‘Onde Nascem os Fortes’: era uma vez o Nordeste… numa edição memorável

‘Onde Nascem os Fortes’: era uma vez o Nordeste… numa edição memorável

Rodrigo Fonseca

24 de abril de 2018 | 12h16

Numa atuação em estado de graça, Fábio Assunção desenha a perversão que paira sobre Sertão nas cenas finais do primeiro episódio de “Onde Nascem os Fortes”, na TV Globo

Rodrigo Fonseca
Há uma deixa visual discreta, porém potente, em Onde Nascem os Fortes, para evidenciar o pleno equilíbrio entre imagem e palavra – raro na relação hierárquica da teledramaturgia – que se evidencia já no primeiro capítulo da nova superssérie da TV Globo, lançada no Dia de São Jorge: um quadro pendurado na parede do hotel onde os gêmeos Maria (Alice Wegmann) e Nonato (Marco Pigossi) estão hospedados. A pintura traz um garotinho pé no chão conduzindo um jegue, em cujo lombo se depositam pesados balaios. É uma imagem que dialoga com uma ancestral iconografia do Nordeste, um lampejo de Vidas Secas naquelas terras regadas pelo Sol. É uma espécie de Nordeste mítico (onde a fantasia esturricou-se no calor), fatia de uma Tebas milenar onde cabe toda a tragédia brasileira, não importa seu CEP. Aquele Nordeste é uma bússola de um caminho a ser evitado: é a trilha do desdém do Estado, da invisibilidade dos famintos. Na trama concebida por George Moura e Sergio Goldenberg, numa alquimia de sentidos com a direção artística de José Luiz Villamarim, aquele Nordeste não é um fato; ele é uma hipótese, um futuro triste do qual a cidade fictícia de Sertão se alforriou graças à fartura de “ouro do Nordeste”, a betonita, em meio à sua erosão. A betonita alforriou aquele povoado da desgraça sociológica, trocando lombos de jegue por Land Rovers e trações a quatro rodas. É um Nordeste de ascese, e não o Nordeste do Cinema Novo, anestesiado do ronco em sua barriga pela promessa de que tudo ali há de virar mar. Mas George, Goldenberg e Villa não dão as costas às lições geopolíticas que os cinemanovistas nos deram. Ao propor um novo espaço geográfico – e assumi-lo como o real protagonista de um produto para o horário das 22h20 da Globo -, o trio, e seus valorosos colaboradores de texto e direção, sabem que nosso passado referencial é o que baliza a possibilidade de se buscar veredas ainda não desbravadas, localizadas na fronteira tênue entre o Real e a Fábula, o factual e o ficcional. É lá que nascem os fortes… num clima à la de Sergio Leone em C’Era Una Volta Il West (1968), embora não seja um bangue-bangue, e sim um drama violento sobre paixões em ebulição. Algo como foi Amores Brutos (2000), de Alejandro González Iñárritu, filme sagrado para um dos diretores do projeto, Walter Carvalho, responsável (como maior fotógrafo do país) pela luz de Leone que dá à cidade de Sertão uma universalidade onde cabem o Arizona dos caubóis ou a Guadalajara do cinema social mexicano. As feridas abertas são as mesmas, embebidas no pus da honra ferida e numa vaidade perfumada a machismo.

Tensão: Nonato (Marco Pigossi) interpela Pedro Gouveia, o Rei da Cidade de Sertão (Alexandre Nero), e a amante deste, Joana (Maeve Jinkings, sempre em chamas)

Esses elementos (vaidade e honra) desenharam, na trama, uma figura do tamanho da nossa imaginação, capaz de evocar (em um pingo de cenas memoráveis do cap. 1) o trabalho do genial ator italiano Gian Maria Volontè, o bandido mais sedutor de Leone: uma figura chamada Ramiro, um juiz fiel a uma tese: “Todos os dias são do caçador”. Por trás desse ente, desse Gene Hackman de um Nordeste de imperdoáveis, temos um astro em estado de graça, Fábio Assunção, que, nos anos 2000, presenteou a TV com o maior vilão de folhetins dos anos 2000: Renato Mendes de Celebridade (2003). É tarefa dele (pelo que vimos nos minutos finais do episódio 1) tirar os satélites naturais de Sertão – Pedro Gouveia (Alexandre Nero, em poderosa composição) e Cássia (Patricia Pillar, de doçura maternal) – de sua órbita. E os gêmeos lá de cima, aqueles que contemplam, noite a noite, a pintura do sertão antigo, serão os caminhos de sua ação. É o que parece. Parecer é o verbo do milagre na televisão: não há lugar para certezas absolutas na trajetória narrativa que Moura, Villa e Walter andam construindo juntos (com a luminosa troca com Goldenberg em alguns trabalhos) numa jornada por um Brasil de poderosos cercados de vassalos apaixonados. O Canto da Sereia (2013) foi o marco zero de uma nova linhagem de representações do Brasil, com homens que se emasculam à força do querer bem e de mães em busca de um abraço que abrigue sua prole no perdão e no recomeço. Amante faminta de Gouveia, Joana, papel dado a Maeve Jinkings (hoje uma das mais luminosas atrizes de nossa telona), é um exemplo dessas mulheres que sintetizam o empoderamento dos novos tempos, com a poesia do perigo. Poesia que parece ser o norte dessa superssérie que começou deixando o gosto de quero mais. Imagina então quando Erique Diaz entrar em cena…

Há algo de imponente que se fez notar no episódio inaugural da superssérie e que merece loas por sua singularidade no léxico da TV: a sinuosidade avessa ao didatismo na montagem de Quito Ribeiro, Flávio Zettel, Valéria Barros e Rafael Fernandes. A edição galvaniza a luz chorosa do Sol de Walter Carvalho e valoriza a cenografia de Alexandre Gomes, como se vê com o tal quadro, de onde todo o jorro sensorial vem. Os diálogos trazem um senso de aforismo, de reflexão sobre um mundo de ética torta, onde cada lampejo de beleza precisa ser agarrado na urgência de se respirar transcendências. Na direção-artística, Villamarim amplia o tônus minimalista com o qual esculpiu o filmaço Redemoinho (2016) e faz do silêncio um parceiro fiel, sem estilizações, usando o movimento como o caminho de arejar a narrativa e dar àquele drama um timming de tensão. Vamos ver o que o episódio de hoje aponta…      

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