O som ao redor de ‘Bacurau’ em Cannes

O som ao redor de ‘Bacurau’ em Cannes

Rodrigo Fonseca

16 de maio de 2019 | 09h35

Udo Kier vive o alemão Michael, líder de um bando de assassinos em “Bacurau”

Rodrigo Fonseca
Após uma consagradora sessão de gala na noite de quarta, na Croisette, com direito a sete minutos de aplausos e muitos elogios de críticos dos EUA, da Europa e do Brasil, “Bacurau” entrou nesta quinta-feira em sua segunda maratona no 72º Festival de Cannes: uma bateria de entrevistas, incluindo a press conference com jornalistas do mundo todo. Juliano Dornelles e Kleber Mendonça filho entraram em campo ao lado da produtora Emilie Lesclaux e de parte do elenco nacional – Karine Telles, Silvero Pereira, Bárbara Colen e Thomas Aquino – além do astro cult Udo Kier, da Alemanha. De cara, um recado em prol da diversidade.

“Faço filmes com todos os tipos de pessoas”, disse Kleber, que em 2016, subiu as escadas do Palais des Festivals com um cartaz denunciando golpe de estado no Brasil de Dilma. “Fico a cada dia mais orgulhoso do protesto que fizemos aqui. É importante, na democracia, o direito de expressar descontentamento”.

Ao fim da sessão oficial no Palais des Festivals, Kleber falou, em português, sobre o valor de se defender o ensino no Brasil, num momento de protestos por todo o país contra as mudanças do governo acerca da Educação. “Estamos fazendo a nossa parte para que não se destrua o que foi conquistado no país”, disse Dornelles na coletiva, lotadíssima.

Há que torça o nariz para a atmosfera ultraviolenta, cheia de mistério de “Bacurau”, mas há muito mais gente vibrando com suas virtudes narrativas. Risos nervosos, suspiros de assombro, torcidas apaixonadas e um aplauso num momento de virada marcaram a projeção para a imprensa da saga de uma cidade do Nordeste que, num futuro próximo, com drones em forma de disco voador, some do mapa depois da morte de uma ilustre moradora. O desempenho de Silvero Pereira, como um dos habitantes de maior fúria no local, infla a tela com urros, fúria e sangue, numa narrativa com ecos de “Mad Max” e de Walter Hill (“Warriors – Os Selvagens da Noite”).  “Juliano e eu gostamos da ideia de que você pode trabalhar com informações limitadas sobre o que se passa para entrar no clima do filme”, diz Kleber.

Como o festival começou na terça, é cedo para se falar em potenciais premiáveis, mas já um zumzumzum jurando que Kleber e Juliano apresentaram um material digno de um prêmio de direção.  “Nós discutíamos cortes de cena durante a confecção do roteiro e isso ajudou a trazer para o roteiro a sensação de estarmos subindo uma rampa até um abismo. Vimos muitos faroestes no processo, americanos e italianos, para trazer para a narrativa um clima de wester”, disse Dornelles ao Estado, num papo anterior à coletiva sobre o filme, no qual Sonia Braga para o papel da médica Domingas e uma trupe ainda pouco conhecida para papéis essenciais à trama.

Wilson Rabelo é quem mais se destaca, no papel do professor das crianças de Bacurau: é ele quem se dá conta de que o lugarejo desapareceu da cartografia brasileira. Esse sumiço condiz com a chegada de um par de forasteiros de moto (Antonio Saboia e Karine Teles) e o início de uma onda de mortas ligada a um grupo de estrangeiros chefiados por Michael, papel do mítico ator e modelo alemão Udo Kier, num desempenho impecável. A relação do filme com o filão nordestern, o cinema de cangaço, vem por uma frase que servia de lema aos clássicos de Glauber Rocha: “Mais fortes são os poderes do Povo”. Em “Bacurau”, a frase não é dita, mas vivida, num levante em prol da resistência contra a opressão, que traduz uma série de metáforas políticas. Não por acaso, a trilha sonora de Sérgio Ricardo para o cult “A hora e a vez de Augusto Matraga” (1965), de Roberto Santos, considerada um hino de protesto, embala na feérica luta de um povoado contra predadores do exterior, que matam por prazer.

“Numa sociedade democrática você nunca pode perder o senso do que é certo, nuca pode achar que é razoável um projeto para cortar verba da educação”, disse Kleber na coletiva, onde foi perguntado acerca da decisão governamental publicada no Diário Oficial de que ele devolva RS$ 2,2 milhões aos cofres públicos relativos a supostas questões orçamentais no orçamento de seu cultuado “O som ao redor”, de 2012. “Estamos com advogados vendo isso”.

Nesta quinta-feira, a competição segue com “Atlantique”, da cineasta Mati Diop, e com o novo trabalho do ganhador de duas Palmas Ken Loach, do Reino Unido: “Sorry we missed you”. De todos os concorrentes já exibidos, o mais bem falado é “Les Misérables”, de Ladj Ly, sobre um trio de policiais que se envolvem num conflito com a população de um subúrbio de Paris, com população majoritariamente negra. Mas a atração principal do dia é a passagem de Elton John pela Croisette, para a pré-estreia de gala de “Rocketman”, de Dexter Fletcher, releitura da trajetória de sucessos e fracassos do cantor.

Cannes termina no dia 25, com a entrega de prêmios e a projeção de “Hors norme”, da Olivier Nakache e Éric Toledano, dupla responsável pelo fenômeno “Intocáveis” (2011).

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