O terror brasileiro ganha reforços nas telas

O terror brasileiro ganha reforços nas telas

Rodrigo Fonseca

05 Julho 2016 | 10h15

O Diabo O Diabo Mora Aqui mesmo e ponto

Nasce nesta terça-feira, 5 de julho, uma nova casa para o terror no circuito nacional: às 20h30m, no Cine Odeon – Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, na Cinelândia, Centro do Rio de Janeiro, será dada a largada para a primeira edição do Cineclube InterZona, com a projeção de um dos mais criativos representantes do Brasil lá no Quinto dos Infernos, O Diabo Mora Aqui. Filme-sensação na Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro, esse slasher puro sangue (e põe sangue nele!) abre o projeto coordenado por Ailton Franco Jr. para fazer de uma das mais antigas salas de exibição do país uma vitrine para narrativas fantásticas. No esforço de fazer da praça exibidora carioca um canteiro de reflexão sobre gêneros dramáticos audiovisuais, ele se junta à Sessão do Cramulhão, evento mensal do Cine Joia, de Copacabana, conduzido pelo crítico Mario Abbade, acerca das fronteiras do Mal nas telas: neste, aliás, teremos mais um longa no próximo dia 12. Nesse empenho de mobilização cultural, Ailton foi buscar matéria-prima na novíssima safra de realizadores nacionais, optando por uma produção de R$ 200 mil, rodada no interior de São Paulo com muita deixa para a invenção.

O Diabo Mora Aqui

Elogiado em suas projeções em festivais na Catalunha e no México, com uma evocação dos cânones do terror, O Diabo Mora Aqui acompanha o destino de dois casais jovens em um casarão colonial. Uma figura chamada Mestre das Abelhas e um defunto saído da terra sedento de morte garantem tensão ao longa-metragem dirigido por Dante Vescio e Rodrigo Gasparini, tendo o ótimo Ivo Müller (de Tabu) no elenco. Lá fora (e agora aqui) o filme vem arrebanhando elogios (e fãs) sobretudo pela fotografia de Kauê Zilli.

“Hoje, tendo feito o filme e estando no processo de lançamento, eu sinto que fazer um filme de terror no Brasil envolve muito mais do que risco: existe um medo ligado ao problema do cinema de gênero. Em todos os estágios da produção do filme eu passei por alguma situação com empresas ou pessoas na qual elas adoravam a idéia ou o filme, mas tinham medo de apostar nele por causa do tema”, disse o produtor M. M. Izidoro, que levantou O Diabo Mora Aqui sem a ajuda de editais nem de incentivos públicos. “O (crítico e atual curador do Festival de Brasília) Eduardo Valente assistiu ao nosso filme recentemente e fez um post incrível no Facebook falando sobre como O Diabo… foi bem aceito pelo circuito de festivais, pela critica, pelo mercado internacional, mas, por aqui, nem uma distribuidora comercial ou rede de cinema quis apostar na gente. Mesmo com tudo isso, temos um agente de vendas internacional e já estamos conseguindo reaver parte do nosso investimento com vendas para os mercados externos”.

13 O Diabo Mora Aqui e lá e acabou

Ecos do passado escravocrata brasileiro alimentam a porção fantasmagórica de O Diabo Mora Aqui, centrando-se nos rituais para a libertação de um bebê morto ao nascer e no ódio ancestral de um escravo (Sidney Santiago) vítima de humilhações nas mãos do senhor do casarão, encarnado por Muller. Ao longo de 79 minutos de viradas contínuas, o público de Tiradentes se deparou com uma nova abordagem brasileira para o gênero, mais próxima das referências de nosso folclore regional.

“Eu queria emular neste projeto um sentimento de algumas filmografias e movimentos cinematográficos, especialmente, o cinema brasileiro das décadas de 1960 e 70 e as obras de cineastas como José Mojica Marins e Joaquim Pedro de Andrade. Além, é claro, dos filmes americanos de 1970 e 1980 com cineastas como John Carpenter, John Landis e Bernard Rose”, explica Izidoro.

Enquanto isso, o cinema de horror brasileiro segue representado em cartaz por O Caseiro, que conta com o carisma de Bruno Garcia no papel de um pesquisador das forças do Além às voltas com um (suposto) espectro num casarão do interior. Há vaga para o gênero também nas presas de Fausto Fawcett em Vampiro 40 Graus, produção de Luiz Carlos Barreto. Tem terror vindo também de José Eduardo Belmonte com o esperado Aurora.