O carvalho Walter faz poemas de luz

O carvalho Walter faz poemas de luz

Rodrigo Fonseca

01 de agosto de 2020 | 10h36

Rodrigo Fonseca
Mago da fotografia no Brasil, o paraibano Walter Carvalho – que exibe um filme inédito, “Caruatá – Veja o Lugar Que Me Vê”, no Arte 1, neste sábado, às 19h15, e no domingo, às 4h – fez um périplo pela saga da luz no cinema nacional em seu colóquio no seminário Na Real_Virtual. O realizador de “Moacir Arte Bruta” (2005) e do sucesso “Raul, O Início, O Fim e o Meio” (2011) – fotógrafo de “Terra Estrangeira” (1995), de “Lavoura Arcaica” (2001) e de outras pérolas – começou a conversa, na noite de sexta, elogiando os curadores Carlos Alberto Mattos e Bebeto Abrantes, e o produtor Márcio Blanco (da Imaginário Digital) pelo simpósio dedicado à arte de documentar. “A escassez me desafia e me estimula. Filmo sem ter certeza do que estou fazendo, descobrindo o que quero aos poucos”, liricizou(-se) Carvalho, no evento, que pode, sem modéstia alguma, gabar-se de ser “o” acontecimento da nossa produção cinematográfica neste 2020 de pandemia. Pra se inteirar do que se passou nessa maratona teórica, basta acessar o link: https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020. Nela, Bebeto e Mattos reuniram titãs da não ficção (Maria Augusta Ramos, Petra Costa, João Moreira Salles, Cao Guimarães, Carlos Nader já falaram) para comentarem seus processos, suas metodologias e suas poéticas, oferecendo aos ouvintes (ontem, dia 31/7, havia 124 pessoas sedentas de saber no Zoom da palestra) reflexões, desconstruções, experiências de campo e saudades. Como tinha saudade escorrendo das lembranças do carvalho Waltinho.
“Os primeiros documentaristas são os artistas da Renascença. Se você olha para o Renascimento e para o movimento que veio antes, você encontra artistas como Vermeer, cuja pintura é um documentário”, disse Carvalho no colóquio, lembrando que tem mais uma dose de “Caruatá” na TV no dia 4, às 14h15.

Na gênese de cada conversação de Bebeto e de Mattos com seus convidados há um filme. Carvalho debruçou-se sobre um de seus longas recentes mais radicais: “Iran”, de 2017, no qual registra a preparação do ator Irandhir Santos, com quem trabalhou em filmes como “Redemoinho” (2016) e na novela “Amor de Mãe”, interrompida durante a pandemia, mas marcada para ser reiniciada no segundo semestre. “Eram meados dos anos 2000 quando fui fotografar ‘Baixio das Bestas’ pro Claudio Assis e ele me apresentou a um ator que eu não conhecia: o Irandhir. Cláudio me disse: ‘É um ator daqui’. No primeiro dia em que filmamos com ele, quando a cena era o personagem dele cavando uma fossa, aquela pessoa me chamou muita atenção pela maneira como se concentrava. O câmera era o Lula Carvalho (filho de Walter). Lula olhou aquilo e disse: ‘Você tá vendo o que eu estou vendo’. Não era normal aquela preparação. Era impressionante. Irandhir tem um caderno de anotações, onde toma notas e faz desenhos. No ‘Redemoinho’, na casa onde filmamos, havia um cantinho, tipo um oratório, onde ele ficava se concentrando. Ali eu liguei a câmera, apenas com o interesse de registrar aquilo e presenteá-lo. Mas virou um filme”, contou Carvalho.

Inédito em circuito comercial, “Iran” é um lugar de lirismo, assim como “Caruatá — Vejo o Lugar que Me Vê”, registro de uma paisagem paraibana que, na fala de Carvalho, seria um reflexo (e uma reflexão) de seu trabalho como fotografo de still, não o fotografo de cinema. Sua relação com a fotografia é parte da educação sentimental que ele recebeu de seu irmão mais velho, o cineasta Vladimir Carvalho, um dos maiores documentaristas do país, conhecido por clássicos como “Conterrâneos velhos de guerra” (1991). “Uma foto numa parede de uma galeria, ou numa tela de cinema, vira, no olhar do público, algo bem diferente do que eu olhei, idealizei e registrei. E essa interpretação do outro é a continuidade da experiência artística”, disse Carvalho.

Em sua apresentação, Mattos destacou a recorrência de retratos sobre artistas na carreira de Waltinho como cineasta: “Walter Carvalho é um artista que não cabe em segmentos estanques. Transitando entre a fotografia fixa e a fotografia de cinema, entre a função técnica e a ambição autoral, entre o documentário e a ficção, ele vem construindo uma filmografia de grande relevância”, explicou Mattos ao P de Pop. “Resolvemos destacar no seminário os seus filmes sobre arte e artistas, subgênero dominante na sua produção. Walter já usou diversas estratégias para retratar figuras como Raul Seixas, Moacir, Armando Freitas Filho e Antonio Nóbrega. Em ‘Iran’, ele radicaliza o método da observação no rumo de um retrato quase xamânico do ator em (prepar)ação”.
O cardápio do Na Real-Virtual para os próximos dias contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 3/8 – Nos baús da História – Belisario Franca. Filme: Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil
Dia 5/8 – O filme-ensaio – Joel Pizzini. Filme: 500 Almas
Dia 7/8 – Estratégias narrativas – Gabriel Mascaro. Filme: Doméstica
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

p.s.: Falando de Waltinho, ele foi presidente do júri do Festival do Rio de 2015, quando “Califórnia”, de Marina Person, foi disputar o troféu Redentor. Saiu de lá com a láurea de melhor ator coadjuvante para o ótimo Caio Horowicz. Este vive um jovem avesso a rótulos sexuais que colabora para a educação afetiva para uma colega de escola (Clara Gallo). Este delicado trabalho de Marina como cineasta terá sessão nesta madrugada na Globo/Globoplay, às 3h40.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: