‘O sonho de Noura’ nas alturas

‘O sonho de Noura’ nas alturas

Rodrigo Fonseca

04 de dezembro de 2021 | 08h20

RODRIGO FONSECA
Prestes a encerrar as atividades de sua edição n. 43 neste domingo, o Festival do Cairo jogou seus holofotes sobre uma série de filmes de DNA árabe, como o egípcio “Abu Saddam”, prata de sua seleção competitiva pela Pirâmide de Ouro de 2021. Mas a maneira como o evento vem assegurando olhares da crítica internacional para os filmes do norte da África e do Oriente Médio reverbera por outras vitrines, como as janelas de curtas e de longas que são projetados nas telas de bordo das companhias aéreas. A Air France, por exemplo, que faz uma conexão entre o Velho Mundo e a terra dos faraós, incluiu em sei repertório uma jóia da Tunísia: o contagioso “Noura’s dream”, da diretora Hinde Boujemaa. Exibida em sete mostras internacionais de peso (Toronto, BFI London, Turim), a partir do Festival de San Sebastián, na Espanha, em setembro de 2019, esta produção de €500 mil é um potente exercício de investigação das mazelas sociais. Com uma estrada bem pavimentada de raciocínio crítico pelas veredas do documentário, a cineasta tunisiana embarca na ficção denunciando a microfísica do machismo em seu país a partir do drama da lavadeira Noura, vivida pela (excepcional) atriz e advogada Hend Sabri. A atuação dela é comovente. A encrenca de sua personagem: oprimida por uma rotina de trabalho selvagem, lavando roupas em um hospital, ela sonha se divorciar do (violento) presidiário com quem teve três filhos, a fim de se casar com o mecânico Lassaad (Hakim Boumsaoudi) e se livrar de uma acusação de adultério. Em seu país, pular a cerca é crime, sobretudo quando se é mulher. Mas o tal “sonho” que dá título ao longa-metragem cai por terra quando seu marido meliante (Lotfi Abdelli) sai do xilindró antes do prazo, desejando retomar sua esposa para si. A queda é maior quando ela começa a ver que Lassaad também não tem o mais generoso dos temperamentos. A câmera do fotógrafo Martin Rit (xará do diretor de “Norma Rae”) ajuda Hinde a construir sua narrativa com uma secura documental que só dá trégua à fabulação quando fita o céu azul, de onde um sapato cai na cabeça do filho de Noura, indicando uma moira trágica para esta combatente das opressões de gênero. Há um clima de tensão onipresente por conta da conexão de um dos vértices desse quase triângulo com o submundo. Os policiais berram, o advogado de porta de cadeia grita, tudo cheira a TNT. Mas Noura vai aprendendo, golpe a após golpe, a não esmorecer, seja pelo ideal romântico do querer, seja pelo amor aos filhos. Sua resiliência dá ainda mais tridimensionalidade existencial aos personagens.

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