Sexismo é o alvo da Filha da Mãe: HQ empoderada

Sexismo é o alvo da Filha da Mãe: HQ empoderada

Rodrigo Fonseca

23 de novembro de 2019 | 20h04

RODRIGO FONSECA
Apesar da concorrência com a Marvel e a DC, o quadrinho brasileiro formou, nos últimos cinco anos, uma Liga da Justiça verde e amarela com fôlego e vontade de potência para fazer frente a kriptonianos, aracnídeos e Vingadores com o carisma de Pérola, O Santo, o Doutrinador e, agora, de Cleo, enfermeira inimiga do machismo. Nesta segunda, na Livraria Argumento, no Leblon, no Rio de Janeiro, às 19h, a mais nova – e empoderada – heroína da HQ nacional vai ser apresentada aos quadrinhófilos de todo o país, com o lançamento da graphic novel “A Filha da Mãe”, da editora Itmix. Tinda Costa assina o roteiro e Alexandre Magalhães pilota as ilustrações da saga de uma vítima de violência doméstica que, sob o manto da sororidade, busca ajudar outras mulheres a lutar por seus direitos.

“O feminicío, em geral, acontece por algum motivo fútil – por ciúme, por não aceitar a separação, ódio – ou, simplesmente, por uma discriminação de gênero: a vítima é mulher, hétero, homossexual ou trans. Acredito que, ao mostrar como é injusto a morte de uma pessoa por razões tão tolas e, ao mesmo tempo, ao apresentar um protagonista tão forte – uma mulher que se rebela contra essa situação, questiona esse status quo e se torna uma feminista implacável na luta pelos direitos de outras mulheres -, ‘A Filha da Mãe’ tem tudo para incitar uma reflexão”, diz Tinda, que escalou a psicanalista Claudia Domingues para fazer o prefácio. “Na reunião que Cleo faz no hospital, com as mulheres vítimas de violência, é tratado uma importante questão feminista: a importância das religiões na formação da identidade de gênero ou, melhor, como as tradições religiosas têm esse papel fundamental na perpetuação de pensamentos e práticas que inferioriza a figura feminina na sociedade. É sempre aquela história: o filho do homem é Deus, já a filha da mãe é puta. Por isso, eu acredito que a Cleo vai incentivar muitas mulheres a procurar saber mais sobre seus direitos. A Cleo luta contra o machismo que acha que mulheres são cidadãs de segunda categoria, seres inferiores, passíveis de morte sem consequência para o assassino. Ela quer ensinar que feminista não é palavrão, bicho-papão que vai roubar os ‘direitos’ dos homens, como hoje muita gente, no Brasil, acredita que é”.

Garantia de excelência na produção de storyboards para o cinema, Alexandre Magalhães funde diferentes referências na construção da narrativa gráfica. “Foi uma grande ‘mistura’, e isso foi de propósito, a Bel (editora da Itmix, sócia da roteirista do álbum) e a Tinda me apresentaram a graphic novel do francês Fabien Toulmé, ‘Não era você que eu esperava’, em que as páginas eram monocromáticas”, diz Alexandre. “Eu achei bacana a referência e aplicamos a monocromia para dar ‘clima’. Esse é meu primeiro trabalho profissional de quadrinhos. O traço ainda não está ‘definido’, mas busquei alguns momentos no Mike Mignola, Rafael Albuquerque, Péricles Junior, Will Eisner e Scott MacCloud… e ainda tive uma luxuosa orientação do Cisko Diz”.

p.s.: Falando em sororidade, o Festival Cabíria, que se debruça sobre singularidades estéticas de realizadoras e roteiristas, rola até domingo na Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM-RJ), sob os auspícios de Marília Nogueira, que levanta o evento num empenho louvável. Nos dias 25 e 26, a mostra vai para o Cine Maison e para a Casa de Rui Barbosa. O brilhante “Alfazema”, de Sabrina Fidalgo, passou por lá. Neste domingão, rola o .doc “À Luz Delas”, de Nina Tedesco e Luana Farias.

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