‘O Último Duelo’: um Ridley Scott grandioso

‘O Último Duelo’: um Ridley Scott grandioso

Rodrigo Fonseca

18 de outubro de 2021 | 23h52

Jodie Comer tem uma atuação memorável em “The Last Duel”

Rodrigo Fonseca
Estrelado por Michael Douglas (e bem dublado por Élcio Tomar), “Chuva Negra” (1989) é o grande Ridley Scott que ninguém cita, seguido por “Gladiador” (2000). É a súmula de seus temas de autor: resignação forçada, barbárie, um debate sobre o que é ser humano e a repulsa ao estrangeiro. Três décadas e dois anos depois do thriller com Douglas, o diretor britânico faz algo (quase) tão bom em “O Último Duelo” (“The Last Duel”), seu own private “J’Accuse”, capaz de ir de volta a seu “Os Duelistas” (1971), de formação, e ainda perpassar o conjunto de reflexões acerca de verves intolerantes que marcam “Blade Runner” (1982) e “Alien, o Oitavo Passageiro”, de 1979. Há nele uma sequência de batalha capaz de evocar o que o cinema clássico nos deu de mais sublime em seu olhar sobre o medievalismo, de “O Escudo Negro de Falworth” (1954), com Tony Curtis, a “Ivanhoé” (1952), com Robert Taylor, sem contar o esplendor pop de “O Feitiço de Áquila” (1985). Mas há um terreno mais profundo do que a arena onde o ogro Sir Jean (Matt Damon) e o proto dândi Jacques Le Gris (um viperino Adam Driver) lutam pela honra de um ranço histórico de respeito. Essa tal profundidade é a potência da condição trágica (mas também demiúrgica) do feminino, que se traduz na figura de Marguerite, a extraordinária Jodie Comer, uma fina mistura de Glenn Close com Michelle Pfeiffer. Falar o termo “desonra” para Marguerite seria realçar o carma histórico do sexismo, assumindo o infortúnio dela – ser alvo de uma violência física sexual – do ponto de vista dos homens que a acossam. Ela não é a “desonrada”. Ela é uma vítima da opressão que luta para ter direito a ser ouvida em uma narrativa enervante, pautada por uma investigação em três pontos de vista. E, com ela, Ridley, aos 83 anos, transborda maturidade, evitando estetizações e deixando uma mulher eviscerar seus demônios.

A fotografia de Dariusz Wolski se cobre numa mortalha – em uma dinämica de iluminação bruxuleante – que foge do cogito convencional dos épicos medievais. Não é uma diversão calcada no que houve de perfeito no pretérito e, sim, uma triagem de todas as nossas imperfeições de base. Acrescente na conta de esplendor desse exercício de sabedoria, baseado na prosa de Eric Jager, o mais fascinante trabalho de Ben Affleck desde “Hollywoodland”, que lhe rendeu a Copa Volpi em Veneza, em 2006.

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