O último post de 2016: mais de Jia Zhangke

O último post de 2016: mais de Jia Zhangke

Rodrigo Fonseca

31 Dezembro 2016 | 20h09

As Montanhas Se Separam Mountains May Depart Jia Zhang-Ke
RODRIGO FONSECA

Tem Jia Zhangke novo no forno: Journey to the West é o projeto atual do diretor chinês, centrado na entrada avassaladora de seu país no Ocidente, a partir de seu crescimento econômico, já capaz de ameaçar a onipotência dos EUA. Há boatos de que ele vai integrar o júri do 67º Festival de Berlim (9 a 19 de fevereiro), presidido pelo holandês Paul Verhoeven: na primeira semana de janeiro sai a nova leva de filmes em concurso, na qual se cogita, na briga pelo Urso de Ouro, a presença de Viajante do Amanhã: Ghost in the Shell, de Rupert Sanders; de Outrage: The Final Chapter, de Takeshi Kitano; e de The Comedian, de Taylor Hackford. Nada é certo ainda sobre a Berlinale, mas sobre Jia, há uma certeza unânime: trata-se de um dos maiores mestres da direção na contemporaneidade, sobretudo pela habilidade de mesclar realidade e ficção ao representar sua pátria, como comprovam seus dois trabalhos mais recentes: o curta  The Hedonists, uma comédia com tintas absurdas sobre desemprego, exibida em março no Beautiful – Hong Kong International Film Festival, e o aclamado longa As Montanhas Se Separam (Mountains May Depart), eleito um dos dez melhores lançamento do circuito brasileiro de 2016 na votação da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACC-RJ).

 

“O dinheiro virou o epicentro das relações humanas, mas, quando você sai por um país tão gigante e tão cheio de contradições geopolíticas como a China, observando o quão grande é a complexidade humana, passa-se a relativizar as relações econômicas e buscar o que realmente dá sentido às pessoas”, disse Jia ao P de Pop, no Festival de San Sebastián, em setembro, relembrando do que o motivou a fazer As Montanhas Se Separam. “No fim dos anos 1990, quando apareceram as primeiras câmeras Mini-DV, saí pela China filmando tudo o que podia, registrando desde festas populares até as mais cotidianas interações entre adolescentes, a fim de saber como a juventude do meu país pensa e sente. Busquei esse material para repensar a China de hoje e tentar entender o que pensamos sobre futuro”.

Shen Tao (Tao Zhao) se depara para lidar com as escolhas amorosas

Shen Tao (Tao Zhao) se depara para lidar com as escolhas amorosas

No Rio de Janeiro, esta produção – exibida em concurso em Cannes em 2015 – terá uma nova chance em tela grande nesta quarta, às 16h, no Estação Net Barra Point. E, ao longo de janeiro, ela será projetada no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ), na mostra anual dos eleitos da ACC-RJ, que, agora em 2017, começa no próximo dia 18. As Montanhas se Separam confirma o tônus humanista de um diretor sempre apto a surpreender pelo esgarçamento das fronteiras entre crônica, poesia e documentário. Galardoado com 11 láureas mundo afora, seu novo longa-metragem, saudado a uivos de satisfação após uma projeção para a imprensa, o realizador de Plataforma (2000) patina por um terreno inóspito para sua cinematografia: o melodrama. Mas, mesmo com uma derrapada de roteiro aqui e acolá – algo perfeitamente normal a um cineasta que esnoba a linearidade convencional do storytelling -, Jia galga degraus mais ambiciosos em sua evolução como artista, criando uma ponte com a tradição de um gênero com o qual não é íntimo e produzindo, a partir dela, algumas das sequências mais comoventes do cinema chinês atual.

O diretor chinês no documentário de Walter Salles:

O diretor chinês no documentário de Walter Salles: “Jia Zhangke, O Homem de Fenyiang”, produção de 2014

Ao som de Go West, dos Pet Shop Boys, a China dos anos 1990 renasce neste longa num triângulo amoroso entre Tao (Zhao Tao) e dois homens, o rico Zhang Jinsheng e o pobretão Liang Jangjung. De 1999 a idos de 2025, as trajetórias dos três vão se emaranhar, até dar lugar aos conflitos internos do filho de Tao, Dollar (o ótimo Dong Zijang), que parte para a Austrália, falando inglês – a língua do “Oeste” cantado na canção dos PSB.

Como sempre, as incongruências sociais são o foco do diretor, que usa diferentes texturas de imagem para construir o visual do filme, incluindo granulações e efeitos de filtros coloridos que destorcem as cenas. Mas Jia vai além desse experimento formal, alcançando uma transcendência poética plena a evocação da cartilha do melodrama. A cena onde a mulher de Liang vai pedir ajuda financeira para Tao, ex-amada de seu marido, é de doer na alma pela observação que propicia da fraqueza humana frente à força do capital.

Jia ficou ainda mais conhecido no Brasil ao virar o tema de um documentário magistral de Walter Salles: a aula de cinema O Homem de Fenyiang.

Feliz 2017 a todos!