‘O Valor de um Homem’ é ‘a’ pedida do dia na TV

‘O Valor de um Homem’ é ‘a’ pedida do dia na TV

Rodrigo Fonseca

27 Julho 2017 | 09h34

“O Valor de um Homem” deu a Vincent Lindon o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes, em 2015

Rodrigo Fonseca
Encarado como “o” longa-metragem político nº1 de 2015 por sua percepção de que “poder” é sinônimo de “dinheiro” e “governo” é igual a “economia”, O Valor de um Homem (La Loi du Marche), de Stéphane Brizé, tem passagem pela TV esta noite. Às 22h, desta quinta, 27 de julho, o filme terá sessão no Telecine Cult. De doer na alma, por sua acuidade na denúncia de novas técnicas de exclusão, o longa-metragem alcançou cinco estrelas no juízo de algum dos mais influentes olhos da crítica francesa no tempo em que chegou à marca de 836 mil ingressos vendidos em seu país de origem. O duplo sucesso se deve à acuidade de seu retrato para a moléstia financeira que varre o Velho Mundo, ferindo sobretudo a saúde moral de quem já está na casa dos 50 anos e se vê uma peça descartada pelas engrenagens do Capital. Sem jamais escorregar no melodrama, mantendo temperatura e pressão fora das condições normais, na fronteira com o suspense, o diretor do subestimado Entre Adultos (2009) e de Uma Primavera com Minha Mãe (2012) faz do calvário ético de um cinquentão desempregado seu espaço de observação (em 360 graus) do desamparo social numa França em rota de colisão com a recessão.

Seu protagonista, Vincent Lindon, foi indicado ao prêmio de melhor ator no European Film Awards, por um mérito inquestionável e também pelo fato de ter conquistado a láurea de melhor atuação masculina no Festival de Cannes em maio do ano passado. A consagração definitiva da produção veio com um artigo na Cahiers du Cinema que dá uma distinção a Brizé como sendo um herdeiro da tradição politizada de Costa-Gavras e Francesco Rosi. Na trama, Lindon é Thierry, chefe de família com uma ficha corrida de elogios como bom profissional mas que, ao chegar aos 50 anos, encontra-se sem emprego. Para sair das dificuldades financeiras e garantir sustento à mulher e ao filho, que é portador de necessidades especiais, ele se submete a um emprego de baixa remuneração em um hipermercado. Lá, Thierry vai conhecer as diferentes formas de humilhação que a exclusão financeira pode produzir.
“É uma condição da Europa hoje: o medo da escassez financeira”, disse Lindon em Cannes no ato de sua vitória, coroando uma atuação de contenções. Mestre na arte de represar excessos, como visto em sua recente parceria com Claire Denis (Bastardos) e Alain Cavalier (Pater), Lindon sacrifica seu status de galã maduro compondo um tipo nas franjas do patético, que ainda estima seu caráter em valores que não podem ser comprados no atacado ou no varejo.