O triunfo do Homem-Formiga sob o ferrão da Vespa

O triunfo do Homem-Formiga sob o ferrão da Vespa

Rodrigo Fonseca

09 Julho 2018 | 10h06

Homem-Formiga no traço de John Byrne nas HQs

Rodrigo Fonseca
Fenômeno de bilheteira no fim de semana, quando arrecadou US$ 161 milhões, empatando quase seu custo (US$ 162 milhões), o banho de descarrego chamado “Homem-Formiga e a Vespa” é uma versão gourmetizada do cinema B. E que chega num momento de apogeu de Paul Rudd, que brilha nos EUA, na cena indie, com a comédia LGBT “Ideal home” e o thriller de suspense “The catcher was a spy”.

Chama-se filme b todo exercício cinematográfico, que feito com orçamento raquítico, compensa sua pobreza de recursos com soluções artesanais – na montagem, direção de arte e nos (de)feitos especiais –, aparentando ser uma caricatura (proposital) dos gêneros com os quais dialoga. Só pela caricatura (e sua componente essencial, a ironia) os filmes B alcançam verossimilhança, pelas vias do excesso, do destempero. O rótulo é comum a longas-metragens de horror que necessitavam de criatividade artesanal em sua condição analógica de miserabilidade tecnológica, como é o caso dos filmes de Roger Corman, Dario Argento e George A. Romero. Mas também se aplica o termo a filmes de mestres que caminham – por escolha própria – na mureta da esculhambação como crítica moral à ortodoxia (e ao bom comportamento) industrial, como é o caso de David Cronenberg, de George Miller (e seu excepcional “Mad Max: A Estrada da Fúria”) e o nosso brasileiríssimo José Mojica Marins. Mas eis que, na busca por balões de oxigênio que lhe garantam ar puro para além da repetição de fórmulas, a Marvel também foi bater na porta dos Bês atrás de uma anarquia incomum a blockbusters como “Os Vingadores”, mas que existia de sobra em sua tradição quadrinhófila.
Eis que “Homem-Formiga” (“Ant-Man”), de Peyton Reed, chegou, em 2015, como solução, talvez não para marcar época no rol dos maiores filmes de super-herói da história, mas para nos lembrar o quanto o filão mais rentável de Hollywood no momento pode ser leve, fazer rir e usar e abusar de um ator em estado de graça como Paul Rudd. Resultado: diversão com D, ainda mais doce se visto em boa companhia, pois é programa para se ver a dois (de mão dada) ou em horda (na histeria hormonal dos resquícios adolescentes que vivem adormecidos, ou nem tanto, dentro da gente).

Sucessos de público, “Sim, senhor” (2008) e “Separados pelo casamento” (2006), comédias envernizadas com psicanálise, fizeram do cineasta Peyton Reed um cronista da volta por cima, especializado na reinvenção de indivíduos fraturados. Sua marca autoral, apta a arrancar risos, atraiu a Marvel quando o projeto “Ant-Man” foi idealizado: era necessário um diretor capaz de equilibrar comédia, fragilidades afetivas, ação e fantasia com eficácia. O teste deu certo: em 2015, Reed levou o Homem-Formiga às telas, tendo o sempre brilhante Paul Rudd, espécie de Elliott Gould do cinema contemporâneo, no papel do ladrão inventor Scott Lang (inventado nos quadrinhos por John Byrne e David Michelinie em 1979, nas páginas de “The Avengers” nº 181), num filme que custou US$ 130 milhões e faturou US$ 519 milhões. Era um convite a uma franquia, que se confirma agora, em “Homem-Formiga e a Vespa”, sequência divertidíssima, tão engraçada quanto o original, só que mais requintado na forma. Evangeline Lilly trava com Rudd uma equilibrada relação de protagonismo, sob a armadura da Vespa. Cabe a Lang ajudar a moça a resgatar sua mãe, Janet, a primeira Vespa (Michelle Pfeiffer) do mundo quântico, em duelo contra um gângster digno dos filmes do Trapalhões (papel de Walton Goggins) e a super-vilã Fantasma (Hannah John-Kamen). A narrativa ágil, de fotografia realista, evoca as séries da Marvel nos anos 1970, pela ligeireza e pela estética de sitcom. Há muito de “Starsky & Hutch” e do seriado do “Homem-Aranha” da década de 1970, com Nicholas Hammond.

Peyton Reed dá instruções a Evangeline Lilly, a Vespa, nos sets da Disney

Ainda sobre filmes b, estes, em geral, custam tostões, mas este custou caro, graças aos cofres abertos da Disney: US$ 130 milhões. É menos do que os exemplares do gênero gastam, mas é cerca de quatro vezes mais do que o cult “Kick-Ass” (2010) desembolsou para sair dos gibis e virar tela viva. Mas para ser b não há necessidade de verbas franciscanas. Um filme b pode ser rico (tipo “Marte ataca”, de Tim Burton) e se expressar na condição de segunda divisão pela postura anárquica na forma. Foi o que Peyton Reed conquistou nesta cinessérie exemplar.
p.s.: Tem duas cenas extras pós-créditos: não saia do cinema sem elas. A primeira é trágica. A segunda, hilária.
p.s.2: Na versão brasileira, Márcio Araújo dubla Scott Lang. Já Hope Van Dyne, vivida por Evangeline Lilly, é dublada aqui por Angélica Santos.