‘O Silêncio da Chuva’ chega ao streaming

‘O Silêncio da Chuva’ chega ao streaming

Rodrigo Fonseca

18 de novembro de 2021 | 11h46

RODRIGO FONSECA
Em meio à afirmação do Dia da Consciência Negra, streamings estão investindo em filmes que apostem em condutas antirracistas, como é o caso de “O Silêncio da Chuva”, de Daniel Filho, que está no Globoplay. Nele, temos Lázaro Ramos no papel do mais refinado detetive do cinema brasileiro, o delegado Espinosa. O personagem de Luiz Alfredo Garcia-Roza (1936-2020) é a força motriz do mais recente longa-metragem de Daniel Filho.
Exibido no Festival de Moscou, “Silêncio da Chuva” é um thriller com “T” maiúsculo, daqueles que comportam viradas na margem extrema da surpresa, roubando o fôlego onde se espera uma condução serena. É um filme feito por um realizador escolado, na TV e no cinemão, em muitas frentes dramáticas, da crônica geracional (“O Casal”) ao painel histórico (“Tempos de Paz”), resvalando na paródia do western macaxeira (“O Cangaceiro Trapalhão”). Esse novo trabalho, estruturado em um diálogo com a prosa de Luiz Alfredo Garcia-Roza (1936-2020), demarca um movimento de fina renovação na obra desse campeão de bilheteria, no qual o diretor de “Se Eu Fosse Você…” (2005) vem explorando as mitologias da violência urbana, como visto em seu exuberante “Boca de Ouro”, lançado em 2020, com boa resposta de crítica.

Em ambos, vemos um mergulho em geografias cariocas alheias ao cartão-postal ensolarado da cidade, mediados pela fotografia de Felipe Reinheimer, menos interessada no calor, abrindo-se a sombras. Em “Silêncio da Chuva”, adaptado do romance homônimo de Garcia-Roza laureado com o prêmio Jabuti em 1997, tem até um indício de chiaroscuro, num jogo bruxuleado de luz. Um jogo a partir do qual o filme se ancora na tradição do noir dos anos 1940 e 50, em especial “Capitou Sorrindo” (“The Glass Key”, 1942), de Stuart Heisler; e “Laura” (1944), de Otto Preminger. Esses longas policiais históricos são narrativas sobre o desejo, assunto central de “Boca de Ouro” e da revisão audiovisual da literatura de Garcia-Roza, relida numa triagem de perversões pelo roteirista Lusa Silvestre (de “Estômago”). O roteiro é assinado por ele, com a colaboração de Renata Correa, Ana Maria Moretzsohn e Pedro Barbalho, lapidando algo do qual aquela deformação sociológica falada lá no início deste papo sempre desdenha: o heroísmo. Pilar da engenharia de muitos gêneros, especiais aqueles ligados à ação e à investigação (desde “Édipo Rei”, a peça), a figura do herói encontra corpo e (sobretudo) alma no Espinosa de Lázaro Ramos, o achado deste trabalho de Daniel Filho. Ou, melhor, um dos achados, pois o que Thalita Carauta faz, no papel da tira Daia, é surpreendente. Ela faz da policial uma figura provocativa.
Mas o nome Espinosa é quase um sinônimo de Garcia-Roza. E a partir desse nome, xará do filósofo por trás do conceito de “Substância”, Daniel/Lusa exercita(m) sutileza, fazendo uma denúncia do racismo institucionalizado no país, com o desdém feito contra o delegado vivido por Lázaro. Uma hora perguntam “que nome é esse?”, ao olharem sua pele com preconceito; e, noutro momento, dizem “você até que sabe bem o português”. Ali é o Daniel Filho de “Malu Mulher” (1979) e de “A Justiceira” (1997) sendo Daniel Filho: toda trama abre precedentes para um olhar para as relações, afetivas e sociais. É um carimbo autoral de seu storytelling.
Tem Lázaro Ramos na madrugada de segunda, às 2h45, em “Tudo o Que Aprendemos Juntos” (2015), de Sergio Machado.

p.s.: Na madrugada deste domingo, às 2h50, o “Supercine” da Globo exibe “Doutor Gama”, de Jeferson De: Novo trabalho do realizador de “Bróder” (2010), a cinebiografia do advogado abolicionista Luiz Gama (1830-1882), responsável pela libertação de cerca de 500 escravizados é um estudo da intolerância no país. Romeu Evaristo é um dos destaques do elenco.

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