‘One Second’, o ‘Cinema Paradiso’ chinês

‘One Second’, o ‘Cinema Paradiso’ chinês

Rodrigo Fonseca

17 de setembro de 2021 | 13h17

Zhang Yimou acende as lanternas vermelhas da paternidade em “One Second”, que concorre à Concha de Ouro de San Sebastián

RODRIGO FONSECA
Apesar de ter um roteiro bambo, em especial na forma rasa como justifica a aproximação afetiva de dois personagens a princípio incompatíveis, “One Second”, um filme do chinês Zhang Yimou esperado há dois anos, abriu a edição n. 69 do Festival de San Sebastián, nesta sexta, celebrando a potência plástica da imagem. Em 2019, o longa-metragem fez parte da seleção competitiva da Berlinale, em concurso pelo Urso de Ouro, mas foi retirado da disputa, sem explicações, pelo governo de seu país. E olha que ele marcou época na capital alemã com “Sorgo Vermelho”, em 1988. Cogitou-se que sua abordagem da Revolução Cultural maoísta tenha criado ruído entre seus líderes, mesmo que o diretor sempre tenha sido visto como um artista alinhado com o regime. Em 2020, salas de exibição em Pequim lançaram o tocante novo drama de Yimou comercialmente. Não havia sinal de ele chegar ao Ocidente até San Sebastián convocá-lo para seu certame deste ano.
Com uma fotografia requintada, sem medo da beleza estetizada, “One Second” se deleita – e nos deleita – com panorâmicas por uma arenosa paisagem desértica. Em meio a toneladas de areia, um fugitivo da Justiça entra em um jogo de gato e rato com uma adolescente para reaver um rolo de película de um cinejornal. Nesse documentário de cunho jornalístico há registros da filha que o ex-presidiário perdeu. Nessa luta, ele e a adolescente que se apodera do carretel de filme criam um afeto de tom paternal. Esse processo dá ao longa do realizador de “O Clã das Adagas Voadoras” (2004) um tom de “Cinema Paradiso”.
Quem passou feito um furacão por Donostia (nome de San Sebastián em Euskera, ou Euskara, um idioma local) foi a atriz francesa Marion Cotillard. A eterna Piaf será homenageada no evento está noite com um troféu honorário, pelo conjunto de sua obra como atriz. “Numa estrutura narrativa como o cinema, o silêncio no trabalho de uma atriz é um gesto de frenesi, que nos permite uma expressão física de nossas reflexões”, disse Marion ao P de Pop.

Ela trouxe na mala o documentário “Bigger Than Us”, sobre ativismo ecológico, do qual é produtora. “Gosto muito de filmes documentais, desde longas sobre animais até produções sobre cantoras e cantores. Gosto de aprender com a estética desse formato ligado ao real”, disse Marion ao Estadão.

San Sebastian segue até o dia 17. Neste sábado, a maratona cinéfila do norte espanhol confere o longa “Madalena”, do mato-grossense Madiano Marcheti. É uma radiografia da transfobia no Brasil, que concorre na mostra Horizontes Latinos. Tem filme brasileiro também na mostra Nest: o curta carioca “Fantasma Neon”, de Leonardo Martinelli, laureado com o Leopardo de Ouro de Locarno.

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