‘Onde Está Meu Coração’ ferve a ‘Tela Quente’

‘Onde Está Meu Coração’ ferve a ‘Tela Quente’

Rodrigo Fonseca

30 de abril de 2021 | 09h32

Letícia Colin tem uma atuação memorável no estudo de George Moura e Sergio Goldenberg sobre dependência química, solidão e laços de família

RODRIGO FONSECA
Inaugurada em 1988, com Indiana Jones falando português, bem dublado por Julio César, em “Caçadores da Arca Perdida”, a “Tela Quente” deu seus primeiros passos rindo com Woody Allen (“Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”) e lutando boxe (com “Rocky III”). Mas, ao longo de suas três décadas e três anos de vida, a sessão de cinema mais blockbuster de nossa televisão flertou com a brasilidade de múltiplas formas, abrindo-se até para episódios inaugurais de séries do Globoplay. É o caso de sua atração desta segunda-feira. Neste 3 de maio, o Brasil vai entender o que fez a Berlinale chorar (e se deslumbrar) com Letícia Colin no papel central de “Onde Está Meu Coração”. É uma cartografia de solidões, conexões familiares e angústias relacionadas à dependência química. Exibido no Festival de Berlim em 2019, o projeto foi idealizado e escrito por George Moura e Sérgio Goldenberg, tendo São Paulo como arena, apoiado no vigor da direção de Luísa Lima. Fábio Assunção é um mimo à parte do elenco, fazendo depurar uma vontade de potência trágica, na representação dos dilemas do país, que já vinha de “Onde Nascem os Fortes” (2018), também de George e Goldenberg. A trama que vai ar agora na TV aberta – seguindo para o streaming da Globo na terça-feira – se concentra na jornada existencial de Amanda (Letícia, numa atuação em estado de graça). No exercício diário da Medicina, em SP, ela busca nas drogas um alívio para as pressões do dia a dia. É quando toda sua família (Mariana Lima é a mãe; Assunção, o pai) precisa enfrentar a questão do consumo de crack e passar em revista as delicadas relações de afeto. Igual apreensão vive o grande amor da médica, Miguel, papel de Daniel de Oliveira. Na projeção em telas germânicas, na Berlinale Series, o calvário de Amanda abriu reflexões sobre formas de se representar o vício. “Visualmente impactante, por uma fotografia que explora o ambiente de uma grande cidade sob ângulos inusitados, essa história abre uma nova perspectiva sobre o tema dos narcóticos, que transcende a sociologia”, disse o produtor e consultor de roteiros americano Denis Leroy ao P de Pop, ao fim da projeção do primeiro episódio, no cine Zoo Palast. “A unidade familiar parece ser o foco desse enredo, o que nos leva mais para o melodrama do que para as narrativas criminais”. Na conversa a seguir, George Moura – hoje em cartaz na MUBI com o premiado “Redemoinho”, filme que escreveu para José Luiz Villamarim – explica que Brasil ele tentou flagrar pelos olhos vidrados de Amanda.

Qual é o lugar da solidão na saga da médica vivida por Letícia Colin e como a sua obra se reporta aos tipos solitários?
George Moura:
A solidão me lembra os versos de um poeta pernambucano, não tão conhecido, que eu gosto muito, chamado Carlos Pena Filho: “são trinta copos de chopp/ são trinta homens sentados/trezentos desejos presos/trinta mil sonhos frustrados”. A médica Amanda, brilhante e auto exigente, é dessa natureza. Mesmo cercada por amigos e família, ela se sente incompleta. E isso a leva para o abismo da dependência química.
O que São Paulo representa como instância de investigação pra sua dramaturgia? De que forma as cidades se impõem como personagens para as suas histórias?
George Moura:
Essa história sempre foi pensada por mim e pelo Sérgio Goldenberg, tendo São Paulo como personagem. A sua geografia física toca Amanda de uma maneira que a deixa mais vulnerável. A selva de pedra do Luiz Sérgio Person do “São Paulo SA” parece habitar alguns dos planos da série. E marca também a linda estreia de uma talentosa diretora, no seu primeiro trabalho solo: Luísa Lima. Ela já havia feito, junto com o diretor José Luiz Villamarim, “O Rebu” e “Onde Nascem Os Fortes”. Villamarim faz a supervisão artística da série.
Quem é a sua equipe de roteiro nesse processo, além do Goldenberg?
George Moura:
Laura Rissin e Matheus Souza. Laura trouxe um olhar feminino para a relação mãe (Mariana Lima/Sofia) e filha (Letícia Colin/Amanda). E Matheus trouxe um olhar de frescor juvenil para as cenas mais desmedidas.

Diretora artística Luísa Lima dirige os atores Fábio Assunção, Letícia Colin e Mariana Lima no set de “Onde Está Meu Coração” — Foto: Globo/Fábio Rocha

Depois de “O Rebu” e de uma superssérie, como “Onde Nascem os Fortes”, o que esse formato de minissérie te traz de mais desafiador e de mais libertador?
George Moura:
Uma série de dez capítulos como “Onde Está Meu Coração” é a chance de exercer a síntese, sem precisar espremer a história. É uma narrativa em que você pode centrar a história nos protagonistas, mas com a chance de ir mais verticalmente neles e ainda desenvolver algumas tramas paralelas, sem precisar esticar demais as subtramas.
Como você avalia lançar um produto brasileiro numa sessão como a “Tela Quente”, que começou em 1988 com “Os Caçadores da Arca Perdida”? O que esse espaço de cinema tão popular te oferece?
George Moura:
É uma honra e uma responsabilidade gigante. Mas acreditamos que a série “Onde Está Meu Coração” tem pegada e perfil para o “Tela Quente”. É uma história pungente, construída com delicadeza e emoção, e com um forte gancho para sua continuidade. É bom lembrar que o “Tela Quente” tem sido palco de filmes brasileiros como “Sequestro Relâmpago”, “Sob Pressão”, “O Filho Eterno”, que fizeram ótimo resultado de audiência, alguns deles até mesmo superando filmes dos grandes estúdios americanos. Todos esses filmes tiveram supervisão de roteiro minha e do Guel Arraes e foram realizados com o selo da Globo Filmes. Nós o chamamos internamente de Projeto Janela Curta, ou seja, pequenos grandes filmes sobre temas urgentes. Agora é torcer para o “Onde Está Meu Coração” ter uma linda visibilidade neste horário nobre.

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