‘O Segredo de Davi’: um thriller de mil virtudes

‘O Segredo de Davi’: um thriller de mil virtudes

Rodrigo Fonseca

14 de junho de 2021 | 09h04

Um clima macabro decanta o mistério de “O Segredo de Davi”, que será exibido nesta madrugada na Globo

Rodrigo Fonseca
Tem um thriller brasileiro de gelar a espinha na programação desta madrugada da TV Globo: “O Segredo de Davi” (2018). Tem sessão dele às 2h05 no “Corujão”. Apoiado em uma delicadíssima direção de arte, cujos excessos sazonais de elementos, luzes ou cores lhe dá um ar de giallo (termo usado para definir thrillers de psicose da Itália), o filme é uma (bem-vinda) incursão nacional no universo do suspense num momento em que o cinema nacional (re)aprende o valor dos filões de gênero. E aqui, a educação não se dá pela pedra, e sim pela fina flor do arrepio: é impossível olhar para a saga de Davi, estudante obcecado em filtrar o mundo a partir de uma câmera, e não voltar no tempo até a década de 80 de “Dublê de corpo”, de 1984, e “Um tiro na noite”, de 1981. Ambos foram dirigidos por Brian De Palma, o gênio americano que se interessa mais pelo potencial ilusório da imagem do pela sua potência de revelar verdades. É esse o caso deste longa feito no Brasil. Na direção, o estreante em longas Diego Freitas (de “Sal”, premiadíssimo curta) vai pela vereda similares às usadas por De Palma: seu protagonista tem uma psiquê fraturada, usa uma filmadora como forma de expressão e transita (querendo ou não) pelas páginas de Platão, o pensador do idealismo em oposição à solidez do real. Com sua estranheza, com seu capuz de moletom num look à la Xavier Dolan (diretor canadense de forte estilização), Davi é um jovem introspectivo que navega pelo crime levado por um instinto assassino. Isso é o que parece. E aqui… parecer conta mais do que fatos concretos. O filmaço que se impõe na narrativa de Freitas são as mais variadas aparências que brotam do olhar de Nicolas Prattes, inflamável na pele do Tom Ripley chamado Davi. É uma atuação de assustar… pela virtude e pela maturidade.

p.s.: Com roteiro de Pedro Henrique Lopes e direção de Diego Morais, o experimento cênico “Transe”, que estreia dia 17 de junho, reflete sobre a construção de nossa imagem e tabus que envolvem a sexualidade e a saúde mental. O drama acompanha a história de um garoto que cria um personagem de si mesmo ao entrar na prostituição. O roteiro é baseado em relatos reais de garotos de programa e suas experiências na criação de múltiplos personagens para exercer a profissão. Em cena, estão Pedro Henrique Lopes e Oscar Fabião. “Quis criar uma trama de embate entre duas personalidades, sem cair no óbvio do conflito maniqueísta entre o anjinho e o diabinho. Colocamos em oposição momentos diferentes da carreira do protagonista, como o começo cheio de pudores, quando ele tinha medo de dar vazão aos desejos, até uma fase mais libertina e liberta. E questionamos o quanto as nossas inseguranças nos impedem de viver como queremos”, analisa o autor e ator Pedro Henrique Lopes. O espetáculo fica disponível gratuitamente entre 17 de junho e 18 de julho, com ingressos gratuitos retirados pelo Sympla (https://www.sympla.com.br/transe__1226473).

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