o marido, Gabe (Winston Duke, de fina ironia). Mas esse retorno vai significar um reencontro com os diabos de sua infância: ao sair daquele mesmo parque que a assombrara em sua meninice, ela vê perigo num grupo de pessoas na porta de sua casa. A referência ao cinema de Wes Craven, em seu “As criaturas atrás das paredes” (1991), aí, é explícita. Aquelas pessoas são idênticas a cada um dos membros do clã de Adelaide, ou quase: eles, os monstros, não têm linguagem. Só o “duplo” de Adelaide tem. Ao se dirigir a ela, e perguntar quem ou que eles são, a protagonista recebe a mais aterradora (e política) das respostas: “Somos americanos”. Por aí você pode imaginar o espetáculo de semiologia que temos pela frente. Estreia quinta.

p.s.2: Falando de Lupita Nyong’o, ela vai ser a protagonista de “The killer”, remake que John Woo vai fazer de seu cult homônimo, sobre uma assassina de aluguel às voltas com um dilema.

p.s.3: Voltando ao Batman, tem “Madre Pânico: Trabalho em andamento” este mês nas bancas, pela Panini.