Ópera de um Cangaço em flor

Ópera de um Cangaço em flor

Rodrigo Fonseca

23 de março de 2016 | 00h01

Alceu Valença no set de

Alceu Valença no set de “A Luneta do Tempo”, que estreia nesta Semana Santa trazendo dois Kikitos em seu currículo de vitórias: melhor trilha sonora e direção de arte 

Baile perfumado a invenção (em forma de filme), A Luneta do Tempo reafirma a máxima mítica – seja na Bíblica, seja aqui no Nordeste – de que “No Princípio, era o verbo”. E o verbo, no caso do primeiro longa-metragem dirigido pelo músico Alceu Valença, carrega uma dimensão de indignação e perplexidade contagiantes expressa em frases como: “O Poder é irmão da Polícia, que é prima carnal do Estado e de uma cega chamada Justiça”. Mas não é só pelas palavras – sempre rimadas, mas arranjadas num fraseado pausado com bom gosto e musicalidade nunca fatigantes – que esta ópera severina nos contagia. É também pela imponência da imagem – sobretudo de uma sequência de combate armado de altíssima dosagem de adrenalina – que Alceu se impõe como um estreante repleto de singularidades, autenticidades e desapegos às obviedades narrativas na cena de novos diretores brasileiros.

Mais do que virtudes na condução de planos e coragem para errar e seguir (o que disfarça fragilidades de um roteiro por vezes emaranhado), A Luneta do Tempo traz em si uma dimensão reflexiva sobre a identidade mitológica do Brasil, brincando com toda a matéria-prima dos mitos. É um ensaio (imbuído de uma lucidez sabor Nietzsche) sobre a Permanência e sobre o retorno perpétuo de tudo o que configura a noção de “Povo”, o que, no caso deste nosso país, envolve a disposição para tentar, a hora de saber correr e sangue para derramar. Mas todo o raciocínio mítico do cantor-cineasta ganha corpo a partir da reinvenção da figura de Lampião, entalhado em pedra e cacto por Irandhir Santos, em mais uma atuação irretocável. Aqui se vê um Lampião poeta, ao lado de uma Maria Bonita encantada pelo acaso, na pele bela de Hermila Guedes.

Um cangaço rimado e glauberiano comandado prlo Lampião Irandhir

Um cangaço rimado e de simbolismo glauberiano comandado pelo Lampião Irandhir Santos

Fotografado por Luís Abramo, numa câmera ora distanciada (quase documental), ora bêbada de ilusão felliniana, a produção começa com um enfrentamento de Lampião contra a Volante liderada por Antero Tenente (Servílio de Holanda). Este é derrotado pelo cangaceiro e posto de cabeça para baixo, jurando uma vingança eterna, que fica de herança para seu filho abrutalhado em meio a um Nordeste que, ontem e hoje, é abençoado pela passagem de um circo, no qual o próprio Alceu é o palhaço, numa atuação coberta de açúcar. Ao trançar passado e presente num fluxo onírico que se opõe aos profanos poderes da vingança, o músico-cineasta nos dá um filme tenso e vivo, capaz de resgatar a tradição do “ciclo do cangaço” em nossas telas, mais perto do santo guerreiro Glauber Rocha do que dos dragões do western americano. É um musical cangaceiro com macio como carne de caju.

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