OGER SEPOL: a magia do cenário virtual

OGER SEPOL: a magia do cenário virtual

Rodrigo Fonseca

02 de novembro de 2020 | 12h07

Imagens da criação dos cenários virtuais

Rodrigo Fonseca
Com o anúncio do lockdown na França e as mobilizações na Alemanha acerca de um novo confinamento, a indústria cinematográfica – que vinha enxergando na Europa um caminho para realizar produções antes impossíveis de ser feitas nos EUA e em outros cantos das Américas, por sequelas geopolíticas da Covid-19 – pode já vislumbrar uma saída para seguir rodando seus curtas, longas e séries a partir de um recurso tecnológico em painéis de LED: os cenários virtuais. A partir de um sistema interativo de rastreamento e programação, essa tecnologia garante um fluxo de trabalho, e de produção virtual, que expandem o que é possível criar no set. Quem traz essa opção rentável e sustentável de trabalho para a arte de filmar no Brasil é a produtora OGER SEPOL. Ela viabiliza a construção de um cenário virtual com grandes painéis de LED da Leyard Plannar, utilizando da plataforma de programação de jogos (Unity Engine), combinadas a sensores no estúdio e na câmera. Essa engenharia possibilita que as imagens nos painéis de LED sejam ajustadas em tempo real para se adequar à mudança no paralaxe da câmera. Ou seja, a perspectiva da imagem exibida muda para combinar com o movimento da câmera, como explica Diego Lopes, o diretor da OGER, ao P de Pop do Estadão.

Como funciona, na prática, o trabalho com “cenário virtual”?
Diego Lopes:
Em essência, a produção virtual é onde o físico e o digital se encontram. O termo abrange um amplo espectro de ferramentas e técnicas de produção e visualização auxiliadas por computador para compor, capturar e manipular cenas perfeitas misturando realidade física e aumentada. O cenário virtual é a soma de grandes painéis de LED mais a gestão do cenário 3D em uma plataforma de programação de jogos (no nosso caso o Unreal Engine), que com a adição de sensores de rastreamento (oriundos da tecnologia de realidade virtual), instalados no estúdio e na câmera, possibilitam que as imagens nos painéis de LED sejam ajustadas em tempo real para se adequar à mudança no paralaxe da câmera. Ou seja, a perspectiva da imagem exibida muda para combinar com o movimento da câmera. No sentido de praticidade, a utilização desses volumes de LED promovem uma imersão dos atores e equipe na cena e reduz o tempo e principalmente a necessidade de pós-produção. Todos os efeitos, gráficos e animações são criados antes das filmagens, o que significa que produtores e atores podem visualizar uma cena quase finalizada durante as filmagens ou assim que terminarem o set, proporcionando um maior nível de liberdade criativa a todos os envolvidos e reduzindo o tempo e os custos de produção.
O que esse sistema permite de economia ou de praticidade a um produtor?
Diego Lopes:
O cenário virtual fortalece o processo criativo e facilita o trabalho dos profissionais de fotografia e arte em um set. O diretor de fotografia pode ter um papel único seja na criação dos cenários virtuais antes da produção, essencialmente iluminando e decidindo a posição da luz na cena virtual, como no que será feito em tempo real durante a produção visualizando de imediato o resultado final. O diretor de arte tem liberdade artística de criar, podendo, durante a filmagem, visualizar o resultado em tempo real e, se necessário, pedir alterações que podem ser feitas rapidamente. O workflow do sistema permite a possibilidade de ajustes rápidos, conforme a necessidade da equipe, pode-se mover o sol, reflexos e elementos do próprio cenário, tudo em um tempo muito curto. Cenários estes que podem ser oriundos de uma criação 3D ou de um ambiente que foi escaneado (seja em fotogrametria ou através de um Lidar) e aplicado no ambiente em Unreal. É o cenário perfeito para um aumento da produtividade na produção de filmes, e aqui podemos perceber economias significativas. Primeiro por permitir a possibilidade de ter uma equipe reduzida em set. Segundo, pelo cenário ser grandes painéis de LED, o que significa que são grandes emissores de luz, existe uma economia no investimento em locação de luz fora o realismo que os painéis permitem em termos de luminância. Economiza-se também em logística, já que é possível criar cenários internos e externos, trazendo o benefício de locações complexas, caras ou com limitações, sem se preocupar com locações em locais distantes, horas de luz em determinados locais, problemas de ruído, acesso restrito, entre outros.

Que filmes e séries já foram rodados nesse sistema lá fora e quais são as aplicações a caminho aqui no Brasil?
Diego Lopes:
A série que definitivamente teve um grande peso no estabelecimento da solução foi a “The Mandalorian”, da Disney, que teve uma grande parte dos seus sets usando dessa tecnologia. O uso do cenário virtual tem uma grande e rápida consolidação no mercado, ainda mais em tempos de pandemia. Um número significativo de filmes e séries estão utilizando dessa solução como: “The Westworld”, na temporada 3; “The One and Only Ivan”; “Avatar 2”; “Jingle Jangle: A Christmas Journey”, entre outros, com grandes estúdios no mundo inteiro estabelecendo linhas de pesquisa e soluções com cenários virtuais. No Brasil, as possibilidades de aplicações são inúmeras. O cenário virtual que estamos implementando vem como solução principalmente para o mercado publicitário e de conteúdo. Porém temos um segmento em expansão, de eventos ao vivo corporativos, que também podem utilizar dessa solução.
De que maneira esse sistema pode ajudar a modificar a produção audiovisual nestes tempos de pandemia, que exige novos protocolos de segurança?
Diego Lopes:
A indústria audiovisual tem adotado medidas para garantir a operação segura de produções do ponto de vista da saúde pública. O uso do cenário virtual vem como um grande facilitador nessa implementação pois permite que as produções funcionem com mais segurança e rapidez do que a filmagem tradicional em locações. Primeiro, ela se concentra em um estúdio, que é um ambiente controlado, e traz facilidades na implementação das novas regras de segurança como: limpeza frequente de áreas e equipamentos, horário limitado de filmagem e a criação de zonas que separam atores e equipe que não pode distanciar socialmente ou usar máscaras como parte de seu trabalho. Nesse momento pandêmico, acredito que haverá uma certa concentração das filmagens em CG total para ajudar a reduzir os dias de filmagem, lembrando que esse fluxo de trabalho oferece estabilidade e previsibilidade, duas coisas atualmente em falta. E é exatamente a flexibilidade e versatilidade da produção virtual que permitirá seu avanço em um mundo pós-pandêmico. Se for ainda considerar as possibilidades de trabalho remoto, o sistema de cenário virtual permite conectar pessoas em lugares distintos, na segurança da sua casa e sem afetar a dinâmica de filmagem. Nesse momento específico de pandemia, ter uma forma de filmar que oferece uma possibilidade infinita de cenários, em um ambiente controlado e que minimiza os riscos para a equipe e, consequentemente, para a produção, é uma solução que deve ser considerada com carinho. A produção virtual em tempo real não apenas oferece aos produtores e diretores liberdade criativa inigualável mas também reduz significativamente os custos da produção e o tempo gasto na pós-produção.

Tecnologia de LED

Esse sistema ainda parece favorecer a consciência ecológica dos sets. Mas como ele funcionaria pro caso de uma produção de época, que demanda mais detalhes de cenografia?
Diego Lopes:
Sem dúvida a solução de cenário virtual possui ainda um viés ecológico. Se for considerar a preocupação de um set para ser carbono neutro o simples fato de você poder evitar ter que fazer uma viagem com uma grande equipe para lugares distantes já traz um impacto significativo. Existe ainda a redução do uso de materiais físicos, principalmente na parte de cenários, que diminuem também os resíduos produzidos por um set. No caso de uma produção de época ou de ficção científica, a solução de cenário virtual ganha ainda mais destaque, pois é possível criar com realismo cenários que poderiam ser inviáveis financeiramente se fossem construídos em sua totalidade. O uso ideal da tecnologia é integrando o cenário físico com o virtual, mas a solução permite fazer essa integração com o melhor custo-benefício sem limitar as possibilidades artísticas necessárias para o filme.

p.s.: Eis um filmaço da 44. Mostra de SP importada da Berlinale, de uma nova lavra grega: “Digger”, de Georgis Grigorakis. O título aqui ficou “Desenterrar”. Gestada silenciosamente na Grécia, este drama de seiva política tornou-se uma das produções mais elogiadas da seção Panorama. Num pesaroso tom trágico, vitaminado pela montagem reflexiva de Thodoris Karvelas, este drama sobre a solidez que se desmancha no ar – pela ausência de dialéticas sociais – parte de um deslizamento de terra na região onde fica uma pequena propriedade rural… uma cabaninha. Seu dono, Nikita (Vangelis Mourikis) vive agrilhoado à modorra do Tempo, nesse local de lama, até que seu filgo regressa, depois de 20 anos de ausência, para cobrar a herança materna. Mas a situação já tensa entre os dois há de se agravar com a presença de uma construtora que quer se apossar do local. Nesse enredo, Sófocles dá as mãos a Karl Marx em um estudo sobre a erosão dos afetos.

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