O sal de Garrel nas telas francesas

O sal de Garrel nas telas francesas

Rodrigo Fonseca

13 de julho de 2020 | 10h40

Aos 72 anos, Philippe Garrel, fruto outonal da Nouvelle Vague, faz do amor seu discurso de liberdade, lançado “Le Sel des Larmes” nesta terça em Paris e arredores

Rodrigo Fonseca
Aquecido cá por estas bandas pelo www.festivalvariluxemcasa.com.br, com seu cardápio cheio de cults, o cinema francês retoma, a pleno vapor, suas atividades, após três meses de salas fechadas pela pandemia, reapresentando longas que andavam mobilizando seu circuito em dias anteriores à pandemia – como o filme brasileiro “Três Verões” – e abrindo telas para estreias, como “Le Sel des Larmes”. É Philippe Garrel quem assina esta história de (des)amor em tempos de cinismo e egoísmo, com um preto e branco arrebatador. O lançamento por lá vai ser nesta terça. “Frequentei a Cinemateca e o Louvre em paralelo, o que me fez entender o cinema como a arte pictórica que vem na sequência da pintura. O preto e branco me remete aos filmes que me formaram, aos tesouros da era muda, permitindo que eu os homenageie ao mesmo tempo em que liberto o espectador dos vícios do Real, para soltar seu imaginário”, disse o diretor de 72 anos ao P de Pop, em entrevista concedida na Berlinale, onde seu drama romântico disputou o Urso Ouro, abrindo polêmicas.
Controvérsias cercam a maneira como Garrel representa o querer. Com distribuição no Brasil assegurada pela Fênix, o novo trabalho do realizador de “A cicatriz interior” (1972) e “A fronteira da alvorada” (indicado à Palma de Ouro de Cannes, em 2008) fala de um estudante francês, Luc (Logann Antuofermo), siderado por seu velho pai (André Wilms), que se apaixona por uma jovem de origem africana, Djemila (Oulaya Amamra) em meio a uma mudança de cidade. Ele se muda para tocar seus estudos. Mas a paixão pela moça vai alterar sua rotina e liberar sentimentos que hão de abrir feridas em sua relação familiar.
“Quando eu tinha uns 13 anos, eu descobri Rimbaud. A beleza de seus versos me levou a um lugar de absoluta liberdade. Um filme ganha uma dimensão de poema quando provoca essa sensação”, diz o cineasta.

Pela lógica de André Gide (1869-1951), autor fetiche de Garrel, segundo quem “as coisas mais belas são ditadas pela loucura e escritas pela razão”, o sentimento expresso no filme “Le Sel des Larmes” é a sede de amar. Na trama, o que leva a jovem Djemila (Oulaya Amamra) a um estágio de exasperação, é o desatino amoroso. São gradações diferentes do porvir, da barriga que esfria, da mão que sua: ou seja, os sintomas do objeto pontiagudo chamado querer. Há muitos gestos desnecessários em sua relação com Luc. Mas o último verbete que se pode usar para falar do contagioso longa de Philippe Garrel é “desnecessário”, pois há medida para tudo nele. Na sequência mais cálida desse poema sobre inconstâncias, a personagem vivida com retidão por Oulaya vai a um bar, num momento de apuro na espera por quem está longe. Vai pedir um cigarro a um velho atendente, para aliviar a ausência física de Luc, aspirante a carpinteiro encarnado por Logann Antuofermo com presas de dragão só vistas com Jean-Paul Belmondo. O ancião olha a moça nervosa e anula os dengos, dizendo: “Conheci mulheres que enlouqueceram esperando”. O alerta é indigesto e sem tato, mas traduz algo da ordem do cuidado, do carinho, do zelo que as figuras grisalhas do filme demonstram.

p.s.: Falando de cineasta francês, tem Olivier Assayas no Globoplay: a plataforma resgata seu obrigatório “Carlos”, lançado em Cannes em 2010. Em três episódios, a produção revive os feitos de Carlos, o Chacal, terrorista venezuelano que foi o homem mais procurado do mundo entre as décadas de 1970 e 80.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.