‘One Second’: Zhang Yimou abre San Sebastián

‘One Second’: Zhang Yimou abre San Sebastián

Rodrigo Fonseca

20 de agosto de 2021 | 11h05

“Um Segundo” (“One Second”/ “Yi Miao Zhong”) vai disputar a Concha de Ouro

Rodrigo Fonseca
Com a escalação de “Um Segundo” (“One Second”/ “Yi Miao Zhong”) para abrir sua 69ª edição, no dia 17 de setembro, o Festival de San Sebastián põe um ponto final em um dos maiores escândalos políticos do cinema: o “Caso Zhang Yimou”. As aspas se referem a um incidente da seleção de 2019 de um outro evento, igualmente importante, a Berlinale. Na ocasião, “One Second”, um dos filmes mais recentes do mestre chinês responsável por pérolas como “A História de Qiu Ju” (Leão de Ouro de 1992), foi retirado da disputa pelo Urso de Ouro sem aviso prévio. Saiu sem explicação coerente. A justificativa dada – não pelo cineasta, mas pelo governo da China, famoso por sua natureza castradora em relação à obras de arte – foi: a produção ainda não estava 100% finalizada. O rumor generalizado: agentes governamentais teriam reprovado a dimensão política da narrativa de Yimou, censurando-a para cortes. Há poucas semanas, o Ocidente soube que, em meio à pandemia, o filme, baseado em um romance de Yan Geling, foi lançado em terras asiáticas, sem alarde algum. Mas não havia sinal algum de ela ter espaço no Ocidente até que Jose Luis Rebordinos, diretor artístico de San Sebastián, resolveu convidar o longa para abrir sua maratona, concorrendo à Concha de Ouro.
Yimou, que retornou há pouco ao circuito brasileiro com “Shadow” (2018), fala de laços de família em “One Second”. No enredo, um prisioneiro é enviado a um campo de trabalho no noroeste desolado da China durante a Revolução Cultural do país. Usando sua inteligência, e com o único propósito de ver um noticiário contendo um vislumbre de sua filha, ele escapa e se dirige para o cinema em uma cidade local. Lá, ele espera encontrar o tal rolo de filme e conseguir um contato com a menina. Mas no caminho, ele encontra uma jovem que se apodera do carretel e foge com ele. Curiosamente, este objeto enigmático, que ambos cobiçam por razões muito diferentes, vai se tornar a semente de uma amizade inesperada.
Fala-se, na China, que “Um Segundo” é o melhor trabalho do cineasta dos anos 2000 pra cá. Recentemente, ele lançou na China um frenético thriller de espionagem chamado “Impasse” (“Cliff Walkers”), cuja bilheteria beira US$ 181 milhões. Zhag Yi (de “Flores do Oriente”) lidera o elenco de uma trama sobre espiões comunistas treinados pela URSS. Na ocasião, ele ainda falou de outro projeto, “Under The Light”, também já rodado. Seu último lançamento comercial pelas telas ocidentais foi “Shadow”, um exuberante épico capa e espada (ou “Wuxia”, como dizem os chineses) também não lançado por aqui. Seu lançamento de maior visibilidade em anos recentes foi a superprodução “A Grande Muralha” (2017), com Matt Damon, Pedro Pascal e Willem Dafoe.

Mas é difícil aceitar o fato de o Cinema valorizar tão pouco a obra de Yimou mesmo sabendo de toda a sua contribuição seja em termos de cifras altas, seja em termos estéticos, afinal foi ele, lá atrás, em 1987, quem apresentou o audiovisual chinês moderno ao mundo, quando seu “Sorgo Vermelho” ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Foi a partir dele – e de Chen Kaige, com “Adeus, Minha Concubina”, de 1993 – que uma China de implosões e de geopolíticas outras que não a da Revolução Cultural de Mao Tse-Tung ganhou as telas do planeta. Ali, abriu-se um terreno que para uma esquadra asiática de diferentes latitudes daquele continente pudesse ganhar circuito global. Se não bastassem filmes de tessitura dramática sofisticada como “Tempo de Viver” (Grande Prêmio do Júri em Cannes, em 1994) e o belo “Nenhum a Menos” (Leão de Ouro em Veneza, em 1999), ele ainda surpreendeu exibidores com as bilheterias milionárias de “Herói” (2002) e da obra-prima “O Clã das Adagas Voadoras” (2004). Porém, a fama de pelego, por ele já ter sido simpatizante o lado mais reacionário do Estado, ampliado quando dirigiu a festa de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, tolheu qualquer boca a boca fervoroso em prol de sua arte. O desejo de filmar com astros de Hollywood, como o galês Christian Bale, em “Flores do Oriente” (2011), tornou o diretor mais polêmico na visão dos puristas. Mas o veto recente agora repagina sua imagem e reforça seu legado como um dos maiores diretores da História. Cabe a San Sebastián mudar sua sorte.

“The Eyes of Tammy Faye”

Além de “One Second”, o festival espanhol anunciou dois outros longas em competição: “The Eyes of Tammy Faye”, de Michael Showalter, com Jessica Chastain no papel de uma religiosa polêmica, e “Enquête sur um Scandale”, de Thierry de Peretti. O evento segue até o dia 25 de setembro.

p.s.: Reunindo poesia e música, numa parceria entre o pianista e compositor Marcos Nimrichter e a atriz e escritora Sandra Bonadeus, o filme “Asa da Palavra” estreia neste sábado (21/8), às 21h, no canal www.youtube.com/sbonadeus. Outras sessões acontecem nos dias 25, 27 e 29/8, às 19h e 21h (com intérprete de Libras). Após o lançamento, o filme ganhará uma tiragem em DVD, que terá parte distribuída em escolas públicas do interior do estado do Rio.

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