O Yellow Submarine de Hique Gomez faz Sbørnia

O Yellow Submarine de Hique Gomez faz Sbørnia

Rodrigo Fonseca

15 de janeiro de 2022 | 09h33

Rodrigo Fonseca
Já está decidido qual é o primeiro grande acontecimento teatral de 2022 no Brasil: a volta de “Tangos e Tragédias” na forma de “A Sbørnia Kontr´Atracka”, um espetáculo com pinta de cabaré e alma de CTG (os centros de tradições gauchescas) que vai muito… mas muito… além da condição de ser uma homenagem afetiva à peça canora da qual é derivado. O que o P de Pop viu (e até dançou) na noite de sexta, no Teatro Bourbon Country (Avenida Túlio de Rose, 80), em Porto Alegre, é uma espécie de “Submarino Amarelo” à brasileiro, igualmente lisérgico e vibrante qual o cult dos Beatles que evoca. Levados pelo piano de Simone Rassalan e pelo violino de Hique Gomez (um zé-pereira polifônico), os espectadores dessa “Sbørnia” parecem imersos no “Yellow Submarine” (1968), de George Dunning. À época, os Quatro Rapazes de Liverpool – consagrados no cinema com “Os Reis do Ié-Ié-Ié”, de 1964, e com “Help”, de 1965, ambos de Richard Lester – embarcaram em sua experiência narrativa mais radical, apostando na potência de linguagem do desenho animado. Um desenho batizado com o nome da canção título álbum que eles só lançariam em 1969. Na trama, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr se unem ao Capitão Fred para salvar o mundo de Pepperland de um povo azul que odeia música. O que acontece com Kraunus, papel de Hique, é parecido.

Hique Gomez leva a plateia às gargalhadas

Celebrizado no cinema com o filme “Até Que a Sbørnia Nos Separe” (2013), de Ennio Torresan e Otto Guerra, seu personagem nasceu no já citado “Tangos e Tragédias”, um blockbuster do teatro nacional, de matriz gaúcha, que nasceu no Rio Grande do Sul e mobilizou cerca de 1,5 milhão de pagantes entre sua estreia, em 1984, e 2014. Nessa data, um de seus componentes, o músico e ator Nico Nicolaiewsky, morreu em decorrência de uma leucemia. Seu parceiro de cena, Hique, sofreu a perda, o luto e a saudade, mas acreditou que a melhor forma de homenagear seu amigo seria resgatando o legado do país imaginário, de hábitos medievais, inventado pelos dois. Trata-se de uma ilha, que se desprendeu do continente após sucessivas explosões nucleares e passou a flutuar errante pelos mares do mundo. De lá vinham o maestro Pletskaya e o violinista Kraunus, sempre faminto e intrigado com os sumiços de seus sanduíches nas cidades onde se apresentavam.
Em “Tangos e Tragédias”, os dois chegavam ao Brasil, quase sempre a POA, para uma visita e, lá, cantavam uma série de canções típicas de seu país (como a genial “Ana Cristina”, que gruda qual chiclete no tímpano da gente) e dançavam o Copérnico, o bailado oficial daquela nação. Agora, em “A Sbørnia Kontr´Atracka”, Pletskaya regressa ao lar. Cabe a Kraunus, apoiado pela pianista e maestrina Nabiha Nabaha (Simone Rasslan, cujo sorriso ilumina o Bourbon de sabedoria cênica), preservar as tradições sbørnianas e difundi-las pelo mundo.
Entram em cena ainda Cláudio Levitan, no papel do Professor Ubaldo Kanflutz, reitor das Universidades de Ciências Fictícias, e Tales Melati, como o professor MenTales, tocador de Gaita de Foles. E há pelo menos dois momentos de lirismo pleno em cena, que acontecem quando Gabriela Castro sobe ao palco, no papel da bailarina Pierrot Lunaire. Ela dá um show incrível de sapateado. Igualmente lúdica é a participação do Jungst Korhal Sbørniani. É o Coro Jovem da Sbørnia.
Capaz de cativar e encantar os velhos fãs de “Tangos e Tragédias”, o belo “A Sbørnia Kontr´Atracka” não se limita a ficar à sombra de sua matriz e investiga novas formas de se fazer humor a partir da canção. O desempenho de Hique é de rachar de rir.

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