‘O Som e a Fúria’: seis personagens à procura de um Brasil

‘O Som e a Fúria’: seis personagens à procura de um Brasil

Rodrigo Fonseca

25 de janeiro de 2020 | 16h21

Em cartaz no Oi Futuro do Flamengo, no RJ, até 15 de março, de quinta a domingo às 20h, “O Som e a Fúria” é um jogral de clamor contra nossas desatenções @Fotos de Marília Gurgel

Eis a primeira peça doída e bela nascida em 2020 (ou Rosyane Trotta, um nome a se gravar)
Rodrigo Fonseca
Partindo de uma dica de Guimarães Rosa, no princípio de que “Sorte nunca é de um só, é de dois, é de todos… nasce cada manhã, e já está velha ao meio-dia”, o espírito jogralesco no seio do espetáculo “O som e a fúria” – recém-chegado ao Oi Futuro Flamengo-RJ, onde fica até 15 de março – amamenta um ataque em carga. Ataque esse conjugado na primeira pessoa de um iminente plural, contra desatenções nossas de cada dia. Qual jogo de armar, feito amarelinha de giz caucasiano, negro e ameríndio, a peça tem timbres musicais e se veste em figurinos de distopia: a agulha e a linha de Arlete Rua e Thaís Boulanger vestem desesperos e agonias com perspicácia ímpar. Em cena, usa-se um vozerio para traduzir silêncios e soluços deste ruidoso mundo. Seu barulho, aberto no grito de uma mãe (Tamires Nascimento, afiada qual katana de samurai) para encontrar (e/ou enterrar) o corpo do filho, não abafa a força poética do texto de Rosyane Trotta: realça sua beleza. Dele, pescam-se iguarias. “Miséria serve pra isso: pra aceitar comida em vez de justiça” e “Deus anda permitindo a ausência de futuro para muita gente” são as trutas mais saborosas desse oceano com sal de lágrimas e bolhas de arroto. São sílabas que causam tétano em busca de um lugar entre as brechas abertas pelas canções compostas por Renato Frazão, tipo “Há mais um Pixote na vala”, enquanto se demarca a sensação de que, neste Brasil, “a fala entala na glote”… a fala do pobre, do pobre povo que desacreditou nos heróis. Farpadas como arame, frases edificadas como brados de batalha, como “Só os mortos conhecem o fim da guerra”, tornam o texto de Rosyane a primeira Estrela de Belém do teatro carioca neste 2020 de água choca e de esperanças impróprias para banho. Esculpidos sob uma direção milimétrica, assinada por Jefferson Almeida, com formas pontiagudas, os ditongos, tritongos e pronomes pessoais do caso reto da autora desenham um painel de horrores cotidianos, transformados em práticas familiares na microfísica do abandono estatal e na institucionalização da intolerância. Suas atrizes, qual Tamires, barrufam saliva amarga como marafo de Exu. Os atores, idem: o atabaque ali trota no desespero de um cadafalso armado pra morte. Atuando com bile e grandeza, Livs Ataíde detona uma bomba de raios Gama em nosso peito ao mostrar o Hulk que a homofobia e a transfobia se tornaram. Já Betho Guedes deixa transbordar das alturas, de um quase balanço, o testemunhal de mil formas de exclusão, numa atuação sábia, onde a reflexão é sua parceira no acalanto de verbos. João Vítor Novaes, máquina de aliterações, saltita entre hiatos com uma habilidade cênicas invejável para mascar clichês do Real. E Marcelo de Paula, em estado de graça, dá de presente pra plateia aquele que periga ser a calda do morango mofado do desalento: numa sequência que emula uma briga escolar, entre familiares e um diretor, ele converte certezas em latidos. É um momento de poema, numa peça de urgências onde o respiro só vem quando a arlequina Paula Sholl abre seu sorriso-Cristo, servindo a dois amos, dois latifundiários do afeto: a Perplexidade e a Resiliência. Sua voz-sabiá, numa atuação sempre plácida (vivíssima), é majestade na nossa caça por analgésicos em meio ao torvelinho histórico que Rosyane descasca ao mostrar a condição de “ontem como hoje” dessa tal de contemporaneidade à nossa volta. Essa que confunde democracia com “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Como diretor, Jefferson nem sempre equilibra a força de cada bloco (núcleo), ralentando alguns numa famélica disposição para atacar múltiplos flancos. É uma decisão que, por vezes, esfria o magma de seu solo úmido. Mas o que se mostra (ainda… ou talvez por enquanto) desarmônico é compensado pela habilidade (inegável) que esse encenador tem para construir densas metáforas, avessas ao lugar comum, ao encapar verbetes com gentes e modos de ser. E sua gente, sua trupe – preparada por um Kilauea batizado Daniel Chagas e incandescida sob a lua crescente de retidão do iluminador Luiz Paulo Barreto – reluz faminta por quebrar nossa acomodação. É bonito de ver. Fica de quinta a domingo, às 20h. Vai lá.

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