O temor e o tremor de ‘Lazarus’: o rock de Hirsch

O temor e o tremor de ‘Lazarus’: o rock de Hirsch

Rodrigo Fonseca

15 de fevereiro de 2020 | 09h26

Rodrigo Fonseca
Existe uma inversão de ponto de vista na forma de se representar a translação em “Lazarus”, a homilia roqueira de Felipe Hirsch em cartaz até 15 de maço no Teatro Multiplan, na Barra, com sua encenação de uma perpétua escuridão, sulcada por frestas de luz: não é da Terra que se vê o espaço com suas proporções agigantadas, é do Espaço, em sua dimensão monolítica, que se vê este planetinha, na pequeneza tamanho GG das almas que a povoam. É uma filosofia que evoca o Kierkegaard de “O temor e o tremor”: “A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente”. Gravita-se entre o Ontem e o Hoje e entre espíritos flutuantes e corpos cimentados, nos acordes da voz de Jesuíta Barbosa, que dá vida a um herói estagnado na inabilidade de aproveitar o mundo novo (ou Mundo Novo) à sua volta. Na exuberante direção de arte de Daniela Thomas (sempre ela, sempre potente) e Felipe Tassara, um misto de metrópole anglo-saxônica com Mar da Tranquilidade traduz uma metafísica que o encenador de “Não sobre o amor” (2008) toma emprestado do romance “The Man Who Fell to Earth”, escrito por Walter Tevis em 1963. Um romance que, 13 anos depois de seu lançamento foi filmado pelo (pouco estudado) cineasta inglês Nicolas Roeg (1928-2018) com David Bowie (1947-2016), aqui traduzido, literalmente, como “O Homem Que Caiu na Terra”. O que se vê no planisfério armado no Multiplan é uma interseção entre prosa, filme e, sobretudo, o imaginário existencialista do cancioneiro de Bowie. Uma interseção na qual o conceito algumas vezes se torna o eixo da narrativa, afogando a trama, exigindo uma imersão radical em um processo investigativo metafísico sobre desterro. O enredo (em desapego de si mesmo) fala de um ET caído neste planeta, Thomas Newton, que, à maneira inglesa, tenta criar um foguete para voltar à sua casa, nas estrelas, mas sabota seus planos em litros de gim e autopiedade. Jesuíta faz dele um Tio Vanya de linho branco, um Proust numa busca pelo tempo perdido de si mesmo. E o faz na medida da autoralidade de seu diretor, com a ajuda de atrizes em estado de graça como Carla Salle e Bruna Guerin, num tabuleiro de xadrez que sobe e desce. Múltiplas peças, a partir de “Baal Babilônia” (1993), fizeram de Carlos Felipe Lopes Werneck Hirsch um dos mais necessários encenadores do teatro brasileiro, e esta é uma confirmação a mais dessa sua importância, pela construção de coro de sensações afetivas confiado a um elenco em estado líquido, em fervura, com especial destaque para Rômulo Braga e Valentina Herszage, além da imolação de Jesuíta no palco. Mas há um espetáculo dele que dialoga de maneira mais direta com essa aula de astronomia, a montagem de “Temporada de gripe”, de 2003. Nela, a partir de um texto de Will Eno, temos um ambiente hospitalar, num futuro sem emoções, onde um homem sem nome é internado com uma estranha doença: a paixão. Há um sintoma temático – e autoral – similar ao dessa peça em “Lazarus”: a gravidade da doença da peça de Eno era medida pela incapacidade dos médicos de entenderem a fauna de sentimentos à sua volta. Dava-se algo parecido em “Não Sobre o Amor” com a mulher que se recusava a enxergar a as placas tectônicas agitadas por seu correspondente, num esquema de “Nunca te vi, sempre te amei”. Aqui, a doente é aquele que não sabe mais olhar as estrelas com poesia de Ícaro.

Em Kierkegaard, parceiro inaudito (talvez inconsciente) de FH de peça a peça, Abraão ia até o Monte Moriá, sacrificar seu filho, para apreciar a beleza de Deus: a morte era um ônus, mas o gesto estético da imolação, um bônus. “Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se”, escreveu o pensador dinamarquês. Thomas Newton está perdido porque bebeu a própria ousadia e desistiu de seguir. Mais ou menos como Nicolas Roeg fez com no filme com Bowie: uma autopsia em corpo vivo da incapacidade nossa de pedir socorro. Uma percepção de urgência capaz de perpassar, no caso de Roeg, uma obra cinematográfica (linda) que foi de “Performance” (1970) a “Puffball” (2007) gritando os ranços da fragilização. Uma percepção que, em Hirsch, no lembro que o rock ainda salva vidas, desde que ouvido com o peito aberto e a alma vestida de estrelas. No Rio, a temporada de “Lazarus” vai até 16 de fevereiro, voltando após o carnaval de 5 a 15 de março, de quinta a sábado, às 21h, e no domingo, às 19h30. Dá pra chorar e transbordar, e não apenas com “Starman”. As fotos aqui são de Flávia Canavarro.

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