Onde andará ‘Félicité’?

Onde andará ‘Félicité’?

Rodrigo Fonseca

28 de março de 2020 | 11h54

Rodrigo Fonseca
Ao fim do caos do coronavírus, os grandes festivais de cinema do mundo vão restaurar suas estratégias de ação, em busca de potenciais surpresas de diferentes continentes, sendo que a África deve correr pro gol com “Lingui”, do chadiano Mahamat-Saleh Haroun, diretor que é um ímã de elogios por onde passa. Mas há um filmaço do território africano, revelado há três anos, que, até hoje, segue inédito em circuito nacional. Melodrama dos bons, daqueles de arrancar litros de choro falando de maternidade, de luta contra a pobreza e de amores impossíveis, “Félicité” colocou a África sob os holofotes do planisfério ao conquistar o Urso de Prata no Festival de Berlim de 2017, e mais sete prêmios, tornando-se um cult de tom social. Produção franco-senegalesa rodada no Congo, sob a direção do francês de origem africana Alain Gomis, o longa-metragem, estrelado pela atriz de teatro e estreante nas telas Véro Tnda Beyasha, até agora segue inédito em circuito no Brasil. O longa anterior do cineasta, “Hoje” (“Aujourd’hui”, 2012), também só flanou por aqui em retrospectivas. O streaming MUBI é uma forma de ver a obra de Gomis.

“Não faço sociologia, nem folclore nos meus filmes, faço dramas humanos, falando de pessoas que têm a capacidade de aceitar a vida como ela é, com todas as suas dificuldades, driblando as limitações atrás de alegria, de prazer”, disse Gomis ao P de Pop na Berlinale, onde o diretor fez história ao receber o Grande Prêmio do Júri ao lado de Véro. “Não trabalho com dados numéricos, trabalho com gente, com mães e filhos, pais e irmãos, buscando identificação com o público, levando-o a conhecer as contradições da cidade congolesa de Kinshasa. Vocês aí no Brasil, com a realidade das favelas, talvez enxerguem em vocês um pouco da Kinshasa por onde eu círculo. Um ambiente lotado de gente, marcado pela pobreza e pela corrupção, com total descaso das autoridades em relação à Saúde e à segurança pública. Mas as pessoas lutam e resistem. Eu falo sobre gente que formas de resistir”.

Calcado em um realismo entulhado de lixo, pobreza e exclusão, “Féliclité” toma seu título emprestado do nome de sua protagonista, uma sofrida cantora de bar, que canta noite após noite para sustentar seu filho adolescente. Exuberante, ela vira objeto de desejo dos homens e alvo da inveja das demais mulheres. Mas a rotina de Félicité vai mudar quando o garoto sofre um grave desastre de moto. Há chances de que ele perca a perna Em guerra contra a miséria, a fim de encontrar o dinheiro para custear o tratamento do rapaz, ela contará com a ajuda de um faz-tudo de Kinshasa, o bêbado de carteirinha Tabu (Papi Mapka), fará de tudo para ajudá-la, não apenas consertando sua geladeira defeituosa, como tentando conquistar seu coração.

“O desconhecimento acerca dos múltiplos cinemas da África leva muita gente a crer que nós só dirigimos atores não profissionais aqui. Vendo Véro em cena, vocês terão ideia do qual preparadas são as nossas estrelas. Elas apenas possuem um repertório profissional e afetivo diferente”, explicou Gomis. “Existe uma linhagem de diretores africanos, como o grande Souleymane Cissé, que nos deixou como legado a potência da imagem em detrimento de narrativas clássicas, pautadas por viradas de roteiro. O diálogo, em nossos filmes, é um termo acessório: o silêncio fala mais alto, o barulho das ruas miseráveis fala mais alto. Respeito muito a tradição, mas não quero ficar preso ao passado do cinema africano. Quero me adaptar às novas plateias e conversar com as novíssimas gerações de jovens espectadores africanos que não viram nosso cinema em salas de cinema”.

p.s.: Neste domingo, às 16h, a TV Brasil exibe uma iguaria da comédia nacional que comprova toda a excelência de Cássio Gabus Mendes no domínio de um ferramental dramatúrgico mais leve: “Gosto se Discute”. Nela, ele está ao lado da youtuber Kéfera Buchmann. Os dois vivem uma espécie de love story gastronômica do longa-metragem dirigido por André Pellenz (do sucesso “D.P.A. – O Filme”). No longa de Pellenz, o (ótimo) ator paulista vive um dos mais prestigiados chefs de um restaurante estrelado, mas um tanto ultrapassado. E em meio a uma tempestade afetiva, ele vê toda sua clientela ir embora e optar por um food truck que acaba de ser aberto em frente ao seu estabelecimento. Para piorar, ele tem que engolir uma auditora super CDF do banco onde tem conta, vivida por Kéfera. Aos poucos, surge ali uma parceria… e um clima.

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