‘O Tempo Com Você’ em cartaz

‘O Tempo Com Você’ em cartaz

Rodrigo Fonseca

02 de janeiro de 2021 | 10h41

RODRIGO FONSECA
Tá faltando filme em circuito, uma vez que a erosão do público pagante, derivada da pandemia e do medo da covid-19, tem limitado as estreias em um planisfério exibidor majoritariamente dominado por “Mulher-Maravilha 1984” – que é um filmaço e está atraindo espectadores que andavam sumido – mas carente de mais diversidade. A chegada de uma animação como “O Tempo Com Você” (“Tenki no ko”) a algumas das maiores salas de exibição do Rio de Janeiro – Cinépolis Rio Design Barra e Lagoon, Cinemark Downtown e Botafogo, UCI New York, Norte Shopping e Park Shopping – cai como uma vitamina efervescente na corrente sanguínea do audiovisual. É um dos mais finos exemplares da japanimation contemporânea, aclamado pela crítica nos festivais de Toronto e de San Sebastián, em 2019. À época, sua arrecadação, na venda de ingressos, foi de US$ 193,4 milhões, o que motivou as autoridades culturais do Japão a escolher o desenho como seu representante ao Oscar, em 2020. Originalidade é sua marca, aliás, é a marca de todos os longas que o realizador Makoto Shinkai faz.

Sua obra segue as trilhas da fantasia sem caminhas por veredas da fábula, como as de Hayao Miyazaki, o maior mestre dos animes, oscarizado em 2003 por “A Viagem de Chihiro”. Desde a sci-fi “Distrito 9” (2009) não se vê na indústria cinematográfica premissas tão originais quanto as filmadas… ou melhor, animadas… por Shinkai. Ele virou um Midas comercial na Ásia com “Your Name”, exibido em San Sebastián em 2016, sob aplausos de júbilo da plateia nerd do norte da Espanha. Fenômeno animado de bilheteria, “Seu Nome”, como ficou conhecido por aqui, vai ser adaptado para Hollywood, via J.J. Abrams (de “Lost”, “Star Trek”, “Star Wars: O Despertar da Força”). Há cinco anos, aquele sci-fi sobre amantes deslocados no Tempo e no Espaço papou pra si uma bilheteria estimada em US$ 355, 2 milhões e somou uma legião de fãs. Esses mesmos entusiastas prestigiaram seu “Weathering with you”, título internacional de “Tenki no ko” ajudando-o a fazer fortunas. Nele, Hodaka, um rapaz que fugiu de casa, no interior do Japão, para tentar a sorte em Tóquio, cai de amores por uma menina capaz de alterar o clima e fazer a chuva parar, por mais tórrida que esta seja. A garota é uma entidade climática que quer ter uma vida feliz entre os mortais. O problema: destinada a ser a Dama do Clima, regendo as tormentas e o calor, a menina pode virar uma névoa e se dissipar nos céus com o uso contínuo e descontrolado de seus dotes místicos.

Este enredo chegou a San Sebastián cheio de prestígio dado à grife de excelência que Shinkai virou na seara da japanimation com “Your Name”. Ao longo de sua carreira comercial nos EUA, “Seu Nome” papou US$ 5 milhões num circuitinho diminuto a produção levou o troféu de melhor animação no Festival de Sitges, evento catalão, encarado como um marco das narrativas fantásticas. Ganhou ainda láureas nas categorias melhor roteiro e melhor trilha sonora da Academia Japonesa (o equivalente nipônico da Academia de Hollywood). E, de quebra, o êxito no audiovisual abriu para o filme um veio quadinístico: um mangá inspirado na trama hoje vende como pão quente nas bancas da Ásia e nas brasileiras. A edição em Português é da JBC. A adaptação é assinada por Ranmaru Kotone (de “Blood-C”).

p.s.: Falando de animação: “Toca” (“Burrow”), de Madeline Sharafian, sobre o empenho de um coelho para construir (ou seria cavar) uma casa própria em um condomínio subterrâneo de uma floresta. A edição é antológica. E ainda tem samba na trilha sonora.

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