‘Os 8 Magníficos’ é Godard com mel e granola

‘Os 8 Magníficos’ é Godard com mel e granola

Rodrigo Fonseca

08 de dezembro de 2020 | 12h12

Rodrigo Fonseca
Ao receber o P de Pop nos sets de seu “Infância” (2014), Domingos Oliveira (1935-2019) deu a pista essencial para que o traduzissem, ali para (O) sempre: “A memória não é lógica, nem cronológica. A memória parece mais um filme do Godard do que uma fuga de Bach”. Em certa medida, “OS 8 MAGNÍFICOS”, que estreia nesta quinta-feira, é o filme mais godardiano daquele que foi o mais Truffaut dos realizadores brasileiros revelados nos anos 1960, em tempos de Cinema Novo. De modo autoral, como todos os seus longas (à exceção de “A Culpa”) eram, o memorialismo impera soberano nesse encontro entre Sophie Charlotte, Carolina Dieckmann, Eduardo Moscovis, Fernanda Torres, Wagner Moura, Alexandre Nero, Maria Ribeiro e Mateus Solano. Não poderia ser diferente pois, no cogito domingosoliveiriano, lembrar é encenar o ontem, não revivê-lo, mas interpretá-lo, como peça de nós mesmos. Em “Todas as Mulheres do Mundo” (1966), seu genial longa-metragem de estreia, Paulo, seu alter ego, vivido por Paulo José, conta a falseta que sua vida virou ao trocar a boemia por um abraço que virou seu abrigo. Nem tudo o que ele lembra é como de fato (close no DE FATO) foi, mas o modo como ele lembra das coisas é que rende filme, um filmaço, aliás. E por aí foi, ao longo de 53 anos de direção de longas, até chegar a esse derradeiro lançamento, que inaugura a sinergia entre a Parceria Forte Filmes e a Kuarup, no cuidadoso trabalho da produtora Renata Paschoal. Nem tudo o que se ouve dos oito dínamos reunidos por Domingos parece verdade. Em alguns momentos, o desvelamento é assumido e se encena, em cena, com direito a uma antológica variação do devir cão por Moscovis. Mas o que conta, na jira de Seu Oliveira, não é veracidade dos fatos mas a “crítica genética” do gesto de criação.
As aspas aí de cima se reportam a um conceito hoje em voga na USP, badalado no cinema pelo documentarista Evaldo Mocarzel, segundo o qual o processo criativo passa a ser amalgamado ao objeto que ele pretende gerar. Por isso, quando Matheus Souza, diretor assistente de DO, entra em cena e dá instruções aos “8 Magníficos”, deslindando o que deveria ser um método de observação sem interferências, sua entrada é tão significativa quanto toda a progressão quase aritmética de afagos, sorrisos e lembranças das pessoas ali convidadas. Pessoas essas que ganham um devir protagonista, como acontece com o supracitado Godard em “Nossa Música” (2004), quando ele mesmo entra em cena, no registro de uma palestra, para dizer: “Grandes homens não fazem revoluções, fazem bibliotecas”. Como Godard, Domingos entra em cena para fazer uma ode à autoestima, não na indulgência de si mesmo, mas num elogio ao atrevimento. Cults como “Separações” (2003), visto aqui pelo P de Pop só 43 vezes, ilustram como DO foi um artesão de uma comédia na interseção entre o romântico e a crônica de costumes, o que leva sua explícita adesão à narrativa documental, neste novo longa, ser algo novo, ou quase novo em sua obra, uma vez que já havia um traço desse vocabulário em “É Simonal” (1970) e em “Feminices” (2005). Mas, nesses dois exercícios passados, as linguagens do .doc e da ficção caminhavam como centauros, em pedaços estanques e divisíveis, onde se sabia onde começava a unha e onde terminava a carne. Em “Os 8 Magníficos” não é assim: não se sabe onde é semiótica explícita (na dissecação dos signos da atuação), onde é o mero registro de uma conversa entre pessoas muito interessantes e onde é encenação.

No título, a explícita homenagem aos “Sete Homens e Um Destino” (1960), de John Sturges, traz à tona a percepção de que temos um faroeste sem duelo, um western de gabinete, onde os ginetes intrépidos e as Cat Ballous (pistoleira vivida por Jane Fonda em “Dívida de Sangue”, de 1965) desafiam os imperdoáveis pecados do descaso com a dimensão existencial da arte de atuar. Primo distante do “Ricardo III – Um Ensaio” (1996), de Al Pacino, “Os 8 Magníficos” dá voz aos os métodos de oitos estrelas que, no desembaraço, podem ser e estar na mesma ribalta. Aliás, esse era o modo como Domingos esteve em função na arte.
Depois de um hiato estimado em 18 anos sem filmar pro cinema, ele sai da seca em 1998 com “Amores”, longa vencedor do Kikito de Júri Popular em Gramado que abre uma porteira para pastos verdíssimos onde o diretor viria a semear a essência estétia de uma nova fase dramatúrgica. A definição precisa para esse novo ciclo, que vai ganhar mais viço entre 2002 e 2010, foi definido com precisão pelo crítico Carlos Alberto Mattos em uma resenha feita para o Segundo Caderno de O Globo, no Natal de 2008, ao definir a estética de DO como ménage a trois que funde fazer cinema, fazer teatro e viver. Trocando em miúdos, a obra dele passa a ser um Lego de vivências de palco (em especial sua incursão na série de encenações musicais “Cabaré Filosófico”), lutas para seguir filmando e modos de amar com liberdade e paixão. Esse era o ponto central de todas as histórias por ele contadas nesse perímetro de tempo, sempre coroado de láureas e sempre delineado pela lapidação da intimidade do diretor com um léxico avesso ao uso de película. Era no digital que os diálogos de Seu Oliveira destilaram sua acidez máxima numa náusea celebrativa em relação às artimanhas do arlequim chamado Acaso.
O que temos em “Os 8 Magníficos”, a partir da fotografia de Fernando Young e Manuel Aguas, é um ménage a muitos desejos e muitos devires, numa esfinge que Édipo algum derrota. A esfinge da percepção de que lembranças como o primeiro teste de Maria Ribeiro com DO ou os banhos de sol de Wagner Moura em “Carandiru” (2003) podem virar dramaturgia… e das boas. Como tudo aliás. “Se amar é querer o bem do outro”, como afirmava Domingos, amar o cinema brasileiro é querer ver as salas deste .doc metido a semiologia e metido a “Sessão da Tarde” cheias, com os protocolos de segurança devidos. Domingos deixou saudades. Mas também deixou filmes. Relembrá-los é re-encenar a dor pela sua perda: logo, é sorrir.
p.s.: Merece especial atenção a montagem de Victor Magrath, que consegue harmonizar as diferentes franjas entre real, ficcional e autopsia semiológica do filme de Domingos. O ritmo que ele imprime, mesmo nos momentos mais palavrosos, é de vertigem, sabendo desacelerar na medida certa.

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